Notícia

Gazeta do Povo

Contaminação química de águas subterrâneas

Publicado em 31 maio 2000

SÃO PAULO (SP) - As águas subterrâneas são consideradas menos vulneráveis à poluição que atinge os recursos hídricos superficiais. As diversas camadas de solo normalmente funcionam como filtros naturais, retendo os poluentes. Ou deveriam funcionar, se não houvesse interferência humana. Uma pesquisa feita em uma área de 220 mil metros quadrados, em Presidente Prudente, interior paulista, mostrou que mesmo a poluição química que o solo poderia filtrar chega até os aqüíferos subterrâneos, através de "atalhos" construídos pelo homem (fossas, poços abandonados e perfurações, feitas sem acompanhamento técnico adequado) ou mesmo por raízes profundas de árvores. A pesquisa durou três anos e resultou na tese de doutorado do geólogo Manoel Carlos Toledo Franco de Godoy, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus Presidente Prudente. Com financiamento de 25 mil dólares da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Godoy fez análises químicas da água em diversos pontos do reservatório subterrâneo e constatou altos níveis de nitratos, cloro e sódio. Os nitratos são provenientes de esgotos, fossas e do chorume de lixo doméstico, que também contém substâncias tóxicas. Os níveis de nitratos encontrados são muito superiores ao máximo permitido para a água ser considerada potável. O sódio e o cloro são substâncias utilizadas no tratamento da água e derivam de acidentes, como rompimento de coletores de esgotos. "A poluição química é mais complexa do que a biológica, porque não há como extrair, por exemplo, os nitratos da água", explica Godoy. "As ações devem, então, ser preventivas: controle da disposição de rejeitos, perfuração de poços apenas com projetos técnicos adequados e formulação de uma política para a gestão correta das águas subterrâneas". O reservatório subterrâneo da região de Presidente Prudente tem 104 mil quilômetros quadrados e fica em solos da chamada Formação Bauru. A água está relativamente rasa e pode ser alcançada em poços de 10 a 20 metros de profundidade. Com o preço elevado das tarifas de água e esgoto, é cada vez maior o número de poços perfurados sem critério, que põem em risco a qualidade da água de todo o aqüífero. Na opinião de Godoy, os poços tubulares, com revestimento nas paredes, poderiam diminuir o problema. Ele sugere ainda um cadastramento de todos os poços, sobretudo na área rural, onde ainda funcionam muitas fossas sépticas e há possibilidade de contaminação nas proximidades de chiqueiros, currais ou mesmo pela adubação com esterco animal.