Notícia

Jornal da Unesp

Contradições da Era Vargas

Publicado em 01 junho 2000

Por Oscar D'Ambrosio
Industrializar o Brasil com apoio político e financiamento norte-americanos sem perder a soberania nacional. Esse paradoxo caracterizou o projeto nacional do Estado Novo, entre 1937 e 1945. Para piorar, o presidente Getúlio Vargas, oscilante entre o desenvolvimento autônomo ou integrado ao capital estrangeiro, também se mo\ia como um pêndulo entre a simpatia ao regimes autoritários da Itália e da Alemanha e a prosperidade econômica anunciada pelos empréstimo que provinham dos EUA. Ao cruzar dados oriundos da Economia da Sociologia, os cientistas e economista Francisco Luiz professor de Economia da Faculdade de Filosofia e Ciências 1FFC1 da UNESP, campus de Marília, realiza, em Estado Novo: política externa e projeto nacional, justamente uma análise das contradições de Vargas, no período entre 1930 e 1945 A principal idéia defendida pelo livro é que a política externa do Estado Novo era pautada por um projeto de desenvolvimento nacional. No entanto. Vargas nunca teria conseguido formatar princípios coerentes de ação ou um plano acabado, com metas, mecanismos de financiamento, órgãos de controle e coordenação de programas formalmente definidos. Pelo contrário, o projeto de Vargas para o Brasil compreendia uma série de programas que iam sendo formulados à medida que os problemas surgiam. Havia, portanto, um processo em constante redefinição, que levava em conta fatores políticos, sociais e econômicos, internos e externos AUTONOMIA Os pontos em comum desse esforço seriam, para Corsi. o estímulo ao mercado interno e à indústria nacional Versão modificada e resumida da tese de doutorado do pesquisador, defendida, em 1997, na Unicamp, o livro mostra como, entre 1937 e 1939. Vargas vislumbrou, de fato, a possibilidade de um desenvolvimento autônomo. Nesse período, houve a priorização da questão siderúrgica, a criação de vários organismos que alargavam a ação estatal na economia, como o Conselho Nacional de Petróleo, e a criação de leis e regulamentos visando criar bases mais sólidas para o financiamento da produção e do gasto público. Paralelamente, ocorreu o aprofundamento do comércio bilateral com a Alemanha, com o objetivo de diversificar mercados para as exportações brasileiras e criar condições para a ampliação de importações de máquinas e equipamentos. A Segunda Guerra, porém, fechou a possibilidade de uma maior aproximação com a Alemanha. O Brasil perdeu, a partir de 1939, boa parte dos mercados europeus e ficou vulnerável às pressões norte-americanas. Em 1940, ao realizar um célebre discurso prónazista do encouraçado Minas Gerais, Vargas fez um jogo ambíguo: por um lado, pressionava os norte-americanos, interessados em se aproximar do Brasil pelo seu tamanho continental, a financiar a siderurgia brasileira; por outro, garantia um bom relacionamento com a Alemanha, para o caso de ela sair-se vitoriosa na Guerra. Ao conduzir esse jogo. Vargas retardou ao máximo sua aliança com os EUA, só a fazendo após conseguir selar acordos para a obtenção de armamentos. Créditos e tecnologia. O capital estrangeiro era bem-vindo e considerado vital, desde que se submetesse às leis brasileiras e contribuísse para o desenvolvimento, ou seja, para a industrialização, vista por Vargas, como garantia de soberania nacional. O mandatário brasileiro esperava que, com o fira da guerra, o apoio brasileiro aos EUA gerasse um substancial fluxo de capitais norte-americanos, capaz de financiar o progresso nacional dentro do objetivos desejados pela política brasileira de manutenção da autonomia política e da soberania econômica. No entanto, presidente Roosevelt pensava no Brasil apenas como um país subordinada EUA, com uma economia meramente complementar. Pelo seu caráter ditatorial, o Estado Novo caiu, em 1945, derrubado por um golpe militar, mas, em termos econômicos, seria inviável mantê-lo, por acreditava no uso de financiamentos internacionais para atender a interesses internos. Isso, como bem mostra o estudo denso e multidisciplinar de Corsi. sena impossível no pós-1945, justamente no momento em que os EUA passavam a dar as cartas da economia internacional.