Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Contando os dias para o retorno ao mar?

Publicado em 28 setembro 2000

Por Leopoldo Figueiredo - Da Reportagem
Após dois anos e quatro meses aguardando financiamentos e passando por reformas, o mais completo navio de pesquisas oceanográficas do Brasil, o Prof. W. Besnard, volta ao mar no próximo mês, com uma nota missão. A embarcação, responsável pelas missões brasileiras na Antártida e com mais de 100 mil milhas náuticas navegadas, fará uma pesquisa de dois anos de oceanografia física, na faixa litorânea entre São Sebastião (SP) e Arraial do Cabo (RJ). Docado há um mês no estaleiro da Wilson Sons, em Guarujá, para troca de equipamentos e reparos, o Professor Besnard, do Instituto de Oceanografia (IO) da Universidade de São Paulo (USP), terá seu casco limpo, será: pintado e receberá novos equipamentos, instalados nos próximos dias. Em seguida, está prevista sua prova de mar, que deve ocorrer no início da segunda quinzena de outubro. Toda a reforma tem um custo de R$ 550 mil, pago pelo órgão de pesquisas, que teve a verba necessária liberada em novembro último. Segundo o comandante Waldir da Costa Freitas, de 60 anos (28 anos na embarcação e 15 como capitão), a reforma e a troca de peças, especialmente do motor, foi necessária pela falta de peças de reposição. A demora - dois anos e quatro meses - é justificada por se tratar de "uma operação delicada", referindo-se às instalações dos equipamentos científicos, e a "restrições econômicas". Sensores - Ainda esta semana, o Professor Besnard passará por uma revisão de eixo e terá as cracas (crustáceos com uma carapaça calcária contínua, que se fixam em rochedos, pilastras de cais e em navios) arrancadas do casco e da hélice, que também serão avaliados. Em seguida, haverá a instalação de sensores de equipamentos científicos no fundo (parte externa) da embarcação. A operação será realizada no cais da Wilson Sons, onde o navio já está parcialmente fora d'água. Até o final da semana, ele deverá ser içado mais 50 metros, na carreira do estaleiro, saindo totalmente do mar, informa Freitas. Neste mês de permanência no estaleiro, a principal reforma foi a substituição do motor, resultando em um aumento de sua potência - de 290 rotações por minuto (rpm) para 1.200 rpm - e na necessidade de retraçar seu centro de gravidade. O recalculo foi preciso, pois o novo motor é cerca de 30 toneladas mais leve (o anterior tinha 35 toneladas de peso). Novo motor - Um alemão MWM, com potência de mil cavalos-vapor (CV), a diesel, ampliou a autonomia do navio em um mês, permitindo que embarcação possa permanecer navegando sem precisar reabastecer durante até 40 dias. Como a peça é mais leve, foi necessário instalar um contrapeso de quatro toneladas e recalcular seu centro de gravidade. "Esta diferença acaba afetando a estabilidade do Besnard e também sua capacidade de lastro", afirma. Também foi necessário instalar um redutor de rotação, adaptando as 1.200 rpm para as originais 290 rpm. Segundo Waldir da Costa Freitas, uma rotação como essa (1.200 rpm) acabaria sendo tão forte que não nos moveríamos, pois a água não entraria em contato com as hélices. O destino do antigo motor ainda não foi definido pela proprietária, a Universidade de São Paulo. O comandante lembra que, há um ano e meio, a peça foi condenada pela classificadora norueguesa Det Norske Veritas, que trabalhou para a Companhia de Seguros do Estado de São Paulo (Cosesp). Equipamentos - Durante a instalação do motor, a embarcação também ganhou novos equipamentos. Entre eles, estão um ecointegrador, utilizado para medir objetos e animais no fundo do mar, e um transponder dopler, que melhora os sinais dos equipamentos de posicionamento global, como o GPS - sigla de Global Positionint System - Sistema de racionamento Global, de localização de um objeto via satélite e que serve para navegação marítima. O Professor Besnard ainda conectou seus computadores à Internet. "Queremos que todas as nossas operações e pesquisas possam ser acompanhadas pelos cientistas que ficam em terra", explica Waldir Freitas. Reforma em 97 - Esta foi a segunda reforma da embarcação nos últimos anos. Em 1997, o navio recebeu investimentos de R$ 1 milhão, modernizando equipamentos e substituindo peças e partes da estrutura, especialmente o casco. Entre as novidades introduzidas no navio, naquela oportunidade, destacam-se o equipamento de navegação por satélite GPS, dotado de três radares com alcance de até 120 milhas (222 quilômetros), uma ecossonda científica e um filtro para retirar impurezas dos dejetos líquidos lançados no mar pela embarcação. Os recursos para a modernização do Professor Besnard têm sido obtidos pelo Instituto Oceanográfico por meio de parcerias da USP com a Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (Cirm), com o fundo de. Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e com o Ministério do Meio Ambiente. UNIVERSIDADE PLANEJA APOSENTAR EMBARCAÇÃO Apesar das reformas, que consumiram mais de R$ 1,5 milhão nos últimos quatro anos, o Instituto Oceanográfica tem planos para, em cinco ou seis anos, suspender as atividades do navio oceanográfico e construir um novo, com um custo de US$ 12 milhões (R$ 22,14 milhões) e utilizando tecnologia nacional (exigência por usar verba da União). O comandante Waldir da Costa Freitas acredita que "o Professor Besnard ainda tem muito trabalho a fazer. Por mim, não deixava que ele parasse tão cedo". Mas o marítimo reconhece as diversas "falhas" da embarcação. Entre elas, o comandante aponta a altura da popa (muito alta), dificultando a descarga de equipamentos científicos (geralmente realizada por esse lado) e o passadiço (cabine de comando) tem um campo de visão limitado. "Os navios mais modernos oferecem uma visão para o comandante de 360 graus. No Besnard, temos um pouco mais do que 180". Equipamentos - No projeto em desenvolvimento pela Universidade de São Paulo para a nova embarcação, o pau-de-carga será substituído por um guincho, facilitando a movimentação dos equipamentos e será instalado um bow thruster (hélice de propulsão lateral, situada na proa), facilitando as manobras. Os navios oceanográficos contemporâneos, especialmente os construídos para viagens à Antartida, contam com um segundo casco. Esta proteção, prevista no novo projeto, é necessária para a segurança dos tripulantes, evitando que a água do mar, geralmente a zero grau, invada a embarcação. Freitas também revela que, neste projeto, muitos dos equipamentos instalados no Professor Besnard, de última geração, seriam passados para o novo navio. "Não poderíamos desperdiçar todo esse investimento". Projeto - A construção do próximo navio do Instituto Oceanográfico (IO) ainda não tem data para começar. O projeto deve ser concluído somente no próximo semestre, prevê o vice-diretor do IO, Matsura Yasunobu. "Ainda estamos verificando os últimos detalhes. Depois disto concluído, ainda teremos que batalhar pelo capital necessário, o que deve demorar de quatro a cinco anos. Até lá, temos de continuar nossos projetos com o Besnard". Somente após o início da operação da nova embarcação, é passível pensar em aposentar, o atual navio oceanográfico do instituto. O que significará essa aposentadoria, o vice-diretor não soube precisar. "Podemos vender para alguma universidade ou relegá-lo a tarefas secundárias".