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Congresso debate avanços no tratamento do câncer

Publicado em 25 setembro 2006

O avanço da medicina no tratamento de diversos tipos de câncer tem surpreendido até os médicos. As drogas estão cada vez menos onerosas e mais inteligentes. Integrantes de uma classe popularizada como terapias alvo, esses medicamentos agem diretamente no tumor, poupando as células saudáveis. Todas elas já receberam aprovação dos Estados Unidos e Europa e os especialistas aguardam pela chegada no Brasil.

Essa guinada no tratamento do câncer ganhou destaque no "Congresso Internacional de Oncologia Clínica e Imunobiomodulação", que ocorreu há duas semanas, em São Paulo. A presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica - Regional São Paulo, Nise Yamaguchi, uma entusiasta das novas terapias, cita os cânceres que terão ganho na abordagem terapêutica com os novos medicamentos. "Essas drogas estão chegando ao Brasil e, apesar do preço elevado, serão muito benéficas no tratamento do câncer de mama, rim, pulmão, intestino e leucemias."

Essas terapias garantem mais qualidade de vida aos pacientes e devem ditar os tratamentos no futuro. Em todo o mundo, mais de 300 drogas com essas características estão em desenvolvimento. Como lembra o imunologista, José Alexandre Barbuto, professor do Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), os anticorpos monoclonais - utilizados em grande escala nessa nova geração de drogas - foram testados há muito tempo e, no início, os resultados não foram tão favoráveis. "Trinta anos depois, chega ao mercado algo que possibilita o tratamento. Em pesquisa, é assim, tem que ter paciência."

Em meio a tantas pesquisas em andamento, o presidente do congresso, o oncologista José Luiz Miranda Guimarães, afirma que os destaques ficam por conta das drogas para tratar câncer de rim, a sunitinib e sorafenib. "É uma doença incurável quando metastática e bastante resistente às terapias existentes. Esses novos medicamentos vêm ocupar um espaço interessante, pois eles garantem um aumento na sobrevida desses pacientes, ainda que pequeno", argumenta.

Além de drogas, que devem facilitar o tratamento oncológico, o congresso destacou um novo tipo de quimioterapia. Ela é menos tóxica o que, conseqüentemente, gerará menos efeitos colaterais. "Cada partícula dessa quimioterapia é envelopada, o que reduz a toxidade. Ela deverá ser utilizada para câncer de mama e ovário", explica Nise. Essa nova abordagem ainda não está liberada, mas os estudos estão em fase avançada.

Trata-se de um passo bastante importante, isso porque, a quimioterapia, ao ser administrada no paciente, percorre todo o corpo e ataca todas as células que estão em proliferação. Esse movimento faz com que a droga atinja e mate células saudáveis, o que causa, entre outros efeitos colaterais, a queda do cabelo. Essa nova classe de quimioterápicos também deve combater as náuseas, motivo de muita reclamação dos pacientes.

TRATAMENTO INDIVIDUALIZADO

Deixar o tratamento exclusivo. Isso ainda não é possível no Brasil, mas no exterior, com base na genética tumoral, os especialistas conseguem individualizar as terapias. Essa foi mais uma das novidades discutidas no congresso. "Avaliamos o conteúdo da célula e isso possibilita prescrever tratamentos específicos para cada tipo de tumor", afirma Nise, que também atua como médica pesquisadora do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Essa análise é feita a partir de uma biópsia. O método é capaz de identificar alterações nas moléculas do tumor. A especialista garante que, com a disseminação da tecnologia, esse tipo de teste não terá custo elevado. Guimarães lembra que, no Brasil, a técnica está sendo utilizada em fase de pesquisa. "Em termos de câncer de mama e cólon, esse exame deixa o tratamento personalizado e específico. Não se faz em todos os pacientes pelo custo e pela falta de estrutura na rede pública de saúde", informa.

MEDICAMENTOS QUE DEVEM CHEGAR EM BREVE

Sunitinib (nome comercial: Sutent. Laboratório: Pfizer) - Já aprovado pelo Food and Drug Administration (FDA) - órgão regulador norte-americano - o medicamento é utilizado para tratar câncer no rim e gastrointestinal estromal. Ele atua inibindo a metástase, ao atacar de forma direta o mecanismo que estimula o crescimento das células tumorais. Sua ação é bastante rápida e acontece antes mesmo da formação de vasos.

Sorafenib (nome comercial: Nexavar. Laboratório: Bayer) - Primeiro medicamento a receber aprovação para tratamento de câncer no rim. A droga bloqueia o mecanismo de crescimento do tumor. A droga foi liberada para comércio no Brasil no início desta semana.

Bevacizumab (nome comercial: Avastin. Laboratório: Roche) - A droga, um anticorpo que atua contra a formação de novos vasos (antiangiogênico), é utilizado para tratar câncer de intestino, pulmão e rim. O medicamento também tem boa performance quando administrado em mulheres com câncer de mama metastático.

Cetuximab (nome comercial: Erbitux. Laboratório: Merck) - Aprovado pelo FDA, o medicamento tem sido usado com êxito para tratar câncer de pesquisa e cabeça recidivado, aliado à administração de quimioterapia. Testes estão sendo feitos para aplicá-lo no tratamento de câncer intestinal. Assim como o bevacizumab, age contra a formação de novos vasos.

Bortezomib (nome comercial: Velcade. Laboratório: Jassen-Cilag) - Droga utilizada para tratar mieloma múltiplo, o único, entre as novidades, já disponível no Brasil. Estudos estão sendo conduzidos para verificar a eficácia do medicamento no câncer de pulmão.

VACINAS

Nem toda a inovação vem do exterior. Pesquisas brasileiras, para o tratamento desse mal, foram temas de discussão no congresso. Uma delas é em torno de uma vacina que ainda não tem nome comercial. Chamada de DNA HSP65, a alternativa teve testes realizados para tratar câncer de cabeça e pescoço. Segundo o médico infectologista professor da Universidade de São Paulo (USP) e gerente médico do laboratório Bristol, Kald Abdallah, os estudos ainda estão em fase I.

O medicamento é produzido através de uma proteína de choque térmico de bacilos da tuberculose, sem capacidade de infecção. O produto final é injetado diretamente no tumor e sua ação aumenta a exposição dessa massa cancerosa ao sistema imunológico.

"Dos 21 pacientes que participaram do primeiro ensaio, cinco tiveram resposta, ou seja, o tumor parou de crescer ou encolheu", explica Abdallah. O especialista, que atuou como colaborador do projeto, lembra que todos os pacientes testados estavam com a doença em estágio bastante avançado. A pesquisa com a vacina está em curso há dois anos e tem apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Sua aprovação para uso no mercado, no entanto, deve levar pelo menos mais cinco anos. Os médicos ressaltam ainda que a terapia não promoverá a cura da doença.

Já disponível no mercado, a vacina a partir de células do próprio paciente, comercialmente conhecida como Hybricell, foi tema de um painel no evento. Mas, segundo Barbuto, a novidade em torno da técnica está na aplicação em crianças com neuroblastoma - tumor que se origina a partir das células do sistema nervoso, bastante comum em crianças - em estágio não tão avançado.

A vacina é formada a partir da fusão de células tumorais do paciente com células dendríticas de uma pessoa sadia. Essas últimas incorporam partes do tumor de forma a atrair o sistema imune contra eles. Os tumores escapam da defesa do organismo e, através dessa mistura celular, a capacidade de ativação imune das células dendríticas é utilizada. Isso faz com que o corpo reconheça o tumor.

Os resultados do uso em crianças devem sair dentro de um ano. "Antes de aplicarmos a vacina, é preciso que a criança já tenha passado por um tratamento. Algumas crianças já estão entrando no protocolo que estamos fazendo no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo", lembra Barbuto