Notícia

Jornal do Brasil

Contando a história do Genoma

Publicado em 13 julho 2000

Por Entrevista com José Fernando Perez - Diretor Científico da Fapesp
Se o Programa Genoma Fapesp precisasse ter um rosto certamente ele seria o de José Fernando Perez. Professor titular de Física Matemática, o santista Perez, de 55 anos, é diretor científico da Fapesp desde dezembro de 1993. Em todo este tempo como diretor científico o Programa Genoma foi o que mais lhe garantiu a atenção da mídia. Nesta entrevista, Perez conta como surgiu à idéia do Programa Genoma, como se deu a decisão estratégica de seqüenciar a Xylella fastidiosa, quais os objetivos e como foi à articulação deste projeto, que criou uma rede de cooperação virtual, a rede ONSA, da qual participam mais de 50 laboratórios do estado de São Paulo. Orgulhoso dos sucessos alcançados, Perez admite a ousadia de uma iniciativa que, ao custo de US$ 15 milhões, alavancou o Brasil para uma posição de liderança no estudo genômico de fitopatógenos. Convencido de que a rede ONSA está, como ele mesmo diz, fazendo "ciência na fronteira do conhecimento", afirma a importância de este tipo de estudo aplicar-se à biodiversidade brasileira. Alcançado o objetivo principal de criar competências em biotecnologia no Brasil, Perez mostra otimismo com relação a uma maior interação entre universidade e indústria no país, fala da cooperação decisiva do Fundecitrus no projeto Genoma Xylella e das futuras parcerias que estão sendo estudadas. Esta entrevista é, além de tudo, uma busca de entendimento do modo como está sendo feita a ciência de ponta no Brasil. HISTÓRIA DO PROJETO Com Ciência: Como surgiu a idéia do Programa Genoma? José Fernando Perez: Eu vinha, desde janeiro de 1997, de forma meio repetitiva e quase obsessiva, levantando esta questão. Inicialmente de maneira vaga, na base da intuição, de que deveria ser possível fazer alguma coisa de impactante para darmos um salto nesta área de genética molecular. Tinha ficado muito motivado porque visitei alguns centros nos EUA, a propósito do nosso programa CEPID, e um deles me impressionou particularmente. Foi um centro em Seattle chamado Molecular Biotechnology, da Universidade de Washington, que conta com muitos recursos da Microsoft. Lá eu tive uma entrevista muito interessante com esse pesquisador famoso, o Leroy Hood, inventor do seqüenciador automático de DNA. Conversamos por mais de uma hora e ele me deu de presente o livro Code of Codes, que estuda os aspectos éticos, legais e sociais do projeto genoma. A visita me impressionou muito por todo o investimento que eles vêm fazendo, inclusive na parte educacional da área de genética molecular, envolvendo escolas de 2o grau nas reflexões sobre as implicações éticas do projeto. CC: A visita já tinha como foco o genoma? Perez: Não. Na verdade eu visitei um centro de ótica, em Michigan, um centro de biologia molecular, em Pittsburg, o Molecular Biotechnology, em Seattle e mais um outro centro em Santa Bárbara. Nos EUA, todas as idéias boas eu copio da National Science Foundation. Eles têm um projeto chamado Science and Technology Centers, naquela época com 25 centros, e eu resolvi visitar alguns deles porque achava que era um paradigma novo da organização do sistema de pesquisa. Além disso, tinha sido muito instado a fazer a visita, por um pesquisador que trabalhava na NSF. Como a idéia da biologia molecular estava um pouco na minha cabeça, escolhi dois centros, de cinco que eram da área biológica. CC: Por que o interesse particular na área de biologia molecular? Perez: Pela importância estratégica que essa área tem para o Brasil. Na realidade, o [professor da USP] Fernando Reinach veio com a idéia, que eu acho brilhante até hoje, de fazer um projeto genoma. Daí ficou a idéia de que a biotecnologia era uma janela de oportunidade para o Brasil, porque é possível fazer algo que está na fronteira do conhecimento, sem correr o risco de estar natimorto no dia do anúncio do projeto, como acontece em áreas como a microeletrônica. A biologia molecular é uma área competitiva, mas em que cada um faz o seu. CC: Como nasceu a proposta da rede Onsa? Perez: Desde que voltei dos EUA comecei a fazer questões muito freqüentes a um grupo de pesquisadores, especialmente ao professor Fernando Reinach, com quem eu dialogava bastante. Queria saber o que é que podia ser feito que não fosse convencional, como mandar gente para fora ou mesmo criar um centro. A dúvida se resolveu exatamente no 1o de maio de 1997. Eu fui passar o feriado em Ubatuba e o Fernando na chácara dele, em Piracaia. De lá ele telefonou e disse: eu tenho uma idéia boa. Porque você não volta antes do feriado e pára em Piracaia? Foi o que aconteceu. Fui para lá, dormimos uma noite na chácara dele e ficamos o dia inteiro conversando sobre a idéia. Já havia, no princípio, o ingrediente da rede [Onsa], de formar um grupo grande, que pudesse treinar muita gente. E também que fosse ligado à agricultura. Logo deu para reconhecer que este projeto tinha ingredientes de ousadia, alguma coisa de grande, que iria atrair muita gente e ter grande visibilidade. CC: O que aconteceu, então, na seqüência? Perez: Pedi ao Fernando que redigisse a idéia do projeto e marcamos uma reunião na Fapesp. Ele mesmo indicou o nome de alguns pesquisadores, como os do [professor da Unicamp] Paulo Arruda e de Marcos Machado, do Centro de Citricultura de Cordeirópolis, pertencente ao Instituto Agronômico de Campinas. Todos, quando viram o projeto, acharam-no muito bom. Aí eu fiquei realmente preocupado, porque havia uma idéia que todo mundo considerava boa, mas que, por outro lado, era bastante ousada. CC: Neste ponto, o organismo a ser seqüenciado já estava definido? Perez: O problema inicial era saber o tamanho do organismo. Logo ficou claro que deveria ser uma bactéria, algo como 2 milhões de pares de bases. Deveria ser grande, por um lado, para justificar a formação de uma rede, para permitir treinamento, mas não grande demais que não fosse comensurável com a avaliação de nossa competência. Era um projeto que não podia dar errado.