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Conheça a nanoarte, um encontro entre arte, ciência e tecnologia

Publicado em 11 maio 2021

Por ueslei

Artes plásticas e as descobertas feitas por microscópios podem ser, em um primeiro momento, duas áreas sem nenhuma ligação aparente. Contudo, nos últimos anos surgiu a chamada nanoarte, como um tipo de produção artística feita sobre imagens coletadas por instrumentos científicos.

A nanoarte pode ser entendida como uma maneira de se relacionar arte, ciência e tecnologia para a produção de obras que são, na maioria das vezes, digitais. A criação delas ocorre por meio de fotografias em preto e branco feitas por microscópios eletrônicos de varredura, que quando chegam até os artistas ganham vida e cores com a ajuda de programas de computador.

“No meu caso, depois de pintar no computador, eu faço a impressão e após isso realizo mais um trabalho de colorização com tinta acrílica para que a obra ganhe mais volume, mais alma”, destaca Enio Longo, artista plástico brasileiro que produz nanoarte desde 2012.

Enio destaca que é um dos únicos artistas que trabalham com nanoarte no Brasil atualmente, e isso se deve muito ao fato de, aqui no país, a arte digital ainda não é bem compreendida como algo valioso no cenário artístico.

“A nanoarte no brasil ainda está muito voltada às universidades, ao mundo científico. O mundo artístico ainda não absorve este tipo de trabalho. Acredito que os artistas em geral ainda não a aceitam muito porque acham que a arte plástica deve estar sempre na tela”, afirma o artista.

Primeiro contato

O produtor de artes digitais teve o primeiro contato com esta nova disciplina artística quando seu irmão, Elson Longo, diretor do Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais (CDMF) da Universidade de São Carlos (UFSCAR), lhe enviou algumas obras feitas por artistas estrangeiros.

Naquele momento, Enio, que já produzia obras no âmbito considerado mais tradicional das artes plásticas, passou a pesquisar e realizar alguns trabalhos em cima de imagens microscópicas que seu irmão enviava.

“Meu irmão me manda um material bruto, eu levo as fotografias para o computador, aumento os pixels porque elas chegam em uma escala muito reduzida e então começo a pintar no programa através de camadas”, ressalta.

Em 2015 ele expôs na Pinacoteca de São Paulo obras feitas a partir de ingredientes utilizados para a produção de cervejas.

Em 2017, o artista teve a oportunidade de apresentar algumas de suas produções na mostra coletiva Exposição Inovanças: criações à brasileira, realizada no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Além disso, ao longo dos anos ele também participou em exposições de nanoarte em países como Grécia, Israel e Romênia, todas curadas pelo também nanoartista Cris Orfescu.

Devido ao sucesso que vinha fazendo neste campo das artes plásticas, Enio foi convidado no ano passado a participar da exposição digital França-China Arte Expo. “O artista francês Jean Jacques Humbert viu um trabalho recente meu e me convidou para participar da exposição em 2020. Na edição deste ano rolou novamente o convite e decidi inserir uma nanoarte”, destacou.

“A nanoarte que levei para este evento é voltada à preocupação com a floresta amazônica. Eu não faço arte para que ela seja apenas uma pintura, eu sempre quero que ela tenha algum envolvimento com o contexto atual, ela não é simplesmente com uma decoração”, acrescenta.

Temas atuais e a nanoarte no Brasil

Como sempre busca produzir estas artes com base em temas atuais, Enio e outros colegas do CMDF começaram recentemente a produzir alguns vídeos em que são inseridas obras de nanoarte junto a figuras científicas. O intuito, segundo ele, é voltar a dar credibilidade à ciência no momento em que ela passou a ser muito questionada no período da pandemia.

Nestas produções o artista insere também informações sobre cuidados que as pessoas devem tomar para não serem infectadas pelo coronavírus, como ficar em casa, não se aglomerar e lavar sempre as mãos.

Enio acredita que a nanoarte no Brasil ainda está engatinhando rumo a um reconhecimento maior principalmente entre os artistas plásticos. Entretanto, ele acredita que este será um trabalho de formiga a ser realizado por quem produz algum tipo de arte digital aqui no país.

“Na exposição França-China, por exemplo, eu poderia muito bem não colocar uma nanoarte, mas eu acho que colocando uma semente aqui, uma lá, este movimento pode ir crescendo aos poucos”, afirmou.

O artista também entende que é normal novos trabalhos terem uma rejeição no início por conta da nossa dificuldade em receber coisas novas. Mesmo assim, ele acredita no poder que a arte tem de mudar o mundo de alguma forma.

“A gente precisa sempre lutar por um mundo melhor, colocar um pouco de cor, deixar ele menos cinza. E a arte de maneira geral tem esse papel”, destacou Enio Longo.

*Estagiário do R7 sob supervisão de Fábio Fleury

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