Notícia

IDEA

Conjuntura - Disseminador de tecnologias

Publicado em 22 setembro 2007

Embora seja um evento ainda novo dentre os que mais movimentam a cadeia sucroalcooleira, o Simtec (Simpósio Internacional e Mostra de Tecnologia da Agroindústria Canavieira) acontece num dos principais pólos voltados ao setor: Piracicaba, SP. E o lugar que abriga a o evento ajuda a reforçar essa mística: o simpósio ocorre no Engenho Central, que chegou a ser o maior produtor brasileiro de açúcar no início do século passado. Simbiose perfeita para o Simtec, que em sua quinta edição, entre os dias 17 e 20 de julho, superou em muito a expectativa inicial de R$ 350 milhões em negócios. Contabilizou, ao final dos seus quatro dias, cerca de R$ 1 bilhão em negociações.

O que também chamou a atenção foram os eventos que ocorreram no transcorrer do simpósio. Um deles, segundo o coordenador do Simtec, José de Jesus Vaz, colocou no centro das discussões o mercado da bioeletricidade. Um filão e tanto para o setor e que promete não só capitalizar os empresários sucroalcooleiros, mas também contribuir para a economia do país. De acordo com pesquisas, a capacidade já instalada de produção de bioeletricidade do setor pode fornecer ao país uma quantidade considerável de energia, podendo chegar a uma produção correspondente a três Itaipus, ou seja, 20% da necessidade brasileira.

Outra característica do Simtec é a difusão de tecnologias. Não é à toa que é referência para negócios e aprimoramento tanto no Brasil como no exterior. Foi palco de três simpósios: Simbio (Simpósio de Biotecnologia em Etanol e Biodiesel), Simcoger (Simpósio sobre Cogeração de Energia) e Simantec (Simpósio sobre Manutenção e Tecnologias Industriais), que juntos promoveram 35 palestras nos períodos da manhã e da tarde. Para Vaz, o evento foi muito positivo. "Conseguimos obter um público altamente qualificado e a geração de negócios superou as expectativas iniciais. As palestras, de diversos assuntos - que variavam entre meio ambiente a políticas econômicas, de enzimas para produção de álcool a equipamentos pesados -, tiveram público recorde. A quinta edição do Simtec cumpriu a meta de disseminar tecnologia de forma gratuita para todos os interessados", comemora.

Este ano, o simpósio registrou a maior participação de delegações estrangeiras. Os apoios da Apex (Agência de Promoção de Exportações) e do Apla (Arranjo Produtivo Local do Álcool) foram primordiais para isso, pois fomentaram o intercâmbio com empresários de vários países, como Estados Unidos, México, República Dominicana, Honduras, Peru, Paraguai, Argentina, Bolívia, Mauritânia, África do Sul e Austrália. O presidente da Cooperativa dos Plantadores de Cana, José Coral, comenta que os efeitos positivos do Simtec são sentidos no campo, à medida em que o foco é a produtividade e a eficiência. "O desenvolvimento do setor como um todo beneficia o plantador", disse. Ele lembrou também a importância do posicionamento do governador José Serra em afirmar que o governo do Estado vai apoiar os pequenos produtores a se adequarem ao fim da queimada de cana para a colheita.

Na solenidade de abertura do evento, o governador do Serra formalizou o convênio entre a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e a Dedini Indústrias de Base. O acordo prevê investimentos de R$ 100 milhões para o financiamento conjunto de pesquisas científicas e tecnológicas em universidades e institutos de pesquisa em novas tecnologias para a produção de etanol de cana-de-açúcar. Os trabalhos serão feitos por equipes compostas por pesquisadores de instituições de ensino superior e pesquisa no Estado de São Paulo e da Dedini. O montante será dividido entre a Fapesp e a empresa no decorrer de cinco anos de estudos. O governador pediu para o presidente da Fapesp - órgão que recebe 1% do total arrecadado em tributos no estado -, Carlos Vogt, que o convênio também contemple estudos de viabilidade econômica e tecnológica para a produção de máquinas que sejam capazes de colher a cana-de-açúcar em terrenos com inclinação maior que 12 graus, contribuindo para reduzir as queimadas de cana no território paulista.

5º Simtec — mais de R$ 1 bilhão em negócios


Mais contratos

Por falar em Dedini, a empresa assinou mais dois contratos de destaque. Um deles foi a parceria com a empresa Bosch Projects, da África do Sul, que prevê a transferência de tecnologia para a produção de um Difusor Modular no Brasil. O vice-presidente de Operações da Dedini, José Luiz Olivério, disse que o difusor se ajusta ao aumento da capacidade da usina, além de oferecer solução de maior confiabilidade e menor custo de manutenção. Sérgio Barreira, diretor-executivo da Divisão de Açúcar e Etanol da empresa, comenta que os difusores modulares apresentam vantagens em relação ao convencional porque não utilizam correntes internas para o arraste da cana e, por ser modular, é ampliável.

Após a parceria, o primeiro negócio a ser fechado foi com a Usina Noroeste, de Sebastianápolis, SP, pertencente ao grupo chinês Noble. Em agosto de 2008, o Difusor Modular entrará em operação na usina. A parceria entre as empresas permite que a Dedini projete, fabrique e monte difusores modulares, sem correntes. O equipamento tem capacidade para processar de 6 mil a 15 mil t de cana/dia. Outro contrato implica no fornecimento, em sistema green field, de planta completa para produção de etanol, açúcar e energia para a Agroenergética Monteverde, que instalará a nova usina na cidade de Ponta Porã, MS. Forte nos setores de pecuária e agricultura, a Monteverde está investindo pela primeira vez no setor sucroalcooleiro ao aplicar R$ 300 milhões no novo projeto.


Palestras

Entre as várias palestras ocorridas durante o evento, o diretor de Metrologia Científica e Industrial do Inmetro (Instituto de Metrologia, Normatização e Qualidade Industrial), Humberto Brandi, afirmou que a homogeneização dos padrões relacionados ao etanol pode ser efetivada ainda este ano. A medida deve beneficiar o Brasil em suas relações comerciais. Brandi comentou que um grupo de trabalho, envolvendo Brasil, Estados Unidos e União Européia, tem atuado em sintonia com o objetivo de acelerar a padronização de medidas e contribuir para o fomento das relações comerciais dos países interessados na certificação do etanol, transformando-o em uma commodity ambiental mundial. Marcos Jank, presidente da Unica (União da Agroindústria Canavieira) defendeu, durante sua palestra, que a certificação do álcool deve ser a mais abrangente e universal possível, sob o risco de que alguns países coloquem barreiras para a aquisição do produto brasileiro. Para Jank, o tom que será impresso no mercado sucroalcooleiro será da forte concorrência, já que o mundo está aberto às discussões sobre a produção de combustíveis como fontes renováveis.

"A certificação deve acontecer não somente do álcool, mas de todos os contextos usados para produção de etanol, a partir de fontes variadas como o milho e a canade- açúcar, considerando as especificidades de cada produto", disse o presidente da Unica. Ao falar sobre suas metas frente à entidade, Jank destacou o atendimento das demandas interna e externa pelo combustível e a busca de novas tecnologias. Pretende abrir escritórios da entidade nos EUA, na União Européia e na Ásia com o intuito de "vender" as qualidades do etanol e dos biocombustíveis brasileiros no exterior, num trabalho semelhante ao realizado pelo Apla, que organiza localmente esse atendimento. Inclusive há a possibilidade de a Unica atuar em parceria com o Apla, sediado em Piracicaba, no atendimento organizado das missões que, cada vez mais, vêm ao Brasil conhecer o etanol e toda a cadeia que o envolve.

Simpósios proporcionaram a difusão de informações sobre vários temas relativos à agroindústria canavieira

Outra palestra interessante foi proferida pelo empresário japonês Masanobu Aizawa, representante da empresa Hitachi, que desenvolveu a utilização da membrana molecular no processo de desidratação alcoólica. Tida como uma das mais modernas técnicas na desidratação do etanol, a tecnologia utiliza membrana zeolítica, assim como a resina empregada no processo de peneira molecular, o que dispensa o emprego de quaisquer produtos químicos. Um dos atrativos é o custo da nova tecnologia, pois o processo físico de desidratação sempre foi considerado um empecilho para a implementação e a disseminação da alternativa. Além disso, a membrana molecular deverá ter um custo operacional menor do que a peneira. O investimento inicial também deverá ser mais barato.


Negócios com o exterior

De olho no mercado exterior, a Apex e o Apla promoveram uma série de encontros em seu estande durante o evento. O objetivo principal foi estreitar o relacionamento entre fornecedores brasileiros, principalmente da cidade de Piracicaba, e empresários de todo o globo. Durante o Simtec 2007, dois projetos foram colocados em prática pelas entidades: Imagem e Comprador. O Projeto Imagem contempla o estímulo à vinda de jornalistas estrangeiros ao evento para que os mesmos possam ter a oportunidade de recolher subsídios para divulgar os produtos, as tecnologias e o potencial das empresas brasileiras. Também busca apresentar o potencial da região de Piracicaba, detentora de tecnologia na fabricação de máquinas e equipamentos para a agroindústria sucroalcooleira, além de propagar o Pólo Nacional de Biocombustíveis, instalado na cidade.

O Projeto Comprador, por sua vez, concentra a visita de vinte empresários da América Latina e dos EUA para participarem de rodadas de negócios durante o evento. Os objetivos desse programa são o fomento de idéias, a divulgação do potencial em oferta de equipamentos e de prestação de serviços, a apresentação de tecnologias, a expansão de fronteiras e a consolidação do Brasil como referência nessa área em nível internacional. Os negócios superaram as expectativas a alcançaram valores superiores a US$ 2 milhões em apenas dois dias de encontros entre empresários e clientes do mundo todo. A rodada de negócios contou com a participação de empresários da Austrália, do México, da República Dominicana, dos EUA, do Peru, de Honduras, da Argentina, do Paraguai, da Bolívia e da Mauritânia.

Em entrevista coletiva, organizadores avaliam o Simtec 2007

Segundo o coordenador do Simtec, não se faz um setor forte com uma ou outra empresa forte. O setor produtivo do etanol, que pode substituir o petróleo, tem que se unir, se equalizar e tornar seus custos cada vez mais competitivos e sua tecnologia evoluída. Ele defende o acesso de pequenos empresários às mais novas tecnologias de forma a inserí-los no mercado global que se avizinha para o álcool. "Isso faz com que os pequenos empresários do setor mantenham seu fornecimento a um custo equivalente aos grandes empresários", avalia. A democratização do setor é uma bandeira levantada por Vaz. "O álcool é uma fonte alternativa e mais democrática de energia, mas isso tem que ser feito a partir do conhecimento e não do poder econômico", sintetiza.


Evento ambientalmente correto

No dia 13 de julho, véspera da abertura do Simtec 2007, mudas de árvores foram plantadas às margens do Córrego do Enxofre. A iniciativa de plantar 100 árvores, no total, é uma forma de compensar os gases emitidos durante a preparação e a realização do evento. Também é a primeira vez que a coordenação do Simtec conta com uma empresa especializada no controle da emissão de gases durante os preparativos e o desenvolvimento do evento. Com o plantio das árvores, não haverá a comercialização dos créditos de carbono, mas uma compensação das emissões poluentes.

"O volume de gases do efeito estufa emitido pelo Simtec 2007 foi estimado por meio de cálculos a partir de adaptações à realidade brasileira das metodologias estabelecidas pelo IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change). É um órgão internacional ligado à ONU responsável pelo estabelecimento das metodologias para estudos envolvendo os gases do efeito estufa", explica Agmar Paulo Vitti, gestor de projetos da empresa Ecotrad Ambiental. Ele disse que o cálculo das emissões incluiu a utilização de veículos pela equipe do Simtec, as viagens aéreas, a energia elétrica consumida durante o evento e a quantidade de lixo gerada.