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ABC - Academia Brasileira de Ciências

Controvérsia sobre mudanças climáticas

Publicado em 10 maio 2007

O botânico da Unicamp Carlos Alfredo Joly enviou carta ao Boletim do Acadêmico discordando de Aziz Ab'Saber no que diz respeito aos efeitos do aquecimento global sobre a Mata Atlântica, de acordo com notícia publicada no jornal O Globo e no Boletim do Acadêmico.

Joly possui graduação em Ciências Biológicas pela USP, mestrado em Biologia Vegetal pela Unicamp, PhD em Ecofisiologia Vegetal pelo Botany Department da Universidade de Saint Andrews, na Escócia, Pós-Doc pela Universität Bern, na Suíça e é Professor Titular em Ecologia Vegetal na Unicamp desde 1998, tendo sido o principal mentor do Programa Biota/Fapesp.

Leia seu e-mail na íntegra:

"Prezados Srs.:

Infelizmente, ao contrário do que afirma o Professor Ab'Saber, o aquecimento global poderá reduzir significativamente a área hoje ocupada pela Mata Atlântica, pois o cenário atual é totalmente diferente do 'ótimo climático' de 6.000 anos atrás.

No passado, o aquecimento e resfriamento do planeta se deram de forma gradativa ao longo de milhares de anos, dando tempo para que ao longo de diversas gerações de plantas e animais os mecanismos do processo evolutivo atuassem. Hoje o aquecimento é mensurado em décadas, e espécies longevas — como o jatobá e o jequitibá que podem viver mais de 200 anos — não terão condições de responder evolutivamente as estas mudanças ou migrar para novas áreas, tendendo a desaparecer.

Além disso, há 6.000 anos atrás a Mata Atlântica não se encontrava altamente fragmentada como nos dias atuais, e a capacidade de resiliência das diversas florestas que a constituem era, inegavelmente, muito maior. Expansões e retrações das florestas, como as postuladas ao longo do período Quaternário, seriam impossíveis na Mata Atlântica atual, porque boa parte do grande domínio atlântico está ocupada por 120 milhões de brasileiros que vivem nas capitais (todas das regiões Nordeste, Sudeste e Sul) e regiões metropolitanas nele incrustadas.

Mas o cerne desta discussão está no avanço das técnicas de modelagem preditiva de espécies. Pois de uma forma diferente do que fazem climatologistas e geógrafos, estas ferramentas trabalham com a identificação do nicho ideal atual de cada espécie estudada. Isto é, o Algoritmo Genético de Regras Pré-estabelecidas (GARP) reúne informações sobre a temperatura média, a amplitude térmica e o regime de precipitação de um conjunto de dezenas de pontos onde a espécie ocorre hoje, e identifica as condições atuais necessárias para a ocorrência das mesmas. Na seqüência, introduzimos no modelo os aumentos de temperatura, e as variações na precipitação, previstas nas projeções do IPCC, e o modelo aponta em quais áreas do Domínio Atlântico as espécies vão encontrar condições favoráveis. Posteriormente as análises estatísticas apontam se o aumento ou diminuição das áreas favoráveis para ocorrência das espécies no futuro é maio ou menor do que a área atualmente ocupada.

O mestrando Alexandre F. Colombo (pós-graduação em Ecologia do IB/Unicamp) fez este estudo para 38 espécies arbóreas da Mata Atlântica, usando dois cenários previstos no 3º relatório do IPCC em 2001. O conjunto de dados obtidos mostra, inequivocamente, que no cenário otimista (aumento de 1 a 2 o C na temperatura média e manutenção do regime de precipitação atual) a área hoje ocupada pelas espécies sofrerá uma redução média de 28%; já no cenário pessimista (aumento de 3 a 4 o C na temperatura média e uma ligeira diminuição na precipitação) a redução da área favorável é superior a 60%.

O aperfeiçoamento de nossa capacidade de modelagem depende, fundamentalmente, do aumento de nosso conhecimento sobre a ecofisiologia das espécies nativas. Além disso, é necessário um refinamento de escala das mudanças climáticas previstas, um aumento da capacidade computacional para análise de cenários e uma natural evolução da ciência de modelagem, que é muito recente.

Uma agravante deste cenário é que a redução da área favorável é diferente para as diferentes florestas que constituem a Mata Atlântica. O efeito deletério das mudanças climáticas globais será pior na região Nordeste e na região Sul, especialmente para Mata de Araucárias. Na região Sudeste a presença das serras, que pelo efeito orográfico mantêm uma alta pluviosidade e amenizam alterações na temperatura, as alterações seriam menos evidentes. Mas, mesmo nesta região, espécies típicas de áreas mais elevadas e úmidas tenderiam a desaparecer.

Considerando as complexas relações entre fauna, flora e microrganismos e o alto grau de endemismo da Mata Atlântica, isto é de espécies que ocorrem exclusivamente na Mata Atlântica, o desaparecimento de um número significativo de espécies arbóreas será, indubitavelmente, catastrófico para a biodiversidade da mais antiga das nossas florestas.

Estudos deste tipo reforçam a importância de ampliarmos o esforço efetivo de conservação dos 7% que restam da Mata Atlântica, pois é a única forma de aumentarmos a possibilidade de termos todas as fitofisionomias preservadas para as futuras gerações. Concomitantemente, é necessário financiar e manter estudos ecofisiológicos e de funcionamento de ecossistemas terrestres de longo prazo, aos moldes do que está fazendo o Programa Biota/Fapesp".