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Coronavírus pode matar células de defesa do organismo, sugere estudo

Publicado em 16 setembro 2020

Um estudo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto sugere que o novo coronavírus pode infectar e provocar a morte de diferentes tipos de linfócitos, que correspondem a células fundamentais do sistema de defesa do organismo humano. Apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), o trabalho foi divulgado no repositório bioRxiv e está em processo de revisão por pares.

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Em entrevista à Agência Fapesp, o coordenador da pesquisa, Eurico Arruda, afirma que, desde o início da pandemia, são observadas quedas acentuadas na contagem de linfócitos no sangue de pacientes com Covid-19. Durante infecções, é comum que parte das células de defesa deixem a circulação e atuem em tecidos para combater agentes invasores, explica o cientista.

Experimentos anteriores, porém, indicaram que a quantidade de linfócitos presente nos tecidos de pacientes que morreram devido ao novo coronavírus não poderia explicar queda do volume de células de defesa detectada no sangue dessas pessoas quando ainda estavam internadas. Os pesquisadores suspeitaram que outros mecanismos pudessem estar envolvidos e decidiram investigar se o vírus poderia invadir os linfócitos.

Eles isolaram as células mononucleares - grupo que compreende monócitos e linfócitos - de cinco pacientes saudáveis e as expuseram ao novo coronavírus. Com testes moleculares e um anticorpo capaz de reconhecer o agente invasor dentro das células, os cientistas identificaram que o Sars-Cov-2 não só infecta os linfócitos, mas também pode se reproduzir dentro deles.

Segunda etapa

Na sequência, foram realizados estudos com células mononucleares de 22 pacientes internados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), com quadros moderados e severos de Covid-19. As pesquisas indicaram grandes variações no volume de células infectadas entre os participantes. Segundo Arruda, embora os perfis clínicos distintos dos pacientes tenham dificultado a comparação, as análises confirmaram a presença do vírus no interior das células mononucleares.

O Brasil soma mais de 4,4 milhões de casos confirmados de Covid-19. Imagem: Shutterstock

Os pesquisadores ainda selecionaram amostras de 15 pacientes para estudar as diferenças individuais no volume de linfócitos. As amostras foram segmentadas com base no tempo de coleta após o início dos sintomas dos participantes. Em todos os casos analisados, os linfócitos B apresentaram as maiores taxas de infecção. Isso poderia ajudar a explicar a hipótese de que algumas pessoas quase não apresentam anticorpos depois de se recuperarem de quadros de Covid-19.

Já no caso dos monócitos, o estudo apontou que quanto mais avançado o estágio da doença, maior o volume de células infectadas. A pesquisa também identificou evidências de que o vírus pode se reproduzir no interior dos glóbulos brancos. Para Arruda, a capacidade do coronavírus de infectar as células de defesa e se replicar dentro delas é um "potencial complicador".

"Pode deixar o paciente suscetível as infecções oportunistas e os hospitais estão repletos de bactérias resistentes. Os médicos precisam estar atentos a esse fato", afirma o cientista à Agência Fapesp. Ele ainda destacou que são necessárias mais investigações para verificar "que tipo de efeito tardio" a infecção do novo coronavírus pode ter no sistema imune.