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Conferência Paulista de Ciência, Tecnologia e Inovação debaterá oportunidades de ampliação da pesquisa no ambiente empresarial

Publicado em 10 abril 2010

Pesquisa e Desenvolvimento no setor privado é tema do primeiro de cinco painéis que discutirão o futuro do Sistema Paulista de Ciência, Tecnologia e Inovação nas vertentes acadêmica, empresarial e privada sem fins lucrativos

No Brasil, empresas são responsáveis por metade do total investido pelo país em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Em São Paulo, o setor privado responde pela maior parte (62%) do dispêndio total do Estado em P&D. Esse índice está mais próximo dos indicadores de países desenvolvidos, nos quais os gastos empresariais chegam a 75% do total. O alto percentual de São Paulo acaba por refletir no índice de dispêndio do país. Sem incluir São Paulo, o percentual de participação das empresas no gasto total com P&D no País cai para 38%.

Contribui para esse cenário diferenciado de São Paulo o fato de o Estado oferecer melhor infraestrutura de pesquisa e de serviços tecnológicos de apoio às empresas e mercado de trabalho com profissionais mais qualificados. Além disso, embora tenha havido um desconcentração de plantas industriais para outros estados, decisões empresariais e escritórios centrais das empresas continuam em São Paulo.

Dada essa peculiaridade de São Paulo sobre a relevância do papel do setor privado para a pesquisa e inovação, a Conferência Paulista de Ciência, Tecnologia e Inovação (C&T&I) dedicou o primeiro de cinco painéis para discutir Pesquisa e Desenvolvimento no setor privado. A conferência paulista acontecerá nos próximos dias 12 e 13 de abril na sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Trata-se de reunião estadual preparatória para a 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, que ocorrerá em Brasília de 26 a 28 de maio, no Hotel Brasília Alvorada.

A conferência paulista tem o objetivo de debater o futuro do Sistema Paulista de Ciência, Tecnologia e Inovação nas suas vertentes acadêmica, empresarial e privada sem fins lucrativos. No encontro, o diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, apresentará o "Plano para C&T&I em São Paulo - 15 anos". A programação está no site www.fapesp.br/cpcti.

No painel Pesquisa e Desenvolvimento no setor privado será debatida a formulação de uma política industrial e tecnológica para São Paulo compatível com os desafios de competitividade da indústria já instalada e da almejada para o futuro.

Participarão do debate: Sergio Robles Reis de Queiroz, do Instituto de Geociências da Unicamp, Pedro Wongtschowsky, do Grupo Ultra; Celso Barbosa, da Villares Metals; José Fernando Perez, da startup Recepta Biopharma, e Ricardo Renzo Brentani, do Hospital do Câncer.

Embora o cenário nacional em relação à inovação e à P&D tenha um retrospecto pouco favorável, porque o ambiente era inóspito para essas atividades, esse cenário está mudando rapidamente e as empresas brasileiras vão enfrentar um cenário competitivo cada vez mais acirrado, na avaliação de organizadores do evento. Portanto, é necessário que as empresas que ainda não fazem P&D e não investem em inovação despertem para a importância desses investimentos como diferencial competitivo. Identificar os gargalos das políticas de estímulo à P&D e Inovação em empresas e oportunidades que o cenário nacional e paulista oferecem é um dos pont os do debate da conferência.

De uma forma geral, os especialistas defendem a ampliação do diálogo entre cientistas e empresas como estratégia de fortalecimento da ciência e da gestão corporativa de P&D. A aproximação permitiria que todos pensassem em agendas de problemas comuns. Consideram que a empresa precisa saber definir uma agenda de pesquisas relevante para suas estratégias de inovação e P&D e, para isso, podem contar com apoio de pesquisadores e conseguir influenciar a agenda de grupos de excelência para "problemas cientificamente relevantes e economicamente promissores".

Também é preciso estar atento aos pontos favoráveis para o Brasil e São Paulo atraírem investimentos estrangeiros em P&D. Sergio Queiroz diz que o investimento direto estrangeiro (IDE) - aquele feito da matriz na subsidiária - vem apresentando crescimento considerável desde os anos 90 e o investimento em P&D, que é uma parcela disso, também. De 1999 a 2004, os gastos em P&D das filiais de multinacionais americanas em relação ao das matrizes passou de 12,6% para 15,3%.

"Com certeza uma indústria como a Pfizer, considerada de alta tecnologia, continuará concentrando cerca de 80% de gastos com P&D nos Estados Unidos. Mas é preciso fazer esforços para que empresas como a Pfizer ampliem seus investimentos no Brasil", diz Queiroz, que coordenou um conjunto de estudos para identificar aspectos de atração de investimento estrangeiro.

Na opinião de Carlos Américo Pacheco, um dos organizadores da conferência paulista, o fator principal e inicial que leva uma multinacional a investir na China não é nem a oferta de mão de obra qualificada, nem o baixo custo desses profissionais, e, sim, o fato de que a China é uma economia que cresce 12% ao ano.

"As empresas fazem P&D e Inovação em função de suas necessidades de acessar mercado. A inovação é um ato essencialmente econômico e racional e não apenas um exercício da vontade", afirma Pacheco. Para ele, nesse momento o que torna o Brasil bastante atrativo para investimentos são fatores como a melhoria de distribuição de renda, o potencial de crescimento futuro alto, o pré-sal, entre outros. "Estar no Brasil passa ser relevante para os principais grupos internacionais. Não dá para ficar fora de um mercado importante, que será a quinta economia mundial em alguns anos. E, às vezes, estar nesse mercado significa fazer um conjunto de coisas, inclusive P&D", diz Pacheco.

Para ele, uma parte da fragilidade da inovação das empresas está relacionada à natureza da estrutura industrial brasileira. "Nós somos fracos em setores que são intensivos em tecnologia. Nós não temos indústria farmacêutica forte, não temos indústria eletrônica, ou seja, setores cuja competição é movida pela tecnologia. Além disso, boa parte de nossas empresas está voltada para o mercado doméstico com pouca exposição para a exportação, onde a inovação é importante para se diferenciar do concorrente", explica.

De acordo com Pacheco as empresas brasileiras fazem a inovação que o mercado exige delas. "Agem pela pressão da concorrência, num contexto econômico de forte instabilidade, com parâmetros macroeconômicos complicados como taxa de câmbio valorizada, juros reais extremamente altos, carga tributária de 40%, infraestrutura tecnológica precária, crescimento médio da economia não muito alto, entre outros", diz o economista.

Portanto, se o país acha que inovação no setor privado é importante, Pacheco recomenda que a política pública compense as desvantagens brasileiras, de forma a apoiar a internacionalização das empresas nacionais, suas exportações de manufaturados de maior valor agregado e, assim, as estimule para fazer P&D.