Notícia

Jornal da USP

Comunicação e identidade ibero-americana

Publicado em 07 agosto 2011

Por José Marques de Melo

A Escola de Comunicações 5 Artes (ECA) da USP comemora 45 anos de fundação, sediando o 1º Congresso Mundial de Comunicação Ibero-americana, no período de 1º a 6 de agosto.

O evento reúne mais de 500 pesquisadores da Espanha, Portugal, México, Argentina, Cuba, Bolívia, Chile, Equador, Venezuela, Colômbia, Brasil etc. Seu propósito é constituir uma comunidade ibero-americana no campo comunicacional, de modo a fortalecer as identidades culturais de povos que pertencem a uma mesma raiz histórica, contribuindo para a formação de um mundo multipolar.

As palestras principais estão fia cargo de renomados pesquisadores internacionais como os espanhóis Miquel de Moraes, Margarita Ledo e Francisco Sierra, os portugueses Moisés Martins, Luis Humberto Marcos e Isabel Ferrín Cunha, o cubano Mário Nieves, o equatoriano Fernando Checa, o argentino Gustavo Cimadevilla e vários brasileiros. Coordenado pela professora Margarida Kunsch, chefe do Departamento de Relações Públicas da ECA, o evento tem o apoio da Reitoria da USP e das agências de fomento Capes, Fapesp e Ipea. Contando com patrocínio de empresas como a Vale do Rio Doce, a Odebrecht e a Rede Globo, o congresso foi convocado pela Federação Brasileira das Sociedades Científicas e Associações Acadêmicas de Comunicação (Socicom).

Explicitando as raízes ibero-americanas da ECA, organizei uma antologia denominada Pensamento Comunicacional Uspiano, cujo primeiro volume reúne ensaios e artigos escritos pelos intelectuais que embasaram o legado cultural da instituição, inclusive do seu primeiro diretor, o espanhol Julio Garcia Morejón.

Apresentando a obra, o atual diretor da ECA, professor Mauro Wilton de Souza, destaca o seu "pioneirismo" no "diálogo internacional", enaltecendo a realização do "primeiro congresso" das associações científicas da área no "momento histórico" em que se forma a "comunidade ibero-americana de ciências da comunicação". O livro será distribuído aos principais convidados internacionais e nacionais do 1º Confibercom.

As humanidades e as ciências sociais só conquistaram legitimidade internacional na conjuntura posterior à derrota do nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial. A valorização da democracia política como sustentáculo do desenvolvimento econômico conferiu papel crucial aos meios de comunicação de massa. Por isso mesmo, a Unesco induziu à criação de uma comunidade mundial dos cientistas da comunicação, da mesma maneira que procedera nas disciplinas de economia, sociologia, política e antropologia.

O processo de constituição do espaço acadêmico mundial da comunicação somente ganhou força a partir de 1957, quando foi criada em Paris a International Association for Mass Communication Research (lamer), sob hegemonia franco-americana, sendo legitimada por alguns países do terceiro mundo, entre eles o Brasil. A entidade cresceu sob a tensão da "guerra fria", procurando manter um equilíbrio negociado entre as forças que disputavam a primazia epistemológica.

Todavia, depois da queda do muro de Berlim, as relações de poder nessa comunidade vêm se inclinando significativamente para uma espécie de unipolaridade, que deixou de ser geopolítica, como no passado, para se tornar geocultural. O pensamento anglo-americano tornou-se ali dominante, enfraquecendo a multipolaridade.

Essa transformação do campo comunicacional vem se dando principalmente pela inércia dos países pertencentes a outros agrupamentos geoculturais, que assimilam e reproduzem as matrizes do pensamento hegemônico.

Iniciativas como a dos países nórdicos, aglutinados pelo Nordicom, animaram as lideranças ibero-americanas do nosso campo a assinar o Protocolo de Guadalajara, em 2007. Aquele documento criou condições para o Pacto do Funchal, celebrado em 2009, na Ilha da Madeira, Portugal. Trata-se de etapa decisiva para a criação de uma comunidade internacional que pode fincar a bandeira ibero-americana no espaço mundial das ciências da comunicação. Nesse sentido, ao reafirmar nossa soberania intelectual, o 1º Congresso Mundial de Comunicação Ibero-Americana (Confibercom) 2011 reafirma a vocação universalista da USP, cuja Escola de Comunicações e Artes, anfitriã do evento, possui raízes ibero-americanas. Trata-se de singularidade que transparece nitidamente no pensamento dos seus fundadores.

Por outro lado, é indispensável ressaltar que a iniciativa do megaevento resultou do papel de vanguarda assumido pela comunidade brasileira de ciências da comunicação. Desde a criação da Federação Brasileira de Sociedades Científicas e Associações Acadêmicas de Comunicação (Socicom) o nosso campo vem demonstrando sinais de maturidade, encetando um diálogo construtivo com o aparato do Estado para garantir um lugar ao sol na árvore do saber universal.

A simples consulta aos anais desse congresso mundial demonstra que existe uma luz ao fim do túnel. Mas a conquista da multipolaridade cultural depende do fortalecimento da nossa autoestima intelectual. Para nutrir essa conduta soberana, precisamos superar o "complexo do colonizado", que vem nos atrelando secularmente aos paradigmas construídos pelo bloco dominante.

Não se trata absolutamente de uma incitação à xenofobia, mas de uma compreensão contextual da natureza das ciências sociais, cujas evidências empíricas não podem ser transferidas automaticamente para outras realidades. Sem prévia validação dos respectivos axiomas por estudos de campo e outros procedimentos metodológicos, é temerária sua assimilação por ambientes geoculturais diferentes e contrastantes.