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Coronavírus: chefe de pesquisa de vacina no brasil está em isolamento

Publicado em 17 março 2020

Por Vinícius Lemos, da BBC News Brasil em São Paulo

No dia 13 de março, o médico Jorge Kalil se dedicava profundamente aos estudos sobre a pandemia do novo coronavírus, no laboratório de imunologia do Instituto do Coração (Incor), do qual é diretor. Ele trabalhava em sua mais recente tarefa: a busca por uma vacina contra o Sars-cov-2, como o vírus é chamado oficialmente.

O imunologista lidera uma equipe composta por cientistas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e do Incor. Há duas semanas, pouco após o primeiro caso diagnosticado no Brasil, os especialistas tentam desenvolver uma forma de imunizar as pessoas contra o Sars-cov-2.

Em meio às pesquisas para a vacina, o médico de 66 anos — os idosos fazem parte do grupo de risco — descobriu que poderia ter contraído o novo coronavírus. Isso porque o filho dele, de 34 anos, foi diagnosticado, na segunda-feira (16), com a covid-19, doença causada pelo vírus.

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"Ele jantou na minha casa quando já estava com o vírus, mas ainda não tinha sintomas. Por isso, eu e minha esposa optamos pelo isolamento", diz à BBC News Brasil. Desde o dia 14 de março, após o filho fazer os exames, Kalil e a esposa estão reclusos.

Na última segunda (16), o médico começou a acompanhar a distância os estudos para a elaboração da vacina. Enquanto conversava com a reportagem por telefone, ele estava atento ao avanço da pesquisa, por meio do computador.

"Não preciso estar presente fisicamente. Posso fazer as discussões por teleconferência. Os estudos estão acontecendo normalmente", pontua o cientista. Kalil foi o único membro da equipe que teve de se isolar por conta do coronavírus. "Os outros membros estão bem", explica.

"Desde o princípio, eu tomava os cuidados adequados. Lavava as mãos várias vezes por dia, usava álcool em gel e tentava evitar contatos próximos com as pessoas", relata. Ele afirma que desde o fim de fevereiro passou a adotar medidas para se proteger do coronavírus.

A vacina

Há décadas, médico se dedica a conduzir pesquisas na área da saúde no Brasil

Kalil estuda métodos de imunização há mais de 30 anos. Ex-diretor do Instituto Butantan, ele ajudou, por exemplo, na produção de uma vacina contra a dengue. Recentemente, estava focado nas vacinas contra o Streptococcus pyogenes, que causa a febre reumática e cardiopatia reumática crônica, e em outra contra a chikungunya. As pesquisas são financiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Quando surgiram os primeiros registros do novo coronavírus no Brasil, ele deixou todas as outras pesquisas para depois. Junto com sua equipe, decidiu se dedicar exclusivamente a uma vacina para tentar combater o Sars-cov-2. A pesquisa também é financiada pela Fapesp.

Os cientistas brasileiros irão sintetizar em laboratório uma parte de uma proteína do coronavírus, importante para penetração na célula.

Por meio do método, os cientistas planejam chegar, nos próximos meses, a uma vacina. Primeiro, ela será testada em camundongos. Caso os testes tragam bons resultados, a expectativa é de que possa ser aplicada em pacientes em até um ano e meio.

A estratégia é diferente da que tem sido adotada por indústrias e cientistas de outros países, que também tentam desenvolver a primeira vacina contra o novo coronavírus — até o início de março havia mais de oito projetos em diferentes países.

Enquanto a vacina dos brasileiros busca recriar uma parte da proteína do vírus, as de outros países recorrem a métodos que envolvem a inserção de moléculas sintéticas de RNA mensageiro (mRNA) — que têm as instruções para a produção de alguma proteína reconhecível pelo sistema imunológico. Nas pesquisas feitas em outros países, o objetivo é que o sistema imunológico reconheça as proteínas artificiais para que elas possam ajudar no combate ao coronavírus.

Já a plataforma usada pelos pesquisadores brasileiros, conforme a Fapesp, é fundamentada no uso de partículas semelhantes a vírus (VLPs, na sigla em inglês de virus like particles) — tal semelhança faz com que sejam facilmente reconhecidas pelas células do sistema imune.

Desta forma, segundo os estudos brasileiros, as VLPs — que não têm material genético do vírus, o que impossibilita a replicação — são introduzidas no sistema imunológico junto com os antígenos (substâncias que fazem com que o sistema imunológico produza anticorpos). Assim, auxiliam na produção de uma resposta imune ao novo coronavírus.

"Neste momento, resolvemos canalizar os esforços nessa vacina para o novo coronavírus. É algo muito importante agora", pontua Kalil.

O isolamento

Animado com os avanços da pesquisa para a vacina, Kalil ficou em meio a uma situação inesperada quando descobriu a suspeita de que o filho pudesse ter contraído o coronavírus. "Ele começou a se sentir mal dois dias após o nosso encontro. No dia seguinte fez os exames e nesta segunda (16) teve o resultado positivo."

O médico relata que a nora também foi diagnosticada com a covid-19, após apresentar os sintomas — como febre e problemas respiratórios. "Ela contraiu a doença em um clube, porque teve contato com pessoas infectadas e passou para o marido", diz.

Diante do diagnóstico do filho e da nora, Kalil e a esposa, de 62 anos, decidiram se isolar na residência em que moram. "Não tivemos nenhum sintoma. Mas como tivemos contato com o nosso filho quando ele já estava infectado, mas ainda sem sintomas, então achamos que o melhor seria nos isolarmos", afirma.

Ele considera irônico o fato de ter sido um caso suspeito para o vírus, enquanto é o responsável por um estudo brasileiro contra o Sars-cov-2. "Mesmo tomando precauções há algumas semanas, como evitar aglomerações e reuniões, isso acabou acontecendo comigo."

"É um vírus que tem afetado muita gente", declara. O Ministério da Saúde diz que há 234 casos confirmados no país até esta segunda (16). "Mas acredito que o número seja muito maior. Só entre pessoas que conheço, aqui em São Paulo, há mais de 100 casos", declara.

A principal preocupação de Kalil era pelo fato de ser idoso, assim como sua esposa. Depois de se isolar, eles fizeram exames para descobrir se estavam com o vírus. "O resultado deu negativo", relata Kalil, quase uma semana após começar o isolamento. Apesar disso, ele afirma que para se proteger continuará trabalhando remotamente no projeto da vacina brasileira. "Estamos muito bem. Agora estou com ainda mais entusiasmo para trabalhar", diz.

*O texto foi atualizado em 21 de março de 2020, com a informação de que os exames do médico Jorge Kalil deram negativo para a covid-19 e que, ainda assim, ele continuará isolado.