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Coronavírus no cérebro? Pesquisadores investigam infecção em neurônios humanos

Publicado em 30 abril 2020

Além dos problemas respiratórios causados pela COVID-19, médicos e pesquisadores já identificaram uma série de sintomas em pacientes infectados pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2), como perda de olfato e de paladar, confusão mental, derrame e até dores musculares. Agora, cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) alertam para a capacidade desse vírus em infectar neurônios humanos.

A hipótese foi confirmada a partir do exame de PCR em tempo real, que é o mesmo método usado no diagnóstico da COVID-19 em laboratórios e hospitais. Para o teste fora do laboratório, os profissionais da saúde coletam a secreção respiratória do paciente suspeito e realizam a detecção direta do vírus.

Através de experimentos feitos com cultura de células em laboratório, o grupo de pesquisadores brasileiros, coordenado pelo professor do Instituto de Biologia Daniel Martins de Souza, segue investigando como a infecção e o aumento da carga viral nas células nervosas pode afetar o funcionamento desse sistema.

De acordo com as primeiras etapas do estudo, já se sabe que os neurônios expressam a proteína ACE-2 (enzima conversora de angiotensina 2, na sigla em inglês) e é por essa molécula que o coronavírus se conecta para invadir as células humanas.

Etapas da pesquisa

Nos próximos dias, os cientistas da Unicamp irão investigar de que modo o funcionamento dessas células nervosas é alterado pela infecção do novo coronavírus. “Vamos comparar as proteínas e demais metabólitos presentes nas culturas celulares antes e após a infecção. A ideia é observar como o padrão das moléculas muda e, com base nessa informação, tentar contar a história de como o vírus atua no sistema nervoso central”, esclarece Martins de Souza para a Agência FAPESP.

No experimento, já realizado pela pós-doutoranda Fernanda Crunfli para a confirmação da infecção em neurônios, a contaminação foi induzida em uma linhagem celular cerebral humana, além de neurônios humanos obtidos a partir de células-tronco.

“Também estamos começando testes com astrócitos humanos [células do sistema nervoso que sustentam e nutrem os neurônios] e, em breve, saberemos se o vírus infecta essas células, que dão suporte ao funcionamento dos neurônios e são as mais abundantes do sistema nervoso central”, explica o professor.

Efeitos no cérebro

Segundo Daniel Martins de Souza, outros estudos já tinham sugerido que esse coronavírus teria uma certa propensão a infectar as células nervosas. “Mas ainda não sabemos se o vírus realmente consegue atravessar a barreira hematoencefálica [estrutura que protege o cérebro de substâncias tóxicas e patógenos presentes na circulação sanguínea] e, caso consiga, qual seria o tipo de impacto pode causar no tecido nervoso. Tentaremos buscar pistas que ajudem a elucidar essas dúvidas”, argumenta.

“Além de investigar se a quantidade de uma determinada proteína na amostra aumenta ou diminui após a infecção, também pretendemos avaliar como está o nível de fosforilação e de glicosilação das moléculas. Esses dois mecanismos bioquímicos são usados pela célula para ativar ou desativar rapidamente a função desempenhada pelas proteínas. Isso nos dará pistas sobre as vias metabólicas que são alteradas nos neurônios em resposta ao novo coronavírus”, conclui o pesquisador da Unicamp.

A pesquisa em questão é conduzida no âmbito de um projeto aprovado pela FAPESP na chamada “Suplementos de Rápida Implementação contra COVID-19”. Para o combate da epidemia no Brasil, o estudo integra uma força-tarefa criada pela Unicamp.