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Jornal da Unesp online

Consumo pode extinguir o cação, alertam cientistas

Publicado em 22 janeiro 2010

Por Cínthia Leone

O hábito de consumir a carne e, principalmente, as barbatanas de cação (nome comercial e comum na culinária para se referir aos tubarões) tem agravado o processo de extinção de diversas espécies, entre elas uma das mais comuns do litoral brasileiro: o tubarão-martelo (Sphyrna lewini), também conhecido como panã ou cambeva. A conclusão é de um estudo internacional, publicado na revista Endangered Species Research, com participação de Danillo Pinhal, doutorando do Instituto de Biociências (IB) , campus de Botucatu. O grupo apresentará os dados publicados no artigo e proporá medidas de proteção aos animais durante a Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Extinção (Convention on International Trade in Endangered Species), que será realizada em março, no Qatar.

A pesquisa foi coordenada por Demian Chapman, da Universidade Stony Brook, em Nova York, e por Mahmood Shivji, diretor do Instituto de Pesquisa Guy Harvey, da Universidade Nova Southeastern, situada em Fort Lauderdale, na Flórida, Costa Leste dos Estados Unidos. Para desenvolver seu doutorado e participar do estudo, Pinhal contou com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), sob a orientação do professor Cesar Martins, também do IB. Ele contou com a co-orientação do professor Otto Gadig, do câmpus do litoral paulista.

Os pesquisadores coletaram material genético de tubarões-martelo, oriundos da costa brasileira, do Caribe e do Golfo do México, e também dos oceanos Pacífico e Índico. Esse material foi confrontado com o DNA de barbatanas de tubarões da mesma espécie que seriam comercializadas em Hong Kong.

Os especialistas concluíram que 21% das barbatanas eram provenientes do Atlântico Ocidental. Nessa região a espécie já entrou na lista de animais considerados "em perigo" pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN). De acordo com o biólogo, é a primeira vez que um estudo consegue determinar a origem geográfica de barbatanas utilizando DNA.

Genética forense

Para desenvolver uma "impressão digital" de cada espécie, o grupo de pesquisa do qual o doutorando faz parte analisa geneticamente vestígios disponíveis de tubarões, como nadadeiras, sangue, músculo ou brânquias. Ele isola e faz o sequenciamento de uma região específica do DNA mitocondrial, definida como "região controle".

O DNA das mitocôndrias (uma das organelas presentes na célula) é bastante utilizado por diversos estudos pela abundância de mitocôndrias dentro de cada célula, o que facilita a obtenção de DNA de boa qualidade. A "região controle" é escolhida por apresentar alta taxa evolutiva, o que a torna um ótimo marcador para comparar indivíduos de uma mesma espécie. A taxa evolutiva exibe o grau de variabilidade genética das populações.

Os pesquisadores constataram o intenso movimento migratório desses peixes e o impacto da pesca indiscriminada sobre as diversas espécies. Os tubarões apresentam crescimento lento, maturidade sexual tardia e baixa fecundidade em comparação com outros peixes. Essas características biológicas, semelhantes às dos mamíferos, tornam o animal ainda mais sensível à pesca predatória.

Outra informação extraída do trabalho é que a diferenciação genética entre os indivíduos não ocorre apenas entre os oceanos, mas em áreas relativamente próximas. Uma possível causa para essa distinção é o comportamento da fêmea, que retorna ao lugar onde nasceu para dar luz ao filhote. "Elas voltam às chamadas "áreas de berçário" por serem águas rasas, calmas, ricas em alimento e, normalmente, livres da presença de machos adultos, que podem predar, até mesmo, filhotes da própria espécie", explica. A continuidade da pesquisa de doutorado deve se concentrar no comportamento do macho e utilizar outras regiões do DNA.

Consumo

A carne do cação é relativamente barata porque é apenas um subproduto da indústria da pesca. As barbatanas podem custar de 20 a 30 vezes mais que a carne, por serem consideradas uma iguaria por alguns povos orientais, muito apreciada em cerimônias como casamentos e banquetes. Hong Kong é o principal mercado mundial de barbatanas, mas a prática está disseminada em todo o mundo.

Por causa do baixo preço da carne, os pescadores empregam muitas vezes o "finning", um método proibido em muitos países, incluindo o Brasil. Nele, o animal é capturado e, depois de cortadas as barbatanas, é jogado no mar ainda vivo. Como não consegue mais nadar, agoniza até a morte.