Notícia

Gazeta Mercantil

Conhecimento é o segredo - Tecnologia muda padrão econômico

Publicado em 11 outubro 1996

Por Pam Woodall - The Economist
A tecnologia da informação torna cada vez mais indistintos os limites entre os setores da economia, que cada vez mais produz bens "intangíveis", como mostra o nono artigo, de uma série de dez, do relatório da The Economist, que estamos publicando Você deve estar cansado de ouvir pela enésima vez que vivemos na "era da informação" ou da "economia baseada no conhecimento", mas é verdade. As economias ricas começam a depender cada vez mais da criação, distribuição e uso da informação e do conhecimento, que envolve tanto a tecnologia quanto o capital humano. A característica mais evidente da economia que se baseia no conhecimento não é que ela produz muita informação para os consumidores - embora faça isso também -, mas que usa o conhecimento de forma disseminada, como insumo e produto em toda a economia. Um estudo recente da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), "A Economia Baseada no Conhecimento", calcula que mais de metade do PIB nos países ricos, atualmente, tem base no conhecimento, inclusive setores como telecomunicações, computadores, software, indústria farmacêutica, educação e televisão. Os setores de high-tech quase dobraram sua participação na produção industrial nas duas últimas décadas, para cerca de 25%, e os serviços de conhecimento intensivo estão crescendo de forma ainda mais rápida. De acordo com uma avaliação, "trabalhadores da área de conhecimento", desde neurocirurgiões até jornalistas, são responsáveis por oito de cada dez novos empregos. Então, qual é a novidade? O conhecimento, isto é, encontrar formas melhores para fazer as coisas, sempre foi a fonte principal de crescimento econômico a longo prazo, desde a revolução agrícola até os dias atuais. A diferença desta vez é, primeiro, que a tecnologia da informação (TT) apressou a mudança em direção a uma economia com base no conhecimento, ao permitir que uma maior quantidade de informação fosse codificada de forma digital, facilitando a transmissão através de longas distâncias, a baixo custo. A segunda diferença é que a produção é feita cada vez mais na forma de intangíveis, com base na exploração de idéias em lugar das coisas materiais. A conversa da moda hoje é a respeito da economia "imaterial" ou "sem peso". Na medida em que a produção de aço, fios de cobre e tubos de vácuo mudou para microprocessadores, fios de fibra óptica e transistores e, enquanto os serviços aumentaram sua participação no total ;da economia, a produção se tornou mais leve e menos visível. Em pronunciamento feito no início deste ano, Alan Greenspan, do Fed, ressaltou que a produção dos Estados Unidos, medida em toneladas, não é muito mais pesada agora do que era há cem anos, muito embora o PIB tenha multiplicado seu valor em 20 vezes. E, à medida que a produção se torna mais leve, torna-se também mais fácil de se movimentar. O peso médio do valor real de um dólar das exportações dos EUA é agora menos de metade do peso de 1970. Charles Goldfinger, consultor econômico, argumenta que a mudança de bens materiais para intangíveis é a característica que define a nova economia. Não apenas serviços como finanças, comunicações e a mídia, se multiplicaram em tamanho, mas mesmo os bens tangíveis têm cada vez mais conhecimentos embutidos: pneus inteligentes que informam quando a pressão está alterada, máquinas de venda ("vending machines") que informam aos distribuidores quando necessitam de novo estoque. As inserções de intangíveis são agora responsáveis por 70% do valor do carro. E, de acordo com uma estimativa, o valor das ações de investimentos em intangíveis nos Estados Unidos (pesquisa e desenvolvimento, educação e treinamento) ultrapassou o valor das ações de capital físico durante os anos 80. A teoria econômica tem um problema com o conhecimento: ela parece desafiar o princípio econômico básico da escassez. O conhecimento não é escasso no sentido tradicional -quanto mais ele é usado e transmitido, mais ele prolifera. É diferente das mercadorias tradicionais no sentido de ser, como dizem os economistas, "infinitamente expansivo", ou "sem rival", no consumo, isto é, por mais que seja usado, ele não se esgota. Ele pode ser duplicado de forma barata e consumido muitas e muitas vezes: se alguém usa um pacote de software, não está impedindo que milhões de outras pessoas também o usem. Mas a escassez não acabou de todo. O que é escasso na nova economia é a habilidade de compreender e usar o conhecimento. Ironicamente, nesta era da informação, a informação sobre a economia baseada no conhecimento é também escassa. O conhecimento é mais difícil de medir do que os insumos tradicionais como aço ou mão-de-obra e a falta de números confiáveis significa que áreas importantes como a conexão entre o conhecimento e o crescimento são mal-compreendidas. As estatísticas oficiais não conseguiram acompanhar o ritmo dessas mudanças, não porque os estatísticos não estivessem tentando, mas porque medir a nova economia está realmente ficando mais difícil. Aprender a medir o desempenho da economia baseada no conhecimento será um enorme desafio, de acordo com a OCDE, que agora está fazendo um esforço para coletar melhores dados sobre os insumos do conhecimento (isto é, P&D, números e cientistas), produção e taxas de retomo sobre o investimento no conhecimento. Os departamentos nacionais de estatística também precisam pôr as mãos à obra. À medida que as economias se tornam mais difíceis de ser mensuradas, também fica mais difícil tributá-las ou regulamentá-las. Um amálgama de átomos é mais fácil de classificar do que um conjunto de "bits" ou "bytes". Transações levadas a efeito via Internet podem escapar ao fiscal de impostos. A TI pode também enganar as autoridades regulamentadoras. O governo francês, por exemplo, não mais poderá proteger sua indústria de cinema da concorrência dos Estados Unidos por meio de restrições à importação. Os filmes estrangeiros penetrarão através de janelas eletrônicas que não podem ser fechadas. Limite tênue Um dos problemas que os estatísticos enfrentam é que os produtos intangíveis confundem as antigas fronteiras estatísticas entre indústria e serviços. A distinção sempre foi tênue. Um jornalista de TV e rádio, por exemplo, é contado como parte do setor de serviços, mas o colega que trabalha em um jornal aumenta a estatística do setor manufatureiro. O software para automóveis que é produzido pela própria montadora é considerado parte do setor industrial, mas se for comprado de um fornecedor externo será computado como um serviço. Cerca de três quartos do valor de um típico produto "manufaturado" já tem a contribuição de atividades de serviços, tais como design, vendas e publicidade. Andrew Wyckoff, economista da OCDE, argumenta que a TI está encorajando a convergência da indústria com os serviços. A manufatura, diz ele, está se tornando mais semelhante aos serviços. O serviço ao consumidor está ficando mais importante e os produtos estão cada vez mais sendo feitos especialmente para as necessidades individuais dos consumidores. Um exemplo é o serviço da Levi Strauss, que oferece jeans feitos sob medidas para as mulheres. As medidas são transmitidas através da Internet para a fábrica, a que permite que os jeans recebam acabamento e sejam entregues ao cliente em poucos dias. Ao mesmo tempo, argumenta Wyckoff, os serviços estão se tomando mais parecidos com a fabricação. No passado, a produção e o consumo dos serviços tinham de coincidir no tempo e no espaço. A maioria dos serviços era como um "check up" médico: um paciente tem de ir ao departamento médico e esperar a vez. Mas agora a codificação do conhecimento em alguns serviços toma desnecessário o contato direto entre produtor e consumidor. Tais serviços podem, portanto, ser mantidos como estoques e comercializados internacionalmente. Os exemplos incluem sistemas especializados de computação que possam desempenhar tarefas legais de rotina, tais como fazer um rascunho de testamento e pacotes de contabilidade que planejam as finanças dos clientes e arquivam suas restituições de impostos. Wyckoff também espera que a TI tome os serviços mais capital-intensivos e mais produtivos, ou seja, semelhantes ao setor industrial. A má notícia é que eles também ficarão mais suscetíveis aos ciclos econômicos. Tradicionalmente, os serviços tiveram uma trajetória mais suave no ciclo econômico do que o setor de transformação, em parte porque eles tinham uma tendência a serem protegidos da concorrência, e em parte porque os serviços não podiam ser armazenados. Por isso, os gastos sobre serviços eram menores do que, por exemplo, bens de consumo duráveis. Mas graças tanto à TI quando à maior concorrência, os serviços já estão começando a exercer um papel mais importante nos altos e baixos da economia. Por exemplo, o PIB total da Grã-Bretanha na recessão do início dos ano 90 caiu na mesma proporção da recessão de dez anos antes, mas, enquanto no início dos anos 80, os serviços eram responsáveis por menos de um décimo do volume, no início dos anos 90 eles constituíam até dois quintos da queda total da produção. A fusão de fabricação e serviços não apenas confunde as divisões estatísticas, mas também acaba com o desacreditado velho argumento de que as políticas do governo deveriam favorecer a indústria, porque apenas o setor de transformação cria riqueza "real" e empregos "adequados". No futuro, as empresas de melhor desempenho não serão aquelas cujos governos ajudam determinados setores, mas aquelas que desenvolvem e administram seus ativos de conhecimento com maior eficiência. Saber é poder Portanto, o que poderão fazer os governos para estimular a criação e a difusão do conhecimento? À primeira vista, os benefícios ampliados para outras empresas, a partir do aumento do conhecimento, seriam um bom exemplo para subsídios do governo ou para gastos em P&D. Há estudos sugerindo que a taxa anual de retomo em P&D à sociedade, de uma forma global, pode estar próxima dos 50%, o dobro do retorno privado a uma empresa individual. Incapazes de capturar todos os benefícios de seus investimentos em P&D, as empresas, portanto, podem investir muito pouco. Mas existem dúvidas quanto ao valor do envolvimento direto dos governos no incentivo à inovação. No passado, eles se provaram ruins na seleção dos vencedores e, talvez mais importante, ao descartar os perdedores. Se esse envolvimento tiver um papel no apoio à P&D, este será na pesquisa científica básica, em vez dos projetos de tecnologia de grande porte. A melhor coisa que os governos podem fazer, porém, é fornecer um ambiente econômico que seja um condutor da inovação. A forma de se fazer isso é desregulamentar os mercados para incentivar a concorrência e remover barreiras ao desenvolvimento de novos produtos e, depois, deixar que os empresários explorem as oportunidades. Em muitos países, por exemplo, o desenvolvimento dos setores de multimídia está sendo restringido por monopólios ou restrições sobre o acesso em telecomunicações e transmissões de TV. Os governos também precisam elevar os padrões da instrução e capacitação, para deixar que suas economias tirem total proveito da TI e da expansão dos setores que dependem do conhecimento. A educação é um dos poucos setores que até agora ficou de fora da revolução tecnológica. E, no entanto, existe um enorme potencial para o uso de TI para aperfeiçoar a educação. A tecnologia jamais substituirá os professores, mas poderá dar aos estudantes das escolas mais pobres o acesso eletrônico aos melhores professores e tomar os livros mais acessíveis, por intermédio das bibliotecas eletrônicas. Liga de nações Qual das grandes economias industrializadas está em melhor posição para colher os benefícios do crescimento com base no conhecimento? Os Estados Unidos estão quilômetros adiante no uso da TI (ver tabela). O país tem quase o dobro de computadores per capita de sua população, em Comparação com os grandes países europeus ou o Japão, e não só em escritórios. Quase 40% dos lares norte-americanos estão equipados com um computador três vezes mais do que o Japão e mais do que o dobro da França. O Japão está sendo contido por seu idioma, que possui milhares de caracteres, nada fáceis de se adaptar num teclado. As barreiras de mercado também mantiveram os computadores pessoais mais caros do que deveriam ser. Os EUA também lideram a olimpíada de surfistas: no início de 1996, tinham 24 conexões com a Internet para cada mil pessoas em comparação com uma média de cerca de cinco nos grandes países europeus e apenas duas no Japão. Os EUA também têm a imensa vantagem de um mercado de telecomunicações altamente competitivo, enquanto a Europa continental e o Japão estão sendo vagarosos na desregulamentação. A falta de competição refreou o surgimento de novos serviços de empresas de telecomunicações. As empresas americanas também são líderes na maior parte das principais tecnologias e software. O Japão tradicionalmente tem sido fraco em inovação, dependendo, em vez disso, do aperfeiçoamento das idéias, de outros povos. Mas o governo japonês está agora planejando aumentar o financiamento da pesquisa básica em ciência e tecnologia nos próximos cinco anos, de 0,6% para 1% do PIB, aproximando-se dos níveis americanos e europeus. Os gastos com P&D-por parte das empresas japonesas, porém, são consideravelmente mais elevados do que nos EUA ou na Europa, o que aparece no seu sucesso em setores de high-tech. O verdadeiro retardatário em tecnologia é a Europa continental. As indústrias de alta tecnologia, que representam quase 40% das exportações de manufaturas dos EUA e do Japão e 33% da Grã-Bretanha, representam apenas 20% da parte da Alemanha e da França. Por este motivo, a Europa continental não apresenta um bom resultado no índice da OCDE de "vantagens comparativas demonstradas", que mede a relativa especialização das exportações de um país. (Um número acima de 100 indica uma vantagem comparativa naquele determinado setor e um número abaixo de 100 uma desvantagem comparativa). O gráfico mostra que, enquanto Estados Unidos, Grã Bretanha e Japão possuem uma vantagem comparativa em produtos de alta tecnologia, a vantagem comparativa da Alemanha está nos produtos de médio uso de tecnologia e os da França nos de baixo uso de tecnologia. O trabalho da OCDE mostra que os países que mudam para a nova tecnologia tendem a desfrutar rapidamente de maiores ganhos em empregos do que os retardatários. Se isso se confirmar, as conseqüências futuras para empregos e renda dos europeus podem ser assustadoras. A prosperidade futura das economias dos países mais ricos vai depender tanto de sua possibilidade de inovar quanto de sua capacidade para se ajustarem à mudança. A adaptação à mudança é algo no qual os EUA tendem a ser muito bons, enquanto a Europa continental é mais inclinada a resistir a ela. A Europa tem, no momento, uma escolha evidente: pode se encolher dentro de seus mercados mais protegidos e mais rígidos, à medida que a avassaladora onda tecnológica toma impulso, ou pode saltar para bordo e embarcar numa expedição de descobertas.