Notícia

Jornal da Unicamp

Constelação de palavras

Publicado em 01 outubro 1999

Por MARCELO BURGOS
Estranho ofício o dos lingüistas. Uma de suas principais matérias-primas — a fala - é volátil, gasosa. Achar um modo de capturá-la é tarefa diária destes cientistas. Mas como fazer isso quando se quer estudar uma fala antiga - por exemplo a dos portugueses do século 18 - e comparar com o modo que falamos hoje? A empreitada - diga-se desde já hercúlea — é também fascinante. Afinal, viagens no tempo despertam nossa curiosidade infantil. Neste caso, intriga ainda mais saber que, dada a escassez de documentos, fica difícil afirmar com certeza como era a prosódia - modo de falar - daqueles portugueses. É preciso estudar, então, também, a aproximação entre oral e escrito, e buscar na literatura — o teatro é mais fiel neste caso, mas há a alternativa da imprensa — as pistas que se procura. Mais interessante ainda é buscar tais provas para comprovar uma tese mirabolante, ao menos a princípio: de que estes portugueses que viviam há quase 200 anos falavam um idioma próximo do nosso "brasileiro", ao menos na prosódia. Os Sherlock Holmes' que buscam a comprovação desta teoria são lingüistas, matemáticos, físicos e estatísticos reunidos no projeto temático "Padrões rítmicos, fixação de parâmetros e mudança lingüística", financiado pela Fapesp e capitaneado por Charlotte Galves, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp. Aquisição de linguagem - A história lingüística de Charlotte talvez explique um pouco o objeto deste estudo. Francesa nascida em Dijon, cursou letras clássicas em Paris, atraída pelo fascínio que exerciam sobre ela o Latim e Grego. Depois de formada pela Universidade Paris III, foi passar 15 dias de férias em Lisboa e se apaixonou pelo local e pelo idioma: em três meses já o dominava com conforto. Mas não foi somente a música dos falantes lisboetas que atraiu Charlotte: os vôos romanescos de Eça de Queiroz e dos Capitães de Areia, de Jorge Amado, acirraram ainda mais sua paixão. Foram dois anos em Portugal. Em seguida, Charlotte voltou para a França, onde foi trabalhar como intérprete em hospitais, de imigrantes portugueses, então numerosos em Paris. Foi ouvindo as mulheres e homens sofridos pela imigração e o idioma que resultava do português nativo, mesclado à força com o francês, que Charlotte teve a idéia de estudar este terceiro idioma, híbrido, que cria o emigrado. "Muitas portuguesas diziam, por exemplo, 'arretei as madames', que significa 'parei de trabalhar em casa de família' (do francês "arrêter"). O gosto pelo estudo das mudanças lingüísticas foi ainda mais aguçado quando Charlotte entra em contato com o Brasil, para onde se mudou alguns anos depois. "Foi um choque para mim a forma como os brasileiros falavam". Reação à dominação - Charlotte chocou-se ao constatar que tudo no português brasileiro era diferente do português europeu. No ritmo, por exemplo: as vogais pré-tônicas foram mantidas no Brasil e, em Portugal, elas muitas vezes desaparecem. Parece complexo, mas é só pensar na palavra menino. Lá, ela é pronunciada sem a letra "e". Na sintaxe: em vez de "Maria viu-me", usamos "Maria me viu". Uma das hipóteses trabalhadas no projeto é que, na segunda metade do século 18, talvez em reação à dominação do castelhano, o ritmo do português de Portugal mudou, e isso provocou uma mudança sintática, visível em particular na colocação de clíticos, tão peculiar dessa língua. Então, em parte (porque nos também mudamos outros aspectos da sintaxe), a forma com que talamos hoje seria a mais próxima daquela original. Estaríamos mais próximos, então, da forma original lusitana de pronunciar o português? O projeto ainda não responde esta questão, mas a propõe, entre tantas outras. Para chegar a uma conclusão, um vasto corpus comparativo de fala está sendo preparado, com as duas variantes, além de um corpus histórico com anotações morfológicas e sintáticas que chega a 2 milhões de palavras. Um trabalho hercúleo, como já se disse, ou digno de Tycho Brahe, que batiza o corpus histórico e criou um observatório na Dinamarca para mapear o céu, o Uraninburg, logrando êxito total e criando a base para o desenvolvimento das leis de Kepler. Mapear o português é, por enquanto, o objetivo da equipe do projeto, formada ainda por Maria Bernadete Abaurre Helena Britto (IEL/Unicamp). Marzio Cassandro (Dip. Fisica, Roma La Sapienza), Pierre Collet (Physique Théorique, Ecole Polytechnique, CNRS), Ricardo Molina Figueiredo (Laboratório de Fonética Forense, FCM, Unicamp), Marcelo Finger (IME/USP), Sônia Frota (Universidade de Lisboa), Antonio Galves (IME/USP), Anthony Kroch (Universidade da Pennsylvania), Arnaldo Mandel (IME/USP), Philippe Martin (Linguistics, University of Toronto), Gilberto Alvarenga Paula (IME/USP), Ilza Maria Ribeiro (Unifacs/UEFS) e Filomena Sândalo (IEL/Unicamp).