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Agência Gestão CT&I

Confirmado caso de bebê sem microcefalia com lesão cerebral e ocular causada por Zika

Publicado em 13 junho 2016

Em texto divulgado na revista The Lancet, pesquisadores brasileiros descreveram o caso de um bebê nascido sem microcefalia, mas com lesões severas no cérebro e na retina causadas pelo vírus Zika. A pesquisa foi realizada por cientistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Fundação Altino Ventura, de Pernambuco – entidade filantrópica que presta assistência oftalmológica à população carente do Estado considerado como o epicentro da epidemia de Zika.

O grupo avaliou o caso de uma criança que nasceu com 38 semanas de gestação, 3,5 quilos e perímetro cefálico medindo 33 centímetros – valor considerado normal para a idade. No momento do exame, o bebê tinha 57 dias. “O menino nasceu aparentemente normal e, como não tinha microcefalia, os pais o levaram para casa. Após alguns dias, começou a ter convulsão. Voltou para o hospital e foi detectada calcificação cerebral, além de aumento dos ventrículos e lesão grave na retina, semelhante aquelas encontradas em bebês com microcefalia”, contou Rubens Belfort, professor da Escola Paulista de Medicina, da Unifesp, e coautor do estudo.

A mãe não apresentou sintomas da doença durante a gravidez, mas, após serem descartadas outras infecções associadas a malformações congênitas, um exame do líquor da criança mostrou a existência de anticorpos contra o Zika. Segundo Belfort, as manifestações observadas nesse caso se enquadram no que vem sendo chamado de Síndrome Congênita do Zika, que tem um amplo espectro e diferentes manifestações. Pode ou não incluir microcefalia, bem como lesões cerebrais, oculares, auditivas, espasmos e convulsões.

“Não dá para excluir a infecção pelo Zika só porque a microcefalia não está presente. A microcefalia é um fator de risco para a presença de lesões cerebrais e oculares, mas não é uma pré-condição absoluta. Por isso é necessário testar as mães para o Zika durante o pré-natal e, quando der positivo, acompanhar as crianças após o nascimento e fazer a oftalmoscopia”, disse Belfort.

Considerada um exame simples de ser feito, a oftalmoscopia permite visualizar as estruturas do fundo de olho, como o nervo óptico, os vasos retinianos, e a região central da retina denominada mácula. Segundo o pesquisador, há outros casos semelhantes sendo avaliados e devem ser confirmados em breve.

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O uso dos minicérebros, criados em laboratório, para o estudo do zika é um bom modelo para buscar medicamentos para o tratamento de mulheres grávidas, mas precisa avançar. A avaliação é de Steves Rehen professor titular do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ICB-UFRJ), pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino e coordenador do Projeto de Criação do Biobanco de Células-Tronco de Pluripotência Induzida (iPS) do Ministério da Saúde.

Rehen informou que os minicérebros, que serviu para a comprovação de que havia uma relação entre a infecção pela doença e a microcefalia, funcionam como avatares. Eles são resultado da transformação de uma célula da pele em uma outra que pode virar qualquer tecido do corpo.

“A partir desta reprogramação, a gente cria uma célula que pode virar qualquer tecido e aí a gente instrui esta célula para se transformar nessas estruturas tridimensionais, que têm em torno de dois milímetros, mas que se desenvolvem como se fossem um cérebro fetal de dois meses de idade. Com isso, abre uma série de possibilidades para entender como se forma o cérebro humano para estudar doenças”, disse.

O cientista afirmou que a pesquisa é consequência de uma capacidade instalada no Rio de Janeiro, alcançada após investimentos do governo nos últimos dez anos, mas se mostrou preocupado com a continuidade dos trabalhos.

(Agência Gestão CT&I, com informações da Fapesp e da Agência Brasil)