Notícia

Inovação Unicamp

Conheça três empresas em que o mercado de capitais investiu: a gaúcha Lupatech, a Nanocore, de Campinas, e o Grupo Genoa

Publicado em 27 setembro 2007

A Lupatech, empresa gaúcha do setor metal-mecânico, o Grupo Genoa e a Nanocore, ambos da área de biotecnologia, de São Paulo, receberam apoio do venture capital e estão em estágios diferentes do processo de investimento. A Lupatech recebeu vários aportes de fundos diversos entre 1987 e 2005, e apenas um deles, o BNDESPar, empresa de participações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ainda tem capital investido na empresa. Os demais já fizeram sua saída, ou desinvestimento. O Grupo Genoa recebeu em abril deste ano um aporte do BNDESPar e experimenta os primeiros passos de sua nova fase. A Nanocore também obteve apoio do BNDESPar, mas aguarda a chegada dos recursos.


Lupatech atrai vários fundos de venture capital

"A Lupatech é um exemplo de empresa que passou por todas as etapas do financiamento do mercado, recebendo recursos de venture capital e private equity, e cresceu pela competência e pela contribuição do venture capital", afirma Clóvis Benoni Meurer, diretor-superintendente da CRP Companhia de Participações, um dos investidores na empresa. A Lupatech produz e comercializa válvulas industriais, principalmente para as indústrias de petróleo e gás, química, farmacêutica, de papel e celulose e de construção civil. Também fabrica cabos de fibra sintética, usados na ancoragem de plataformas de produção de petróleo e gás em águas profundas. É especializada ainda em processos de alta precisão em fundição e injeção de aço para produção de peças para a indústria automotiva.

A Lupatech nasceu em 1980, em Caxias do Sul. O primeiro produto da empresa foi o Microinox, no qual ela utilizou um processo para produção de componentes fundidos para válvulas. Em 1984, com a marca Valmicro, a firma passou a produzir válvulas industriais; em 1996, tornou-se a marca líder no Brasil, posição que mantém até hoje, segundo a empresa. Em 1993, com a junção dessas duas marcas, criou-se a Lupatech como sociedade anônima.

No início, eram dois sócios fundadores. Em 1987, apenas um deles, Nestor Perini, hoje presidente do Conselho Administrativo e diretor-presidente da empresa, continuou na firma. Ele precisou de recursos para ampliar a empresa. Na prospecção por novos investimentos, a CRP — uma pioneira do mercado e também gaúcha — havia mantido conversas com a Lupatech. Desse contato veio o primeiro investimento, ainda em 1987. Mas a firma já havia tido uma experiência com venture capital anterior à da CRP, com o recebimento de recursos do fundo Bozano Simmonsen.

Depois dos investimentos de 1985 e 1987, novos fundos associaram-se a empresa. Em 2003 chegaram o BNDESPar e a gestora de fundos de venture capital GP Investimentos. Em 2005 foi a vez da Axxon Group, outra firma de venture capital, entrar no negócio. "O Centro Lupatech de Pesquisa e Desenvolvimento em Caxias do Sul atua, principalmente, no setor de válvulas industriais. Temos 12 engenheiros dedicados apenas às atividades do centro, e a inovação produzida ali é possível por conta do apoio de entidades como a Finep [Financiadora de Estudos e Projetos] e do aporte dos investidores de venture capital", afirma Thiago Alonso de Oliveira, diretor de relação com investidores da Lupatech.

Atualmente, apenas o BNDESPar ainda participa da Lupatech. Os demais investidores já fizeram a saída — ou desinvestimento. A Lupatech lançou ações na bolsa de valores em 2006. Oliveira não conta quanto os fundos lucraram com o investimento feito na empresa. "Essa informação é guardada a sete chaves pelos gestores, e nós, das empresas, não podemos revelar", explica. "Não há fórmula para atravessar essa fase do desinvestimento e o momento da saída depende do estágio de desenvolvimento da empresa. De qualquer forma, a adoção da governança corporativa é fundamental, dá conforto ao empreendedor", completa.

Com três projetos, Genoa Biotecnologia atrai o fundo BNDESPar

O Grupo Genoa, empresa de biotecnologia de São Paulo, foi formado em 2000 e reúne a Genoa Diagnósticos e a Oncocell Biotecnologia. Ambas resultam da expansão do Laboratório de Patologia Molecular e Celular (LPMC), criado em 1970 para atender o Hospital Sírio Libanês. O grupo atua nas áreas de saúde humana e animal e ganhou projeção em 2005 por ter lançado a HybriCell, a primeira vacina terapêutica contra o melanoma e o câncer de rim desenvolvida no Brasil. A vacina foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão que autoriza a comercialização de medicamentos no Brasil. Nos testes, sua aplicação deteve a expansão dos tumores em 80%. O produto rendeu ainda publicação de um artigo na revista científica norte-americana Cancer Immunology and Immunotherapy.

A companhia procurou o BNDES em busca de financiamento para três projetos de P&D. Em princípio, explica Ana Paula Wirthmann, diretora administrativo-financeira da empresa, eles queriam recursos da linha Inovação PDI, mas o próprio banco recomendou a linha Profarma e o BNDESPar. A empresa obteve R$ 6 milhões — metade do Profarma, metade do BNDESPar, que é um investidor essencialmente de private equity, ou seja, voltado para empresas inovadoras de maior porte e em estágio de consolidação. O BNDESPar tornou-se acionista do Genoa, com 20% de participação e voz ativa no conselho que administra o grupo. Ter recursos de private equity, diz Ana Paula, é positivo não só pelo dinheiro. "O BNDESPar participa como conselheiro da empresa, traz as melhores práticas, traz a visão de negócio, uma orientação bem profissional", aponta.

Os recursos do BNDES e do BNDESPar estão sendo empregados em P&D de três produtos: farmacogenética, vacina contra câncer e contra o vírus HIV, causador da aids, e marcadores genéticos para rebanho bovino. Em farmacogenética, o objetivo é criar um teste laboratorial que avalie a eficácia e toxicidade de diferentes drogas, como quimioterápicos e antidepressivos, de forma individual. Ou seja, querem estabelecer um método que permita a administração desses tipos de medicamentos nas dosagens e períodos mais apropriados para cada paciente, e não da forma como é feita hoje, com um padrão geral para todos os doentes. "A idéia é recebermos a amostra [do sangue do paciente], fazer o teste e emitir o laudo", conta Ana Paula. Com o dinheiro, a empresa vai comprar máquinas e equipamentos para seqüenciamento de DNA, adquirir insumos e cobrir outros custos da pesquisa.

No caso da vacina terapêutica contra câncer, os recursos serão utilizados para desenvolver outras vacinas além da que já existe contra câncer de rim e pele. A empresa não revela quais são os tumores alvos. Essa vacina serve como tratamento para auxiliar os pacientes que fazem radio e quimioterapia. Para a vacina terapêutica contra a aids, a empresa busca um tratamento que retarde a necessidade do uso do coquetel por parte dos portadores do vírus HIV.

Por último, a empresa trabalhará na seleção de marcadores genéticos que sinalizem aos produtores de pecuária bovina quais são os animais que apresentam as melhores características. Com esses marcadores selecionados, o Grupo Genoa poderá oferecer ao mercado um teste para saber se o animal tem as características de interesse. Isso será importante nos programas de melhoramento genético do gado. Hoje, os cruzamentos bovinos são feitos com base em características fenotípicas, ou seja, nas chamadas características expressas observadas a olho nu pelos melhoristas. Com os marcadores moleculares, o produtor saberá que animais deverá cruzar para obter um rebanho com as características que deseja.


Nanocore alavanca pesquisa com private equity

A Nanocore instalada em Campinas (SP), terá R$ 3 milhões do BNDESPar, em outra operação de private equity da empresa de participações do banco aprovada este ano, para financiar o desenvolvimento de um imunoterápico de DNA recombinante, chamado também de vacina gênica, para o tratamento de câncer. Os imunoterápicos são desenvolvidos a partir de um fragmento do microorganismo que vai desencadear no corpo a resposta protetora do sistema imunológico contra a doença. A produção do imunoterápico começa com a identificação de uma proteína do microorganismo causador da doença ou tumor. Essa proteína, chamada de antígeno, induzirá o sistema imunológico humano a gerar a resposta de proteção. Usando técnica de seqüenciamento genético, os pesquisadores procuram um gene que codifique essa proteína. Esse gene então é clonado, para multiplicar o número de cópias que serão usadas na vacina, e purificado. Depois disso, coloca-se o gene em microesferas, feitas pela Nanocore com o uso de nano e microtecnologia.

"O investimento que buscamos no BNDESPar será direcionado exatamente para produzir essas moléculas em condições de boas práticas, porque hoje não temos um laboratório para isso", explica José Maciel Rodrigues Júnior, diretor-executivo da Nanocore. Esse laboratório ficará na nova sede, que está em fase final de construção dentro do Techno Park, condomínio de empresas de transporte, logística e tecnologia onde a Nanocore já está hoje.

"Investimentos de private equity como o do BNDESPar não são positivos apenas pelo dinheiro que aportam. Microempresas como as nossas são formadas, muitas vezes, por pesquisadores sem experiência em gestão, o que muitas vezes até compromete a companhia. Além dos recursos, buscamos a profissionalização da gestão, uma premissa para que essa negociação [com o BNDESPar] seja feita", destaca Maciel. Ele diz que fundos como o BNDESPar fazem exigências, que não são ingerência na empresa, mas auxiliam na profissionalização da gestão. Essas exigências englobam itens como a implantação de sistemas de gerenciamento contábil e a contratação de pessoal especializado, tudo feito em constante troca de informações com o investidor, o que requer uma equipe qualificada. "Eles farão parte do conselho como participantes efetivos", comenta.

Ainda em 2003, no início da criação da Nanocore, o então presidente do BNDES, Carlos Lessa, interessou-se pelo projeto. "Ele ouviu falar de nosso trabalho e nos colocou em contato com alguns gerentes para avaliar a proposta", lembra Maciel. Em um primeiro momento, o apoio esbarrava nas garantias exigidas pelo BNDES como contrapartida para apoiar a empresa. "O banco vem passando por um processo de mudança, no sentido de atender essas pequenas empresas inovadoras. Desse processo resultou a negociação da participação do BNDESPar no capital da empresa", afirma.

O longo tempo entre os primeiros contatos com o BNDES e a aprovação do aporte do BNDESPar foi positivo porque permitiu que a Nanocore se estruturasse melhor, aumentasse seu patrimônio em termos de equipamento e portfolio tecnológico, e gerasse fluxo de caixa com o fornecimento de serviços. A empresa ainda contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) por meio do programa de inovação para pequenas empresas, o PIPE. "O BNDESPar aceitou que os projetos da Fapesp entrassem como contrapartida da empresa. Como a Fapesp assegurou um valor para nós, e isso foi documentado, foi considerado pelo banco", conta Maciel. O projeto para desenvolver a vacina gênica para tratamento de câncer está orçado em R$ 6 milhões. Como R$ 3 milhões vieram do BNDESPar, a empresa precisaria arrumar os R$ 3 milhões restantes. Os valores obtidos junto ao PIPE entraram na soma, ou seja, não apenas o capital da empresa foi contabilizado, mas também o recurso da fundação. (J.S.)