Cada vez mais brasileiros optam pelo esporte, considerado democrático, um facilitador da sociabilização e um "remédio natural" para a saúde física e mental
Brasil, o país do futebol? Pode ser, mas tem outro esporte que vem ganhando a preferência entre os brasileiros, sem fazer distinção de idade, sexo ou classe social. Basta ter um par de tênis, uma camiseta e um shorts , abrir o portão de casa e escolher o trajeto, pisando sobre o asfalto - seja uma caminhada para iniciantes ou um ritmo mais acelerado para quem tem melhor preparo físico.
Pesquisa "Perfil do Atleta Brasileiro 2024", divulgada nesta segunda-feira (6) pela Ticket Sports, marketplace para inscrições em provas de corrida de rua, ciclismo e triatlo, aponta que no ano passado foram recebidas 1,8 milhão de inscrições - 75% de crescimento na comparação com os números aferidos em 2023 - e 87,3% das vendas vieram das corridas de rua.
Veja como foi a distribuição das inscrições em provas de rua no ano passado:
O Nordeste foi a região com mais crescimento em relação ao levantamento anterior, de 2023: sua participação passou de 9% para 22,3%. O Sudeste segue na liderança, mas recuou de 60,2% para 51%. A relação entre homens (50,1%) e mulheres (49,9%) é muito próxima, o que confirma como essa atividade é democrática.
Ainda segundo a pesquisa da Ticket Sports, duas faixas etárias tiveram destaque em 2024 em comparação a 2023: entre 15 e 25 anos , a evolução de inscritos foi de 7,9% para 10,9%. Entre 26 e 35 anos , a alta foi de 24,8% para 17,9%. Outra características entre os corredores é o gosto pela participação em provas em outro município ou estado. Ao todo, 48% dos atletas, ou seja, quase a metade, saíram de suas cidades para competir.
Participação nas inscrições em competições, segundo faixa etária:
"A corrida de rua no Brasil vive um fenômeno inédito de novos entrantes. Em 2024, 35% da nossa base de clientes foi renovada. Estamos falando que cerca de um terço nunca tinha participado de uma prova", destaca Daniel Krutman, CEO da Ticket Sports.
Para o empresário, ao contrário do que muitos dizem, não se trata de um modismo. "Encaro como um fenômeno social, de transformação humana". Entre os fatos que vêm contribuindo para o aumento do interesse pela corrida de rua estão, segundo ele, o fim da pandemia , que valorizou a busca pela saúde e a qualidade de vida , e a busca pela ocupação dos espaços públicos depois de um período, como lembra Krutman, "em que ficamos enclausurados".
A corrida também ganha força com o aumento de influenciadores digitais que registram e divulgam seu dia a dia - treinos, alimentação e lançamentos de tênis. A geração Z , nascida já acostumada à cultura digital, tem um papel importante no aumento do interesse dos corredores - pesquisas mostram que é uma fatia da população mais propensa a hábitos saudáveis , como dormir e acordar mais cedo e consumir bebidas sem álcool
Uma prova como a São Silvestre , que acaba de chegar à edição de número 100 e é a mais importante do Brasil , é um dos exemplos de como a corrida de rua é uma prática cada vez mais atraente. Em 2024, as inscrições - 37,5 mil - se esgotaram dois meses antes da competição, realizada em 31 de dezembro, na capital paulista.
QUALIDADE DE VIDA
Para o ex-maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima , bicampeão dos Jogos Pan-Americanos, medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004, não há dúvida quanto a relação entre o aumento dos praticantes de corrida e a busca por qualidade de vida também por meio de atividades esportivas.
"Quando falamos de corrida de rua, não estamos tratando apenas de um aliado na melhora do desempenho físico , mas também emocional e até profissional . Quem corre se torna mais sociável, leva a superação do esporte para o cotidiano, tanto para a vida pessoal quanto para o trabalho", explica o ex-maratonista.
Cordeiro de Lima começou a treinar aos 15 anos, no interior do Paraná, incentivado pelo professor de educação física. Na época ele se revezava entre o trabalho na lavoura, a escola e os treinos. Nas primeiras competições, foi preciso emprestar os tênis apropriados para corrida. Hoje aposentado das provas, ele conta que muitas vezes chega em casa cansado e, para não "jogar a toalha", trata de vestir a roupa esportiva e o par de tênis e logo ir para o asfalto.
Veja o que Vanderlei Cordeiro de Lima sugere para quem quer começar a correr:
Antes de começar a correr ou praticar qualquer atividade esportiva, passe por um médico para saber como anda a saúde e se você está apto a treinar. Pode haver a predisposição para algum problema de saúde, independentemente da idade.
Quando começamos a correr, a autocobrança é inevitável. Mas é preciso fazer um planejamento para os treinos para ser algo prazeroso, livre de dores ou lesões
O QUE DIZ A MEDICINA
As pesquisas mostram uma série de ganhos para o corpo de quem costuma correr, como a melhora do condicionamento aeróbico, o que impacta na diminuição da mortalidade. Segundo Cristina Milagre, cardiologista e especialista em medicina do esporte do HCor, também já se constatou uma melhor na saúde óssea, uma vez que o exercício de impacto, como a corrida, favorece a absorção de massa óssea, prevenindo a osteoporose.
Outros ganhos, de acordo com a especialista, são o controle do diabetes e da hipertensão . "É um tratamento não farmacológico para quem tem esse tipo de doença, mas a atividade também atua de forma preventiva ." Além disso, há impacto positivo no controle do colesterol e na circulação sanguínea , na qualidade do sono e da saúde intestinal, no sistema imunológico e na perda de peso , já que esse é um exercício de alta intensidade.
A saúde mental também é influenciada pela prática da corrida, segundo a cardiologista. "Há uma melhora da ansiedade, do controle do estresse e a sensação de bem-estar e de relaxamento depois de um treino", completa a especialista do HCor.
Uma boa corrida também ativa mecanismos cerebrais , como o sistema endocanabinoide, relacionado à plasticidade cerebral, aprendizado, memória, processos de regulação do metabolismo . Sabe-se ainda que há a liberação de serotonina, conhecida como hormônio da felicidade, e dopamina, que age no mecanismo de recompensa cerebral, com a sensação de prazer
POUPANÇA PARA A VIDA
Tem sido cada vez mais comum ver a troca da atividade física pelo tempo diante de telas. Desde muito novas, crianças são entretidas pelo celular, sem interesse por brincadeiras e pela sociabilização.
Segundo estudo feito por pesquisadores da Unesp , publicado na Agência FAPESP , os exercícios durante a infância e a adolescência gera benefícios cardiovasculares ao l ongo da vida , ainda que o adulto não seja fisicamente ativo . A pesquisa avaliou 242 moradores de Santo Anastácio (SP) e concluiu que entre as vantagens estão o controle da frequência cardíaca pelo sistema nervoso autônomo (modulação autonômica cardíaca). Esse é um marcador de risco cardiovascular e de mortalidade muito importante.
Os dados foram coletados por meio do uso de sensores vestíveis nos voluntários, com capacidade de captar os batimentos cardíacos e transferência dos dados para um relógio. Foi instalado ainda um acelerômetro preso à cintura para monitorar o tempo e a intensidade da atividade física diária.
Os pesquisadores ajustaram os dados e fizeram uma classificação do que era benefício obtido da prática esportiva na infância ou adolescência e o que era resultado da atividade física recente. A conclusão é que o exercício físico funciona como uma “poupança” com ganhos que o corpo vai "consumir" ao longo da vida.