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Correio Popular (Campinas, SP)

Conexões artificiais (9 notícias)

Publicado em 07 de maio de 2023

Por Cibele Vieira

A presença de máquinas inteligentes no mercado musical não é novidade. Nos últimos anos, a inteligência artificial tem evoluído e um bom exemplo são os serviços de streaming, que usam esse recurso para indicar novas músicas e montar playlists para seus usuários. A máquina se torna útil ao fazer a análise de um grande volume de dados de forma rápida e eficiente. Para os artistas, esse recurso é um apoio na análise do mercado, trazendo informações para produtores e compositores na hora de decidir estratégias em busca de sucesso. É isso que uma pesquisa recente demonstrou, ao usar um simulador para mapear como a inteligência artificial pode influenciar o futuro da música. 

Claudio Luiz Cruz de Oliveira, coordenador da pesquisa, explica que a análise foi realizada em mais de seis anos de histórico de canções disponíveis nas plataformas. "Nosso objetivo foi criar um simulador que possa prever o sucesso das músicas, com base em algumas características como artista, gênero, níveis de dançabilidade, energia e tempo da música, e o simulador estima a probabilidade de fazer sucesso. Isso pode influenciar o mercado, melhorando a tomada de decisão sobre a escolha de qual música deve ser mais divulgada", diz.

O estudo foi conduzido pelo Núcleo de Transformação Digital da ESPM com patrocínio de órgãos de apoio à pesquisa, como CNPq e Fapesp

Uma tendência histórica

O músico Mário Marques, representante do Conselho Municipal de Cultura de Campinas, analisou a pesquisa e comentou que "ela fala de uma música que está dentro do universo da grande indústria fonográfica, uma música muito comercial, direcionada à cultura de massa". Isso, para ele, não é novidade. Afinal, lembra que as tendências de sucesso sempre foram usadas pelos profissionais de marketing das grandes gravadoras, que avaliavam e colocavam a música dentro dos padrões de sucesso. 

Ele cita como exemplo o compositor Carlos Gomes, que inovou nos temas, mas construiu suas óperas no padrão que fazia sucesso à época, conseguindo com isso maior aceitação. Ou a gravação dos LPs, que forçaram a criação de canções de dois a três minutos para atender o padrão dessa indústria. Depois, com a radiodifusão, tinham os profissionais que pagavam para determinadas músicas serem mais tocadas no rádio. "Hoje estamos vivendo uma revolução tecnológica que nos permite fazer o mesmo por meio de um programa de computador, da inteligência artificial, pensando no lucro financeiro", comenta.

Entretanto, ele ressalta que "para além dessa indústria, há toda uma produção no Brasil que é a música artística. Um compositor de musical orquestral, de samba, do choro por exemplo, não vai mudar sua composição - na forma ou conteúdo - por conta desse padrão porque seu objetivo não é fazer parte desta grande estrutura que é a da indústria fonográfica". 

Mário acrescenta ainda que "tanto os músicos quanto os ouvintes precisam entender que existe uma música comercial e super pasteurizada, que não é necessariamente artística. E cada um escolhe o que quer ouvir. Porque essa influência e manipulação sempre existiu". 

Por outro lado, ele lembra que o momento atual é muito democrático no sentido de possibilitar produções caseiras e espalhar nas plataformas digitais, coisa impossível de se pensar há 20 anos. "Então temos o ônus e o bônus da tecnologia", comenta. 

A pesquisa

A pesquisa analisou 3.446 faixas de música de duas plataformas de música digital (Spotify e Deezer), para entender quais características são necessárias e como a melodia pode chegar ao Top 200 das mais ouvidas. Do ponto de vista prático, o simulador pode orientar se vale ou não o investimento. Com base nas muitas variáveis, uma gravadora ou um produtor musical pode entender o quanto a canção tem uma perspectiva favorável de lançamento e investimento em marketing na sua divulgação. 

Ao todo, foram 1.723 músicas de sucesso e a mesma quantidade daquelas que não entraram em nenhuma lista de mais ouvidas, para montar a amostra final de canções analisadas. "A amostra de dados foi construída dessa forma para que o machine learning (entrada de dados e respostas) pudesse aprender o padrão das músicas que fazem sucesso e das que não fazem", relata Cláudio Oliveira.

Os artistas sertanejos predominaram no ranking de quem mais lançou sucessos. Para se ter uma ideia, Marília Mendonça lançou 45 músicas e foi a primeira colocada no Top 200 do Spotify, seguida por Henrique & Juliano (42), Gusttavo Lima (39), Matheus & Kauan (33) e Zé Neto & Cristiano (27). 

Os sertanejos lançaram menos músicas, mas 94% desses lançamentos foram sucesso. Na análise por gênero, os pops e funks têm maior número de canções lançadas com 42% e 17%, respectivamente. Mas o gênero não é suficiente para determinar o sucesso, como comprova o maior destaque do Carnaval ("Zona de Perigo"), do cantor baiano Léo Santana, que é um arrocha (gênero musical e dança brasileira originário da cidade de Candeias, na Bahia). A música não era considerada promissora nem pelo próprio artista, mas se tornou um sucesso, previsto pelo simulador com 88% de probabilidade. 

Quem tiver interesse pode consultar - até 15 de maio - a versão beta do simulador que está disponível no link http://www.adsimulator.com.br/music