Notícia

Yahoo!

Coronavírus | Segunda onda pode causar grande impacto psicológico

Publicado em 22 junho 2020

Por Ricardo Zorzetto | Revista Pesquisa FAPESP

Já não é exatamente um segredo a possibilidade de uma segunda onda de contágios da COVID-19, uma vez que embora determinados lugares estejam se livrando da quarentena aos pouquinhos, os casos só fazem aumentar. É o que tem acontecido nos Estados Unidos, por exemplo, e aqui no Brasil também, já que apesar de algumas cidades liberarem a abertura do comércio, não há queda no número de casos. Com isso, especialistas estão preocupados não apenas com a infecção em si, mas também com o fato de que isso possa abalar psicologicamente as pessoas.

A previsão de uma segunda onda de contágios no Brasil chegou a ser apresentada no dia 25 de março e publicada em 30 de março — antes mesmo de atingir o pico da primeira onda — na revista científica Fapesp, a partir da análise de um grupo de pesquisadores formado da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Fundação Getulio Vargas (FGV), ambas no Rio de Janeiro.

Em entrevista ao portal norte-americano Washington Examiner, Crystal Washington, professor de psicologia da Universidade de Connecticut declarou: "Uma segunda onda seria devastadora para muita gente. Há uma sensação de que passamos por um período realmente terrível e traumático e agora estamos em uma fase de reabertura e recuperação".

As pessoas começaram a deixar um pouco do estresse da COVID-19 para trás, de modo que uma segunda onda provocaria uma sensação totalmente nova e talvez mais profunda de medo e incerteza, segundo o especialista. "Sentiríamos que estamos retraumatizados e provavelmente mais angustiados e sem esperança do que na primeira vez", reiterou.

Uma das razões pelas quais o coronavírus está afetando tanto a saúde mental das pessoas é que elas não têm uma ideia clara de quando a emergência terminará, segundo Shauna Springer, psicóloga da instituição norte-americana Stella Center. "Muitos de nós poderiam tolerar até um período muito longo de quarentena se soubéssemos quando isso terminaria. Não saber uma data está trazendo consequências em nosso psicológico".

O impacto de uma segunda onda será diferente dependendo das circunstâncias de uma pessoa, como o tipo de trabalho que ela possui. Alguém cujo trabalho pode ser facilmente transferido para a Internet e não tem medo de perdê-lo vai se sair melhor do que uma pessoa que teme perder seus negócios ou ficar desempregada novamente, segundo os especialistas. Alguns conseguiram voltar ao trabalho desde a reabertura do país, mas poderiam perder o emprego novamente se ocorresse uma segunda onda. "À medida que a economia se abre, eles começam a sentir uma nova esperança de recuperação financeira. É provável que essa pessoa sinta um impacto muito maior de uma segunda onda", disse Springer.

Outro motivo pelo qual a segunda onda seria pior que a primeira é o efeito do estresse prolongado, que pode ser mais prejudicial do que os estresses de curto prazo. Os especialistas da área da psicologia apontam que o maior risco de suicídio relacionado ao coronavírus será entre outubro e dezembro, se não houver novas ondas do vírus. Mas se houvesse uma segunda ou terceira onda, a situação mudaria drasticamente.