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Boletim do Acadêmico

Constantino Tsallis atua na divulgação científica

Publicado em 25 maio 2007

No início de março, o físico e Acadêmico Constantino Tsallis recebeu o Prêmio Elsevier por sua contribuição à ciência. Concedido pela editora de títulos científicos que dá nome à premiação, a distinção é mais uma na longa lista de homenagens feitas a esse pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), órgão ligado ao Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT). Autor da teoria que ficou conhecida como "estatística de Tsallis", o físico, em razão de sua produção científica, já foi citado em mais de 2 mil artigos de outros pesquisadores em mais de 60 países — feito que no Brasil o aproxima, nesse indicador, ao do célebre médico sanitarista Carlos Chagas, descobridor da doença que porta seu nome.

Os números que refletem sua atuação como pesquisador são superlativos. Até o momento publicou aproximadamente 300 trabalhos e proferiu mais de 700 conferências em eventos e instituições de cerca de 40 países. Nesta entrevista, concedida ao Boletim da Faperj por e-mail, Tsallis — apoiado pela Fundação por meio do programa Cientista do Nosso Estado — aborda, entre outros assuntos, a importância de uma política voltada para a divulgação científica para o país, o trabalho das agências de fomento à pesquisa e o reconhecimento quase sempre tardio, por parte da comunidade internacional, da contribuição de pesquisadores brasileiros.

Nascido na Grécia em 1943, Constantino Tsallis tinha quatro anos quando, levado pela família, emigrou para o Brasil. Após breve estada por aqui, a família se transferiu para Mendoza, na Argentina, onde completou seus estudos primários e secundários. Diplomado pelo Instituto de Física de Bariloche em 1965, seguiu para a Europa no ano seguinte após obter uma bolsa de estudos do governo francês. Ao longo de quase uma década de permanência em território francês, lecionou Física regularmente na Universidade de Paris e na Ecole de Physique et Chimie de Paris. Em 1974, recebeu o diploma de Docteur d'Etat en Sciences Physiques pela Universidade de Paris-Orsay por pesquisas na área de Teoria de Transições de Fase. Em 1975, emigrou de volta ao Brasil — país ao qual solicitou e obteve a nacionalidade brasileira em 1984. Confira, a seguir, a entrevista:

Boletim da Faperj: O senhor fez recentemente uma apresentação que inaugurou o ciclo de palestras Ciência às 6 e meia, evento que se propõe a aproximar a ciência do público leigo. Qual a importância da realização de eventos como esse para a divulgação científica?

Constantino Tsallis: Eventos de divulgação científica, como a série da SBPC (Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência) que acontece neste momento na Casa da Ciência da UFRJ, são de extrema importância. O futuro, e também o presente, do Brasil dependem em grande parte da percepção e empatia de sua população em relação às questões científicas e tecnológicas. Estes são os caminhos que percorrem os países econômica e socialmente mais bem-sucedidos do planeta. Elevar o nível cultural geral dos brasileiros e brasileiras, satisfazendo sua curiosidade natural em relação ao mundo em que vivemos, é tarefa nobilíssima e de grande importância. Só tenho elogios para dirigir a quem a ela se dedica parcial ou integralmente.

BF: O senhor é o autor de uma teoria, a 'estatística de Tsallis', que se tornou conhecida internacionalmente. De forma resumida, do que trata a estatística e de que maneira ela influi no cotidiano das pessoas comuns?

CT: A mecânica estatística de Boltzmann-Gibbs, estudada em todas as universidades do mundo, focaliza especialmente os chamados 'sistemas simples'. A mecânica estatística não extensiva generaliza esta teoria, e focaliza tipicamente os chamados 'sistemas complexos', sejam estes em física, química, biologia, economia, lingüística, antropologia, engenharia, medicina. A mecânica estatística tradicional refere-se tipicamente a geometrias contínuas, do tipo euclidiano, e exibe leis exponenciais, enquanto sua generalização refere-se essencialmente a geometrias fractais, invariantes ao fazer 'zoom' nelas, e exibe leis de potências notoriamente diferentes das leis exponenciais. As conseqüências práticas são incontáveis, indo desde possivelmente um melhor diagnóstico do câncer e da diabetes, melhor análise de electroencefalogramas (de epiléticos, por exemplo) e eletrocardiogramas, melhor descrição de terremotos e dos movimentos das bolsas de valores, até questões científicas fundamentais para a compreensão da física e da matemática, tais como as entendemos hoje.

BF: Em 2005, a Sociedade de Física da Europa dedicou um número inteiro de sua revista Europhysics News a um tema que vem sendo desenvolvido no Brasil. Convidado para trabalhar na edição desse número, o senhor assinou artigo em co-autoria com o prof. M. Gell-Mann, laureado com o Prêmio Nobel de Física por sua descoberta dos quarks, e também com o Dr. Y. Sato, pesquisador do Santa Fe Institute, Novo México. Qual a importância do fato para a pesquisa brasileira?

CT: Não é freqüente ver, em países como o Brasil, um forte reconhecimento internacional em relação a suas constantes e importantes contribuições à ciência universal. Uma clara, porém desafortunadamente tardia exceção a isto é o caso de Carlos Chagas, cujas imensas contribuições à medicina ultrapassaram as fronteiras do país e são hoje um glorioso exemplo para todos os cientistas brasileiros. Em níveis — é claro — infinitamente mais baixos, mas também de modo consistente, a física estatística do Rio de Janeiro, e, em geral, do Brasil, tem produzido varias contribuições interessantes. Dentre elas, tem adquirido um certo destaque a mecânica estatística não extensiva, integralmente oriunda do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. Esta teoria tem sido, até esta data, objeto de mais de 2.100 publicações feitas por quase 1.600 cientistas de 60 países. Essa atividade se reflete positivamente em várias frentes. Uma delas, muito importante, são as colaborações, mencionadas na sua pergunta, com Murray Gell-Mann, que pode hoje ser considerado o mais famoso físico teórico vivo. Elas atingem ao menos duas questões particularmente interessantes: o fato de que uma entropia (conceito central em várias ciências e tecnologias contemporâneas) não aditiva pode ser extensiva, e pode, portanto, ser adequada para fazer a ponte com a termodinâmica clássica, de grande utilidade em ciências como a física, química e engenharias; a generalização do teorema central do limite, que sugere a ubiqüidade, em sistemas naturais, artificiais e sociais, de formas matemáticas particulares, a exemplo do que ocorre para muitos outros fenômenos em relação à forma normal (a célebre Campana de Gauss) em teoria de probabilidades. Em ambos aspectos, as contribuições do professor Gell-Mann têm sido inestimáveis. Sem insistir no fato, devo dizer que é uma alegria e um privilégio discutir ciência com um cientista dessa estatura. O interesse que uma personalidade como ele tem repetidamente demonstrado em relação a esta teoria originária do Brasil vai bem além de distinguir as pessoas que nela trabalham. Também constitui um valioso e eficiente reconhecimento internacional da qualidade da ciência que aqui se faz.

BF: O que significa para a Física brasileira o convite feito pelo diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohamed ElBaradei, prêmio Nobel da Paz de 2005, para que o diretor do CBPF, Ricardo Galvão, passe a integrar o IFRC (Conselho Internacional de Pesquisa em Fusão) até 2011 se tornando assim o segundo brasileiro a ocupar tal posto?

CT: O professor Ricardo Galvão, atual diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, é, além de talentoso administrador, um dos melhores especialistas do Brasil na física de plasmas. Às suas habilidades como cientista experimental, acrescenta agudeza em relação a questões teóricas, o que faz dele um cientista completo. Não duvido que sejam estas as qualidades que tenham levado uma personalidade como Mohamed ElBaradei a convidá-lo para integrar o Conselho Internacional de Pesquisa em Fusão. Isso significa um reconhecimento claro do nível científico-tecnológico e ético que o Brasil está adquirindo em sua longa trajetória de desenvolvimento. Para nós, brasileiros em geral e cientistas em particular, é uma honra e alegria compartilhar do reconhecimento internacional do professor Galvão. A iniciativa de Mohamed ElBaradei estimula o colega e ajuda o Brasil.

BF: Na sua opinião, que papel a cultura científica deverá ocupar no espaço social do século XXI? Qual a importância do trabalho de divulgação científica e de que maneira ele pode contribuir para instrumentalizar o cidadão numa sociedade democrática?

CT: Enquanto o esporte sempre foi popular em diversos povos e diferentes épocas, a arte erudita e a ciência foram, em boa parte, privilégio das classes mais endinheiradas e instruídas. Este movimento que ora estamos testemunhando no Brasil, de levar ciência e variadas formas de arte ao alcance de todos, é, sem dúvida alguma, um passo importantíssimo para a cidadania. Democracia só faz sentido quando se tem conhecimento e responsabilidade. Tenho convicção de que a ciência, como a arte, fortemente contribuem neste sentido. Estimular a criatividade das pessoas, satisfazer sua curiosidade natural, é certamente um dos aspectos mais positivos da natureza humana. Existem muitos animais curiosos, mas creio que nenhum tão curioso quanto o homem! Desnecessário mencionar também que ciência e tecnologia melhores inevitavelmente conduzem a maior eficiência nas técnicas e processos. Havendo uma determinação genuína por parte,dos dirigentes políticos, a ciência e a tecnologia podem ser utilizadas para pavimentar o caminho para garantir um melhor desempenho na economia de qualquer país.

BF: Na sua avaliação, o trabalho desempenhado pelas instituições de fomento à C&T tem acompanhado as necessidades da pesquisa no país?

CT: Em geral sim, e muito especialmente o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, agência do Ministério de Ciência e Tecnologia), que está atualmente tendo uma das melhores presidências dos últimos 30 anos. As ações positivas do MCT, sob a égide do atual ministro e colega, Sergio Rezende, têm estimulado também ações regionais, em particular através da Faperj, Fapesp e órgãos análogos espalhados pelo país, de grande valia.
(Fonte: Boletim da Faperj, 17/5)