Notícia

Jornal do Brasil

Computadores melhoram a vida dos deficientes físicos

Publicado em 26 março 1996

Por CARLA BAIENSE
Pelos cálculos da OMS, eles chegam a 10% da população de um país. Pessoas especiais, consumidores com necessidades específicas, micreiros de mão cheia. Com a ajuda dos computadores, os milhares de cidadãos brasileiros portadores de deficiência estão rompendo os preconceitos e entrando de sola na vida moderna. "A informática surgiu como mais uma opção de trabalho para os deficientes físicos, visuais e auditivos", garante a digitadora Rita de Cássia Muniz Soares, que não pode falar, nem ouvir, mas conseguiu garantir seu espaço numa grande multinacional de informática. Mas não é só no mercado de trabalho que os computadores ajudam o portador de deficiência a encontrar seu espaço. Grandes empresas e pequenos inventores criam programas e acessórios para transformar o micro numa grande ferramenta de comunicação desses usuários com o resto do mundo. Milhares deles circulam pelo ciberespaço. Discutindo seus direitos, trocando mensagens, fazendo amigos, mostram uma cara bem diferente do que se costuma imaginar. Todo brasileiro portador de deficiência visual tem passe-livre na rede: só no Rio de Janeiro, 40 deles estão ligados. E já existem programas que tornam possível a navegação pelo som. Graças a esses programas, gente como o estudante de Análise de Sistemas Marcelo Pimentel conseguiu realizar um sonho antigo: ler jornal sozinho. O USUÁRIO ESCREVE E O PROGRAMA LÊ No meio de uma aula de computação gráfica, o professor Antonio Borges descobriu um aluno cego na primeira fila. Assim começa a história do DosVox, um programa criado para que usuários como Marcelo Pimentel, hoje a um ano da formatura no curso de Análise de Sistemas da UFRJ, pudessem usar o computador com total independência. Com uma equipe interdisciplinar, o Núcleo de Computação Eletrônica (NCE) da UFRJ construiu um sistema completo: sintetizador de voz, sistema operacional complementar ao Dos, editor de texto, agenda de telefones, jogos e programa para acesso à Internet, o DiscaVox. "A grande vantagem não é a questão do computador. Existe uma barreira que isola o cego da vida cultural, que é a escrita", opina o professor Antonio Borges. Através do DosVox, o cego tem um retomo sonoro de tudo que é digitado na tela, inclusive os comandos que acionam cada função. Além disso, com o uso do scanner, é possível colocar no computador e ler qualquer documento em formato texto. O programa tem uma interface simples: quando o computador é ligado, ele pergunta o que o usuário deseja. A tecla de ajuda dá todas as opções. Todas as operações são confirmadas com uma resposta sonora. "Foi o primeiro Software a falar português sem sotaque", lembra o professor. Marcelo, que aprendeu informática em cursinho para usuários videntes, fez toda a programação do editor de texto e hoje atende outros cegos no Centro de Apoio Educacional ao Cego (Cecae). Lá, os portadores de deficiência visual podem ler trechos de livros ou revistas, escaneados para o computador, digitar seus trabalhos, usando o Dos Vox e imprimir em braille. Na mesma linha, a equipe do NCE criou o LetraVox, um programa para alfabetização de crianças cegas. O programa ganhou ilustrações da Lay-Cab e faturou o prêmio Mobius, na França, ano passado. A versão para crianças videntes chama-se Menino Curioso, e pode ser usada para alfabetização de cegos. O programa ensina o alfabeto às criança a partir de historinhas. O grupo do NCE gravou as vozes e desenvolveu o Syncro, um software que possibilita uma perfeita sincronia entre som e imagem.