Notícia

Jornal do Brasil

Contribuição à cultura

Publicado em 10 julho 1996

Por LUIZ ROBERTO NASCIMENTO SILVA *
Muito se escreveu nesses dias sobre Renato Archer, salientando a importância de sua vida e obra. Falarei sobre a contribuição que Renato deu à cultura e que pude presenciar e testemunhar de perto. Ao presidir a Embratel. Renato Archer decidiu priorizar os investimentos na área cultural, utilizando o expressivo imposto de renda que a empresa possui em função de sua alta lucratividade. Foi constituída uma Comissão Embratel-MinC com participação paritária, no âmbito da qual os projetos apresentados eram debatidos e selecionados. Não havia um critério rígido na análise e escolha dos projetos. A Embratel dava preferência apenas a projetos situados no Rio de Janeiro, por ser aqui sua sede. Ainda assim, projetos de todo o Brasil receberam ajuda da estatal. A Comissão Embratel-MinC financiou a informatização das partituras da Biblioteca Nacional, um projeto de Affonso Romano. O Palácio do Itamarati recebeu recursos para reforma e constituição de sua mapoteca. Foram informatizados o Arquivo da Cidade e o Arquivo Nacional. O Museu do Folclore foi reformado e teve suas instalações ampliadas durante a gestão do Gullar. O Espaço Oscar Niemeyer foi criado nesse período. Cerca de 1,5 milhão de dólares foram investidos na área federal no âmbito desse convênio. Entretanto, o mais importante não era a simples liberação dos recursos, mas antes o interesse efetivo pelos projetos e por seu desenvolvimento. Os projetos, depois de escolhidos, eram acompanhados em sua implantação e tinham seus resultados analisados. Um dos melhores exemplos desse rigor tivemos com a Feira de Frankfurt. Sem a colaboração da Embratel não teríamos conseguido uma participação tão expressiva. A presença da Embratel na área cultural sob a presidência de Renato não se limitou à esfera federal. No município, para ditar um exemplo (e certamente outros existem), lembro o apoio decisivo que foi dado ao Centro de Artes Calouste Gulbenkian, cuja Associação de Amigos Renato presidia. O Calouste Gulbenkian é um ótimo exemplo da vitalidade da ação cultural carioca para alem da Zona Sul. A Embratel ajudou a climatização do auditório, a programação visual de todo o Centro e a reforma do piso da sala de dança. Ocorre-me uma das últimas conversas que tivemos durante inauguração de obras realizadas em conjunto dentro desse convênio. Transmiti a Renato a minha preocupação com uma visão excessivamente privatizante do setor cultural, que começava a se formar na ocasião. Citava como exemplo a importância da colaboração da Embratel, da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil para a produção cultural brasileira. Renato tinha preocupações e angústias semelhantes e as ampliava para o setor econômico como um todo. Nesse momento em que tantos depoimentos sobre ele foram feitos, não podíamos nos furtar de transmitir o nosso, sobre essa outra dimensão de sua vida pública até agora não ressaltada. Tenho a certeza de que falo em meu nome pessoal como no de todos os meus companheiros de Ministério. Em seu famoso discurso de posse na Academia Brasileira de Letras. Guimarães Rosa afirmou que "a gente morre para provar que viveu". Renato Archer foi um exemplo disso. * Advogado e ex-ministro da Cultura