Notícia

Diário São Carlos

Contra a invisibilidade, o relevo

Publicado em 14 fevereiro 2015

Por Manuel Alves Filho

Os trabalhadores do Complexo Industrial Portuário de Suape, considerado um dos principais polos de investimentos do Brasil, localizado no Estado de Pernambuco, são submetidos a uma condição de invisibilidade social. Embora enfrentem uma série de dificuldades nos âmbitos profissional e pessoal, eles somente são percebidos pela sociedade quando ocorrem conflitos trabalhistas, especialmente greves. A constatação faz parte da dissertação de mestrado do sociólogo Pedro Henrique Santos Queiroz, defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. O estudo foi orientado pelo professor Fernando Antonio Lourenço.

Em seu trabalho, Pedro Henrique procurou destacar os trabalhadores do Complexo de Suape como sujeitos políticos relevantes. O pesquisador explica que, no dia a dia, eles não recebem esse tipo de reconhecimento. Um sintoma dessa realidade, segundo ele, é a forma como a imprensa noticia os conflitos trabalhistas que ocorrem entre os operários e as empresas que atuam no empreendimento, notadamente o Estaleiro Atlântico Sul, Refinaria Abreu e Lima e Polo Petroquímico. Normalmente, afirma, as matérias são publicadas nos cadernos de Economia e não nos de Política, com ênfase para possíveis ações violentas por parte dos operários.

Para destacar os trabalhadores como sujeitos políticos relevantes, o pesquisador procurou entender, antes, como eles são como seres humanos. Pedro Henrique observa que antes de serem operários, eles são filhos, maridos e membros da comunidade. “São pessoas com trajetórias pessoais específicas, dotadas de estruturas psíquicas complexas e que têm sonhos e medos como qualquer um”, pondera. Para realizar a investigação, o sociólogo utilizou uma categoria de análise denominada “experiência”, elaborada pelo historiador inglês Edward Palmer Thompson.

A metodologia busca compreender como se dá a apropriação subjetiva das experiências concretas vivenciadas pelos sujeitos históricos. Nesse sentido, Pedro Henrique analisou três experiências distintas dos trabalhadores do Complexo de Suape, que atuam basicamente nas áreas de construção civil pesada e construção naval. A primeira delas foi a experiência de trabalho. Nesse aspecto, o pesquisador analisou os motivos que levavam os operários às ações políticas. A segunda foi a experiência do não trabalho. Aqui, o pesquisador acompanhou, entre outras, as atividades religiosas e de lazer desempenhadas pelos trabalhadores.

A terceira e última dimensão foi a experiência de ação política propriamente dita. “Para dar conta desse desafio, eu acompanhei assembleias, assisti a cultos religiosos e visitei espaços públicos. Além disso, também entrevistei operários, sindicalistas e membros do Ministério Público do Trabalho e da Superintendência Regional do Trabalho. Por último, também monitorei as publicações da imprensa local (jornal impresso e sites) e analisei documentos oficiais, como acórdãos e atas produzidas pela Justiça e pelos sindicatos”, elenca Pedro Henrique.

Essa massa de dados, conforme o sociólogo, revelou aspectos muito interessantes sobre os trabalhadores do Complexo de Suape. Pedro Henrique diz que durante o período de construção do empreendimento, as duas categorias profissionais tiveram que lidar com um cenário econômico favorável, mas com um quadro político adverso. “Do ponto de vista econômico, a situação era positiva, pois o mercado de trabalho local estava muito aquecido. Como a demanda por mão de obra era muito grande, os salários foram pressionados para cima. Isso favoreceu os trabalhadores nas negociações com as empresas. Tanto é assim que entre 2008 e 2012 as duas categorias obtiveram reajustes salariais bem acima da inflação”, relata.

Por outro lado, o quadro político se apresentou desfavorável aos trabalhadores, segundo o autor da dissertação. Pedro Henrique enfatiza que um dos principais problemas enfrentados pelas categorias profissionais sempre esteve associado à ausência de legitimidade das entidades que as representam, a saber: Sindicado dos Trabalhadores da Construção Civil Pesada e Sindicato dos Metalúrgicos do Estado de Pernambuco. O primeiro é ligado à Força Sindical e o segundo, à Central Única dos Trabalhadores (CUT). “As duas entidades praticam um modelo de sindicalismo burocrático, distanciado das bases e com sérios problemas de democracia interna”, atesta o sociólogo.

Outro ponto de dificuldade, acrescenta Pedro Henrique, foram as práticas antissindicais perpetradas pelas empresas. “As empresas, com a conivência dos governos estadual e federal, sempre exerceram pressões e impuseram constrangimentos aos trabalhadores. Uma das formas de coerção são as demissões que ocorrem sempre após protestos ou greves, sendo que algumas alcançam a marca de centenas de trabalhadores. Em alguns casos, os alvos dos desligamentos são membros das comissões de trabalhadores e até de integrantes da Cipa [Comissão Interna de Prevenção de Acidentes], o que contraria a legislação”, aponta.

Ademais, de acordo com o autor da dissertação, os canais institucionais responsáveis por regular o conflito entre trabalhadores e empresas têm se mostrado insuficientes. Pedro Henrique conta que entrevistou representantes do Ministério Público do Trabalho e da Superintendência Regional do Trabalho, que relataram que os órgãos não contam com recursos humanos e materiais adequados para dar conta das demandas existentes. “Embora todos soubessem que a região receberia um empreendimento de grande porte e, por consequência, um grande número de trabalhadores, ninguém se preocupou em ampliar a estrutura dessas instâncias”, diz.

Um ponto importante levantado pela pesquisa, entende Pedro Henrique, foi o surgimento no interior das duas categorias profissionais de um grau de ativismo político independente muito forte. Muito em razão da falta de legitimidade dos sindicatos, os trabalhadores formaram comissões para negociar diretamente com as empresas. “Mas eu diria que esse ativismo independente se expressou de forma bastante errática. Às vezes, ele esteve junto com os sindicatos e noutras, contra eles. Em várias ocasiões essas comissões independentes também apresentaram sérios problemas de representatividade”, afirma o sociólogo.

A partir da análise das condições dos operários do Complexo de Suape, Pedro Henrique avalia que está em curso uma crise generalizada dos modelos de representação da classe trabalhadora, entendimento que encontra abrigo nas reflexões do também sociólogo Ricardo Antunes, professor do IFCH. Segundo Antunes, essa crise de representatividade, que ocorre em escala global, se assemelha àquela que marcou a transição das corporações de ofício para os sindicatos. “Está acontecendo algo que nem os trabalhadores e nem os pesquisadores ainda conseguiram identificar plenamente. É possível que estejamos caminhando para um novo modelo de representatividade, mas isso somente poderá ser ou não confirmado no futuro”, pondera Pedro Henrique, que contou com bolsa de estudo concedida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Megaprojeto

O Complexo Industrial Portuário de Suape é considerado um dos principais polos de investimentos do país. Ao todo, foram aplicados R$ 40 bilhões no empreendimento. Sua localização estratégica, na Região Metropolitana do Recife, o mantém conectado a mais de 160 portos em todos os continentes, com linhas diretas da Europa, América do Norte e África. Em 2011, a movimentação de cargas ultrapassou os 11 milhões de toneladas, o que representa um crescimento de 25% em relação ao ano anterior.

O Complexo de Suape tem área de 13.500 hectares, distribuída em zonas Portuária, Industrial, Administrativa e Serviços, de Preservação Ecológica e de Preservação Cultural. De acordo com os dados disponíveis no site do empreendimento, cerca de 100 empresas encontram-se atualmente em operação, sendo responsáveis por 25 mil empregos diretos. Durante a construção do porto-indústria, conforme Pedro Henrique, as obras chegaram a absorver 60 mil operários. A pedra fundamental do empreendimento foi lançada em 1974, mas a operação somente teve início em 1983.

Publicação

Dissertação: “Trabalhadores de Suape: Estudo sobre a diversidade de experiências operárias”
Autor: Pedro Henrique Santos Queiroz
Orientador: Fernando Antonio Lourenço
Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)
Financiamento: Fapesp

 

UNICAMP