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GVces - Centro de Estudos em Sustentabilidade

Construção da inovação

Publicado em 05 junho 2007

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP — Para Eliezer Barreiro, coordenador do Laboratório de Avaliação e Síntese de Substâncias Bioativas da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), existe uma ligação indissociável entre todos os níveis da inovação e a criatividade.

O professor coordenou, durante a 30ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), encerrada no último domingo (3/6), em Águas de Lindóia (SP), a mesa-redonda "A química e a inovação no Brasil".

"Não se faz inovação sem criatividade.  É importante ter isso em mente ao orientar a nova geração que será responsável por esse processo de inserir a ciência na sociedade.  Eles devem perceber que a criatividade se constrói com uma educação sólida", disse Barreiro à Agência FAPESP.

De acordo com Barreiro, só a educação sólida e o estudo profundo e intenso permitem o surgimento da criatividade.  "Espero que a geração dos meus alunos perceba essa necessidade.  É preciso ousar ser criativo, porque isso é o que está por trás da verdadeira inovação", destacou o professor, que também coordena o Instituto do Milênio — Inovação e Desenvolvimento de Fármacos e Medicamentos (Infoar), na qual trabalha na articulação entre os setores público e privado.

Para Barreiro, o pesquisador acadêmico, por si só, jamais irá colocar a inovação no mercado, pois não é essa sua competência.  Ele deve se dedicar a fazer boa pesquisa e a buscar interfaces com o empresariado.

"Seria injusto responsabilizar a universidade como se fosse o único estágio capaz de responder por essa passagem do conhecimento acadêmico, básico, para uma aplicação de retorno social.  O pesquisador não sabe vender.  Ele deve construir bens e produtos, enquanto o setor empresarial tem que ser responsabilizar por sua comercialização", ressaltou.

Por outro lado, a universidade teria a responsabilidade de zelar pela propriedade intelectual da inovação.  "A proteção da propriedade intelectual é, na prática, uma obrigação cívica, embora isso demande mecanismos de fluxos de informação e estratégias de negócios para os quais as universidades ainda não estão aparelhadas."

A universidade deve, para Barreiro, divulgar todo o conhecimento novo que puder e detectar, ao mesmo tempo, o conhecimento que merecer proteção.  "É preciso também superar um certo preconceito de certos setores da própria academia em relação à propriedade intelectual", afirmou.

Na avaliação do professor titular da UFRJ, existem contradições entre o que a empresa efetivamente percebe a respeito do que deveria ser a inovação e a visão da academia, que cria as bases do conhecimento para que ele possa desembocar na inovação com um retorno social importante.

"Cada um deve fazer sua parte e, por isso mesmo, há interesses que, se não chegam a ser conflitantes, merecem ajustes.  Esse é o desafio atual do processo inovativo.  Para superá-lo, é importante que os atores envolvidos evitem intransigências e busquem a confiança mútua.  Os parceiros precisam chegar de peito aberto, dispostos a confessar suas limitações", afirmou.

A academia, de acordo com o professor, deve conhecer melhor a Lei de Inovação.  "A leitura da legislação deve ser despartidarizada.  A empresa precisa ser trazida para perto da universidade, com projetos que não sejam teleguiados, mas que possibilitem colaborações em que haja interesse empresarial na área em que há competência de fato", destacou.