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Conferência Paulista de Ciência, Tecnologia e Inovação discute propostas ousadas para estimular a formação de recursos humanos e promover a inovação

Publicado em 17 abril 2010

Uma forte preocupação com a formação de recursos humanos qualificados (especialmente doutores) e com a atração de pós-doutores, a melhoria da qualidade e da visibilidade da produção científica e tecnológica, a definição de regras com benefícios mútuos nas parcerias entre as universidades e as empresas, e a identificação de áreas focais para a pesquisa e o desenvolvimento nas próximas décadas: estes foram os principais temas tratados na Conferência Paulista de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizada na sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), nos dias 12 e 13 de abril.

O encontro discutiu o relatório do comitê executivo encarregado da elaboração do Plano de Ciência, Tecnologia e Inovação para São Paulo e preparou a participação paulista na 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, que se reunirá em Brasília, de 26 a 28 de maio.

Pró-reitores de pesquisa e pós-graduação das várias universidades públicas sediadas no Estado (USP, Unicamp, Unesp, UFSCar, UFABC), empresários e gestores do setor privado, pesquisadores ligados a universidades e institutos de pesquisa e uma plateia com mais de 400 pessoas discutiram as oportunidades e os entraves para a ciência, a tecnologia e a inovação em São Paulo e no Brasil. Comparaceu para uma saudação aos participantes o ministro de ciência e tecnologia, Sérgio Rezende.

Dados e recomendações do relatório prévio ao Plano de Ciência, Tecnologia e Inovação para São Paulo foram apresentados pelo diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, e podem ser consultados em www.fapesp.br/eventos/2010/04/CTI/Carlos_Brito.pdf. Em sua apresentação, Brito Cruz destacou alvos a serem alcançados até 2020 e fez recomendações para que possam ser atingidos. Em São Paulo, o dispêndio total em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) em 2008 foi de 1,52% do PIB estadual, valor superior à meta do Brasil para 2010 e superior ao de alguns países europeus. Entre as recomendações destacou-se a necessidade do aumento do apoio federal à pesquisa em São Paulo, pois, em 2008, apenas 13% do dispêndio em P& D no estado foi feito com recursos federais.

A ideia mais enfatizada na reunião foi que ciência, tecnologia e inovação devem ser objetos de políticas de Estado, com metas de longo, médio e curto prazos, e não da ação efêmera de governos. A constituição de redes multidisciplinares de pesquisa, mobilizando pesquisadores de diversas áreas; a racionalização da infraestrutura, com a otimização do uso de equipamentos de alto custo e com maior apoio institucional à gestão de projetos de pesquisa apoiados por agências; a elaboração de novas métricas para avaliar a produtividade do ensino, da pesquisa e da inovação; e uma maior inserção internacional, com a realização de pesquisas colaborativas e a atração de talentos de outros países, foram algumas das propostas apresentadas nesse sentido.

Os participantes destacaram também a importância dos institutos de pesquisa estaduais e federais existentes em São Paulo. A pesquisa agrícola foi mencionada como exemplo de sucesso na criação de riqueza e desenvolvimento, e a conferência recomenda que os institutos estaduais sejam dotados de maior agilidade operacional, inclusive por meio da delegação governamental quando for o caso. Entre as áreas focais destacou-se a aeroespacial - com presença em São Paulo da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer), Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), ligado ao Ministério da Defesa, e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE); e a energia nuclear, com pesquisas desenvolvidas pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) e Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP).

No rol dos problemas, o baixo nível dos ensinos fundamental e médio foi identificado como o principal obstáculo a um avanço mais robusto da ciência, da tecnologia e da inovação no país. As lacunas das etapas iniciais do processo educacional fazem com que os estudantes cheguem despreparados aos cursos superiores, deprimem a demanda por carreiras que exigem uma formação mais sólida (como ciências físicas e engenharia), ocasionam altos percentuais de evasão e explicam o paradoxo de haver profissionais com curso superior desempregados enquanto as empresas se ressentem da falta de mão de obra qualificada.

A formação insuficiente de doutores é a consequência de uma fragilidade que remonta aos primeiros anos da vida escolar. E, embora o número de doutores formados anualmente no Brasil continue aumentando, seu crescimento tornou-se mais lento nos últimos anos. Alguns expositores chegaram a falar no risco de um blackout de recursos humanos qualificados, caso ocorra um previsível e desejável novo ciclo de expansão da economia brasileira.

A Conferência focalizou também a pós-graduação, levantando e debatendo propostas bastante ousadas para contornar o déficit de recursos humanos qualificados. Uma delas seria aumentar a ênfase no doutorado, instigando os estudantes a realizarem o doutoramento sem passarem pelo mestrado, quando tiverem suficiente preparo para tal. Um destaque foi para a importância da pós-graduação em São Paulo para a formação de pessoal para o Brasil: na Unicamp 40% dos estudantes de pós-graduação origina-se de outros estados e 18% dos bolsistas da FAPESP encontram posições fora do Estado de São Paulo

Na área de pesquisa em empresas os destaques foram a necessidade de capital de risco privado que aceite correr os riscos inerentes a empresas baseadas em pesquisa e a importância de se reduzir os entraves burocráticos a importações para pesquisa e funcionamento de empresas. Foram elogiados os mecanismos de apoio existentes, como o programa de subvenção da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e o Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP.

A importância da pesquisa acadêmica foi destacada, ao mesmo tempo em que se valoriza a pesquisa em empresas. A pesquisa acadêmica contribui para o avanço da fronteira do conhecimento e para a formação de recursos humanos. Para haver maior impacto da pesquisa acadêmica feita em São Paulo recomendou-se esforços de internacionalização, com aumento da intensidade das colaborações internacionais. O papel das ciências humanas foi também destacado, tanto na criação de conhecimento fundamental como em aplicações relacionadas às políticas públicas e ao estudo da ciência da política para a ciência.

Os convênios de cooperação científica entre universidades e empresas (se regidos pela participação nos royalties ou pela remuneração dos serviços por meio de quantias fixas), e a atração pelas universidades de pesquisadores estrangeiros (com a remoção de entraves burocráticos) foram outros assuntos bastante debatidos. Considerou-se também a possibilidade e a necessidade de uma revisão profunda na organização da pesquisa acadêmica, considerando-se a crescente ênfase na transdisciplinaridade como forma de responder aos desafios contemporâneos.