Notícia

Gazeta Mercantil

Computador Não Teme a Inflação

Publicado em 10 outubro 1996

Por Pam Woodall — The Economist
Lembra-se da inflação, a besta que devastava salários, pensões e poupanças nas décadas de 1970 e 1980? Você pode esquecê-la, dizem muitos sábios economistas; graças à nova tecnologia e à globalização, ela foi exterminada. Lester Thurow, do MIT, argumenta que poderosas forças estruturais transformaram a inflação "num vulcão extinto". Roger Bootle, principal economista do grupo bancário HSBC, enterrou-a com um livro intitulado "The Death of Inflation" (A Morte da Inflação, publicado por Nicholas Brealey, Londres). O que esses especialistas parecem estar dizendo que as economias poderá usufruir de crescimento rápido sem inflação, bastando que os bancos centrais adotem uma postura moderada e parem de travar as batalhas antigas. A tecnologia da informação (TI) e a abertura crescente das economia ao comércio, segundo argumento, mudaram as regras do jogo da inflação: o preço de muitos bens e serviços de alta tecnologia, de videocassetes a chamadas telefônicas, está caindo rapidamente; os trabalhadores estão mais hesitantes em exigir salários mais altos, por medo de que máquinas que poupam trabalho ou o trabalho barato estrangeiro roubem seus empregos; e a competição internacional impede que as empresas elevem seus preços. Tudo isso contribui para um crescimento rápido sem risco de inflação elevada. A inflação nem sempre esteve entre nós. Como mostra o gráfico, os preços permaneceram estáveis de modo geral na Grã-Bretanha, de cerca de 1600 até o início deste século. Em alguns anos, eles subiram ou caíram cerca de 10-20%, mas durante o período como um todo, eles não mostraram tendência geral a subir. Nos EUA, os registros não são tão antigos, mas os preços seguiram, ali, um caminho semelhante. Bootle prevê que estamos prestes a retornar para esse mundo. A inflação recente tem sido, de fato, mais baixa do que a maior parte das pessoas esperava. A taxa média nas sete maiores economias industrializadas (2-3%) está próxima da maior baixa em 30 anos. A mudança tecnológica e a competição internacional podem muito bem ter desempenhado um papel nisso. Mas a idéia de que a inflação foi derrotada de uma vez por todas apresenta falhas profundas, de várias formas: - As importações de bens das economias de baixos salários não são muito maiores agora do que eram no final da década de 1980. As mudanças tecnológicas foram tão rápidas então quanto são agora. Mas, naquela época, elas não impediram que a inflação decolasse em muitos países, principalmente na Grã-Bretanha. - O comércio com os países em desenvolvimento deveria afetar apenas preços e salários relativos, não a taxa geral de inflação. Se os preços dos bens manufaturados trabalho-intensivos, importados de países de baixos salários, diminuírem, os gastos com outros bens e serviços deverão aumentar, puxando seus preços para cima. Além do mais, à medida que os países em desenvolvimento gastam seus lucros com exportações em bens de trabalho qualificado intensivo produzidos pelos países ricos, os preços desses bens deverão subir. Do mesmo modo, os salários dos trabalhadores pouco habilitados deverão cair, mas os dos trabalhadores qualificados deverão aumentar. - A integração global não significa que o trabalho estrangeiro e as importações atenuarão, automaticamente, gargalos internos de trabalho e capacidade. Como indica Charles Lieberman, principal economista do Chase Bank, a maior parte dos empregos se encontra em setores não-intercambiáveis. Uma escassez de motoristas de caminhões nos EUA não pode ser aliviada por motoristas de caminhões desempregados na China. E mesmo para os 16% dos trabalhadores americanos que ganham a vida na indústria, a sobreposição de produção com países de baixos salários é relativamente pequena. Os principais competidores dos EUA, na maior parte dos setores, são outros países de salários elevados. Assim, se surgirem limitações de capacidade no setor, digamos, farmacêutico, os EUA poderão importar medicamentos da Alemanha, mas a um preço mais alto. - A escola da "inflação está morta" afirma, corretamente, que os cálculos oficiais superestimam a inflação. A verdadeira taxa de inflação em muitos países pode estar, hoje, próxima de zero. Mas isso em si não diz nada a respeito da trilha inflacionaria futura. Ilusão Monetária É concebível que a nova tecnologia e a globalização possam ampliar o "limite de velocidade" de uma economia, aumentando o limite da taxa até onde ela pode crescer antes que a inflação decole. Mas se uma economia rompe esse limite de velocidade relaxando demais suas políticas, a inflação ressuscitará. A longo prazo, inflação é basicamente um fenômeno monetário: o resultado de dinheiro demais em busca de poucos bens. Ninguém acredita seriamente que a taxa de inflação da Alemanha seja menor do que a da Itália porque sua economia é mais aberta. A razão óbvia é que a Alemanha tem adotado políticas monetárias e fiscais mais razoáveis. Do mesmo modo, é a prudência monetária, não tecnologia ou globalização, que tem mantido a inflação baixa na maior parte dos países ricos nos últimos anos. Os temores dos trabalhadores sobre a insegurança no emprego num mundo em mutação podem ter ajudado a manter os salários baixos, facilitando, assim, a tarefa dos bancos centrais. Em 1994, por exemplo, o Fed achou que, para amenizar as pressões inflacionarias, precisava elevar as taxas de juros a um nível menor do que o esperado. Mas neste ano o "chairman" do Fed, Alan Greenspan, advertiu o Congresso de que, em algum ponto, a disposição dos trabalhadores para negociar salários mais baixos em troca de maior segurança no emprego provavelmente desaparecerá. Entretanto, a inflação baixa em si mesma pode ser parcialmente responsável pelos sentimentos de insegurança dos trabalhadores, que são comumente atribuídos à nova tecnologia e à globalização. A razão é um fenômeno que os economistas chamam de "ilusão monetária". Durante períodos de inflação alta, aumentos salariais de dois dígitos e grandes altas no valor de suas casas podem fazer com que as pessoas se sintam mais ricas, mesmos se elas não estiverem realmente em melhor situação. Quando a inflação é baixa, pode ser difícil registrar o crescimento das rendas reais. O risco principal, atualmente, é que a inflação baixa e os preços em declínio de muitos bens de alta tecnologia encorajem cada vez mais pessoas a acreditar que o monstro foi realmente liquidado de uma vez por todas, levando a exigências para taxas de juros mais baixas, com o fim de estimular o crescimento. Mas o combate à inflação é uma tarefa interminável. Se a inflação realmente permanecer baixa, não será por causa da globalização ou da TI, mas por causa da pronta ação dos responsáveis pelas decisões de política econômica. Obviamente, os mercados de títulos públicos não acreditam que a inflação esteja morta: o rendimento dos títulos de 30 anos do Tesouro americano ainda está próximo de 7%, sugerindo que os investidores esperam que a inflação futura seja em média de 3-4%. Em muitos países, o único modo de evitar a tentação e manter a inflação baixa permanentemente é dar aos bancos centrais não apenas maior independência mas também, mais importante, uma autoridade inequívoca para garantir a estabilidade dos preços. Aqueles que estão dançando prematuramente sobre o túmulo da inflação fariam bem em refletir sobre 1968, quando o então ministro da Economia da Alemanha, Karl Schiller, proclamou que a inflação estava "morta, tão morta quanto um prego enferrujado". Em cinco anos, a inflação havia decolado novamente nos países industrializados. Mas então, o guru da paz e amor, Timothy Leary, disse: "Se você pode se lembrar dos anos 60, você não estava realmente lá".