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CONTAMINAÇÃO POR URÂNIO

Publicado em 10 setembro 2001

A contaminação por urânio não acontece apenas em acidentes, mas também por meio da alimentação. A ingestão diária, por anos a fio, de alimentos que contenham urânio, leva ao acúmulo deste no organismo, principalmente nos ossos. Até recentemente, imaginava-se que ele ficasse apenas na superfície óssea, mas pesquisas realizadas em cães pelo Instituto de Física (IF) da USP, em colaboração com a Universidade de Santo Amaro (Unisa), revelaram que o urânio chega também à medula óssea, aumentando, nesse caso, o risco de comprometimento de suas funções. A experiência, coordenada pelo físico João Arruda Neto, foi feita em cães da raça beagle do canil da Unisa. " Os beagles foram escolhidos por apresentarem um metabolismo próximo ao dos seres humanos, caso em que 80% do urânio incorporado vai para os ossos", relata. A partir do desmame, após três meses de vida, os cães recebiam diariamente um biscoito com uma dosagem predeterminada de urânio, até completarem um ano de idade. Com um ano de vida, os beagles foram sacrificados, conforme a norma de pesquisa científica, e suas vértebras enviadas para análise no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN). O maior acúmulo acontece nos ossos, pois o urânio mimetiza o cálcio, confundindo o organismo. "As doses foram dadas no período de crescimento dos animais, quando ocorre a formação da estrutura óssea e a necessidade de cálcio é maior", diz João Arruda. A pesquisa, entretanto, foi mais a fundo. "Na ingestão por acidente, o acúmulo acontece na superfície dos ossos, na parte calcificada. Numa ingestão crônica, ou seja, em pequenas doses diárias por longos períodos, o urânio atinge também a medula óssea, preenchendo seu espaço", afirma o físico. Como a medula é responsável pela produção de células ósseas e de defesa do organismo, a longo prazo estas atividades poderão ser prejudicadas, causando leucemia e osteosarcoma (câncer nos ossos). "É um perigo silencioso, perceptível apenas quando o câncer se manifesta". O urânio aparece principalmente em alimentos de origem vegetal e animal, em cuja elaboração existam componentes à base de fósforo, elemento sempre associado ao urânio na natureza. "No cultivo de legumes e verduras usam-se fertilizantes fosfatados. Os frangos e o gado bovino recebem complementos minerais para o seu crescimento: o fosfato bicálcico", diz o físico. O limite de urânio nos alimentos é determinado pela legislação de cada país. "No Brasil é de três partes por milhão, mas o ideal seria não existir urânio nenhum nos alimentos". A próxima etapa das pesquisas deverá analisar os efeitos do acúmulo de urânio no material genético dos animais (DNA). Os estudos contam com o apoio da Fapesp e do CNPq.