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"Cooperativismo permite o meio termo entre os ricos e os pobres"

Publicado em 28 junho 2016

O Brasil e muitos brasileiros se espelham muito no capitalismo norte-americano.  Afinal, os Estados Unidos são muito ricos e lá estão os maiores milionários do mundo. E quem não quer ser rico? Esse talvez seja um dos motivos de o cooperativismo no país ser visto com certa desconfiança, pois quem não quer ser empregado quer ser o único e absoluto dono de seu próprio negócio. Sem meio termo.

O vice-governador do Estado de São Paulo, Márcio França, discorda. Ele prefere ver outros modelos, como o europeu e de outros países. “A grande vantagem não é não ter gente pobre – pois em muitos países da Europa não há pobres – mas o interessante é que não existem pessoas muito ricas”, afirmou França em entrevista exclusiva à EasyCoop.

“É um meio termo, que é o suficiente para a pessoa viver feliz”, acrescenta o vice-governador, que acumula o cargo de secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação.

O problema de ficar rico no capitalismo é que não é para todo mundo, e que o risco faz com que pouquíssimos atinjam esse objetivo. França – que é do Partido Socialista Brasileiro (PSB) – diz que o cooperativismo é uma ótima forma para que haja o suficiente para todos.

“Não cabe numa cooperativa que todos os cooperados fiquem ricos juntos”, explica o vice-governador.  “Mas cabe todo mundo vivendo bem, sem ninguém pobre”, acrescenta.  Segundo ele, esse convívio do meio-termo é o que todos procuram – desde que haja oportunidades iguais. “E o cooperativismo permite isso. ”

Ele acrescenta que no cooperativismo desaparece a relação patrão-empregado, passando a haver uma lógica em que todo mundo é patrão e todo mundo é empregado.  Ele ressalva, porém, que nenhum sistema é perfeito, que sempre pode haver falhas, porque depende das pessoas.  “Mas, em funcionando, é um sistema extremamente socialista, extremamente igualitário”, acrescenta França.

O vice-governador cita como exemplo de modelo de cooperativismo a Nova Zelândia, um país do qual pouco se fala no Brasil, mas que ostenta índices entre os mais altos do mundo de renda, saúde, educação, liberdade econômica e qualidade de vida. “É um país fenomenal, que controla 27% de todo o sistema lácteo do mundo, leite e seus derivados”, conta.

“Quem é dono disso é uma cooperativa, a Fonterra, que tem mais de 10 mil cooperados”, conta França.

De fato, a Fonterra é a maior empresa neozelandesa, e seus cooperados controlam quase um terço de toda a produção de laticínios do mundo – isso num país um pouco menor que o Rio Grande do Sul e com uma população de 4,5 milhões de pessoas, razoavelmente menos que a metade de gaúchos.

O vice-governador diz ainda que o governador Geraldo Alckmin, tem grande simpatia pelo cooperativismo – mesmo porque seu pai e outros familiares tiveram forte relação com cooperativas – e acha que é preciso prestigiá-lo.

Ele também considera o modelo de administração de São Paulo, de estabilidade, algo que precisa ser colocado no Brasil. “Vamos nos preparar para que o governador tenha chance de fazer o movimento mais importante da vida dele e do Brasil, de ter essa mesma modelagem esse mesmo formato”, diz ele, que considera Alckmin “extremamente idôneo”, muito mais que outras pessoas que já conheceu. “Ele engraxa os próprios sapatos. É um exemplo de simplicidade e fé. É preciso que as pessoas admirem quem os governa e acho que o governador tem toda a chance de fazer isso para o país inteiro. ”

“Foi a vocação que me levou à política”

Só a vocação pode explicar por que Márcio França tornou-se político. Ele tinha tudo para passar longe disso. Neto de médico, filho de médico e irmão de médicos, a lógica era que ele não escaparia ao destino de vestir branco pelo resto da vida.

Mas algo o levava por outro caminho, e ainda muito jovem disse ao pai que queria ser político.  “Você não vai se meter nisso porque aqui em casa todo mundo é honesto”, disse o pai quando o garoto contou seus planos. “As pessoas costumam fazer a associação de que político não é honesto”, sorri ao comentar o hoje vice-governador de São Paulo.

O conselho paterno foi congelado, e o garoto foi estudar advocacia e línguas estrangeiras a fim de se preparar para uma carreira relacionada, ligada ao governo, mas com uma imagem mais bem-acabada:  a diplomacia. A vocação, no entanto, foi mais forte.

Na universidade, ele começou a se envolver com atividades políticas estudantis.  “Logo que cheguei, já entrei na comissão de trote, depois na associação atlética, em seguida no diretório acadêmico, até chegar ao movimento estudantil, que me levou ao mundo eleitoral”, recorda França, prestes a completar 53 anos.

No PSB (Partido Socialista Brasileiro) desde sua eleição para vereador até hoje, Márcio França deu adeus à carreira diplomática e não saiu mais da política partidária.  Foi vereador por dois mandatos, deputado federal por mais dois e prefeito de sua cidade natal, São Vicente, no litoral paulista, também duas vezes.  Foi em São Vicente que ele implantou um ambicioso programa voltado ao resgate da autoestima de jovens carentes.

Em 2010, foi convidado pelo governador Geraldo Alckmin para ser secretário do Turismo e, na reeleição, integrou a chapa como candidato a vice.

Entre outros grandes desafios, participou ativamente das campanhas presidenciais de Anthony Garotinho, em 2002 (como coordenador), e de Eduardo Campos, em 2014 (como tesoureiro). Campos morreu em trágico acidente aéreo em Santos, em 13 de agosto de 2014.

Mas, se Márcio não puxou ao pai na vocação para a medicina, não se pode dizer o mesmo de seu filho, Caio França.  Também estudou direito e aos 20 anos foi eleito vereador por São Vicente e tornou-se o deputado estadual mais jovem eleito em 2014, aos 26 anos – e no mesmo partido do pai.

Ações firmes na secretaria de desenvolvimento

Não bastasse o posto de vice-governador, Márcio França também é o secretário do Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação – uma das maiores do governo paulista e uma das que mostram melhor a pujança de São Paulo. Ela é responsável, por exemplo, por três grandes universidades – USP, Unicamp e Unesp e pelo Centro Paula Souza, que coordena as escolas técnicas. Só esse sistema abrange 430 mil alunos em rede pública e gratuita. “É o maior sistema público de ensino gratuito do mundo”, diz França.

A secretaria responde também por vários centros tecnológicos e de pesquisa, entre os quais se destacam o centenário IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) e o IPEN (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares). “Tudo o que sai de avanço em medicina nuclear sai de lá”, afirma o secretário. Uma das joias da coroa da secretaria é a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), a maior do gênero na América Latina.  Seu orçamento é de R$ 1,3 bilhão, provenientes de 1% do ICMS. “Não por acaso, São Paulo responde por 72% de toda a pesquisa do país”, diz França.

A secretaria abarca ainda outras instituições para a implementação de políticas públicas voltadas à geração de emprego e renda e ao aumento do empreendedorismo e da competitividade do setor produtivo.  Sob a responsabilidade de França estão, por exemplo, a Junta Comercial, o Investe São Paulo (que visa trazer novas empresas para se instalar no Estado) e o Desenvolve São Paulo, que é um banco de fomento.  “Isso ajuda a explicar por que o Estado é tão diferente dos demais da União”, diz França. “Se fosse um país, estaria entre os 15 maiores do mundo. O PIB de São Paulo é o dobro do da Argentina. ”

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