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Jornal da USP online

Consórcio Brasil-EUA busca talentos

Publicado em 30 março 2015

Por Sylvia Miguel

Em vez de analisar em computador as propriedades de diversos materiais para, em seguida, desenvolver novos nanomateriais com as características encontradas, o estudante Leonardo Abdalla, do Instituto de Física (IF) da USP, quer inverter a metodologia convencional na área de design de materiais. Dará ao computador as propriedades que deseja para seu produto final e, a partir de milhares de cálculos, pretende chegar à fórmula ideal de novos óxidos ou isolantes topológicos para aplicação em células solares. Com doutorado defendido recentemente e apenas 26 anos de idade, o estudante terá um local privilegiado para empreender o desafio: a University of Colorado Boulder, nos Estados Unidos, uma das melhores instituições de ensino e pesquisa do mundo em materiais e nanotecnologia.

Stanford University, Colorado State University – ou Colorado School of Mines –, Massachussetts Institute of Technology (MIT) e o National Renewable Energy Laboratory (NREL) poderiam ter sido escolhidos por Abdalla para desenvolver seu pós-doutorado. Esses são os parceiros norteamericanos do Consortium for Innovation on Nanotechnology, Energy, and Materials (Cinema), um programa de pesquisa colaborativa entre Brasil e Estados Unidos criado em 2012, em Brasília (DF), durante uma reunião da Comissão de Cooperação em Ciência e Tecnologia.

Do encontro protagonizado pelo presidente Barak Obama, dos Estados Unidos, e a presidente Dilma Roussef, em Brasília, foi criada uma pauta de cooperação envolvendo áreas como gestão de desastres e ciência do oceano. Além dessas, o Brasil propôs a nanotecnologia como uma das três áreas de novos engajamentos bilaterais.

O renomado MIT foi a escolha do estudante Robson Guimarães, do Instituto de Química da USP, escolhido na primeira chamada do programa. O estudante finaliza seu doutorado até o final de 2015 para, em seguida, começar a desenvolver seu projeto de pós-doutorado, voltado ao desenvolvimento de células solares para aplicação em baterias mais sustentáveis, eficientes e robustas.

“Soube do programa através do meu orientador e fiquei até meio assustado quando recebi a notícia de que eu iria para o MIT. Realmente é uma oportunidade única para brasileiros. É como ter um cavalo selado passando por você. É só montar e seguir em frente”, compara.

Apesar dos atrativos valores das bolsas, da proposta do programa e dos locais e recursos privilegiados para pesquisa e desenvolvimento, apenas cinco submissões de propostas foram apresentadas na primeira seleção, realizada em 2014. Dessas, três foram aprovadas, sendo duas de alunos da USP – Abdalla e Guimarães.

Com isso, o próprio William Tumas, diretor de pesquisa do NREL, um dos laboratórios nacionais supervisionados pelo Departamento de Energia (DOE, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, veio ao Instituto de Física da USP para apresentar o programa e captar talentos da área de materiais e nanotecnologia com vistas ao desenvolvimento de novos materiais para a área energética.

“Nossa meta é avançar em inovação na área de nanotecnologia para o setor energético. E, para o estudante de pós-doutorado, o programa é uma rica experiência que pode alavancar descobertas e publicações em revistas de alto impacto e proporcionar uma visão global de como as pesquisas são realizadas nas mais reconhecidas instituições de ensino e pesquisa dos Estados Unidos”, disse Tumas ao Jornal da USP.

Carta de intenções – O consórcio está recebendo propostas de pós-doutoramento até 15 de abril, quando encerra a primeira etapa de inscrições. A segunda etapa termina em 15 de maio. As informações sobre o consórcio e as bolsas estão no website http://sciencepolicy.colorado.edu/cinema/

Ao entrar no site, o candidato verá uma lista de aproximadamente 50 orientadores e deve escolher um de acordo com sua área de atuação. Envia uma carta de intenções para o orientador escolhido e em seguida faz o cadastro no Ciência sem Fronteiras, programa do governo federal. Interage com o orientador para, até 15 de maio, submeter o projeto final de pesquisa para o comitê avaliador do Cinema.

O suporte e o passo-a-passo para as aplicações também podem ser obtidas com Anna Tempesta, do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCT&I), pelo e-mail anna.tempesta@mcti.gov.br. Segundo Tempesta, haverá outras chamadas neste e nos próximos anos.

Como as bolsas de brasileiros para o Cinema são financiadas pelo programa Ciência Sem Fronteiras, Capes, CNPq e Fapesp, vale observar os prazos de revisão das propostas, que, no caso do Ciência Sem Fronteiras, termina em 23 de abril. Estão disponíveis 17 bolsas pelo consórcio, num valor aproximado de US$ 44 mil cada. Cada bolsa tem validade de um ano e pode ser estendida por igual período.

Um projeto para gerar inovação

O programa Cinema tem como objetivo geral acelerar o desenvolvimento de tecnologias de energias renováveis e sustentáveis através de investimentos em nanotecnologias inovadoras.

“Estados Unidos e Brasil tiveram uma reunião muito importante na qual acordaram cooperação em áreas como inovação, nanotecnologia, energia e saúde, que são pautas muito importantes para os dois países. Já temos um histórico de colaboração muito bem-sucedida em biocombustíveis iniciada em 2007 e tivemos um intercâmbio intenso de pessoas. Energia é uma área em que ambos os países são líderes e acredito que nanotecnologia e materiais são áreas críticas para o setor energético. Temos muito interesses mútuos para compartilhar e podemos inovar juntos e enfrentar muitos desafios nessas áreas”, disse William Tumas, diretor de pesquisa do National Renewable Energy Laboratory (NREL).

“A USP é um local de excelentes alunos e daí a importância que estão dando para a divulgação desse programa aqui na Universidade. É provável que a segunda chamada consiga conceder mais bolsas devido a uma melhor divulgação”, disse o diretor do Instituto de Física da USP, professor Adalberto Fazzio.

“O legado do programa será a colaboração entre os dois países. O resultado perfeito seria o pós-doutor retornar ao seu país e realizar algo importante na sua área de estudo, com as inovações ou descobertas que conseguir alcançar”, disse Garry Rubles, pesquisador do NREL e da University of Colorado Boulder, que também participou do seminário no Instituto de Física.