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Jornal da USP

Compromisso de repactuar as relações na USP

Publicado em 03 fevereiro 2014

Por Paulo Hebmüller

Celebração pelos 80 anos da USP e 460 anos da cidade de São Paulo, junto à reflexão que datas comemorativas sempre ensejam; consciência das conquistas alcançadas, dos enormes desafios colocados à frente e das tensões do momento: essas duas dimensões deram o tom dos discursos e dos comentários de professores e convidados na posse dos novos reitor, Marco Antonio Zago, e vice-reitor, Vahan Agopyan, em cerimônia que lotou o Auditório Ulysses Guimarães, no Palácio dos Bandeirantes, no dia 25 de janeiro.

“Decorridos 80 anos, a pergunta a fazer é se a USP cumpriu os objetivos para os quais foi criada. Onde acertamos? Onde erramos? O que há a comemorar?”, salientou em seu discurso o ex-reitor José Goldemberg (1986-1990), como que resumindo o tom geral da cerimônia. Citando as expectativas dos fundadores da Universidade, o ex-reitor afirmou que a USP “é um sucesso” no que se refere “ao ensino e à promoção da pesquisa”, tendo formado mais de 300 mil graduados e cerca de 45 mil doutores.

Porém, ainda é possível melhorar e estimular a excelência em todas as áreas, continuou. “A USP não conseguiu melhorar suficientemente o ensino secundário, como desejavam Fernando de Azevedo, Julio de Mesquita Filho e muitos outros que lutaram pela sua criação. Esse é mais um problema do ensino médio em geral, e não da USP, e que ela não pode resolver sozinha, mas certamente poderia ajudar mais do que tem feito”, enfatizou.

Em entrevista ao Jornal da USP, Goldemberg lembrou que já em 1926, ao longo dos debates que levaram à criação da Universidade oito anos depois, “melhorar o ensino secundário era preocupação central nas considerações dos envolvidos”. O ex-reitor salientou ainda que a posse do dirigente máximo da USP só coincide com um decênio de aniversário da Universidade a cada 20 anos. A próxima vez será ainda mais significativa: em 2034, quando a USP completará seu centenário.

Agregação – Para o novo reitor, a tarefa mais urgente da administração recém-empossada é a reconstrução das relações entre estudantes e professores, em todas as suas dimensões. “Essa será a base da mudança que ocorrerá na USP”, disse Marco Antonio Zago. “Não podemos esquecer, nunca, que somos, acima de tudo, educadores, e seremos julgados pelo êxito que alcançarmos nessa missão.”

“Há que reconhecer que a USP encontra-se hoje sob fortes pressões originadas de fora e de dentro dela”, afirmou o reitor, citando “um desequilíbrio financeiro que pode pôr em risco nossa autonomia” como um desses problemas. “Mas a mais grave das ameaças é a corrosão do tecido mesmo da Universidade, tanto por movimentos de protesto que se têm transformado em agressões ao patrimônio e às pessoas, como pela intolerância ao diálogo, que ameaça transformar a Universidade em um túmulo de ideias”, afirmou.

A gestão comedida de recursos financeiros restritos e, acima de tudo, a revisão da governança da USP estão entre as formas de responder a esses desafios. “Por isso assumimos o compromisso de repactuar as relações no âmbito da Universidade, de forma a aumentar a agregação interna, trazendo o diálogo, e não mais o confronto, para o centro da vida universitária, numa forma de democratização que avance muito além do simples mecanismo de escolha do reitor”, disse.

Zago reconheceu que a USP revelou-se “um projeto político e estratégico bem-sucedido” e que, para manter seu alto padrão acadêmico, não se pode tratar suas duas missões tradicionais – o ensino e a produção intelectual – como compartimentos estanques. “Adicionalmente às suas duas missões clássicas, ensino superior e pesquisa, a última década fortaleceu o reconhecimento da chamada ‘terceira missão’ das universidades, que inclui todas as relações com seus parceiros não acadêmicos”, ressaltou. A USP deve, portanto, na visão do novo reitor, contribuir com o poder público para responder a difíceis problemas derivados, por exemplo, da concentração populacional em grandes metrópoles ou da mudança rápida do perfil etário e de consumo da sociedade.

“Como afirmamos em nosso programa, a relevância das universidades brasileiras será determinada pela sua capacidade de responder criativamente aos desafios dos problemas emergentes no cenário atual”, disse, citando áreas como a expansão dos fenômenos da cultura, a urgência de que as instituições, sobretudo as públicas, atendam aos anseios de atores sociais diferenciados e a necessidade de ampliar a inclusão social. “O mundo de hoje exige das universidades ações que vão além de seus muros”, resumiu.

Consensos – A transmissão do cargo foi feita pelo vice-reitor da gestão de João Grandino Rodas (2010-2014), Hélio Nogueira da Cruz, então no exercício da função de reitor. Rodas não compareceu à cerimônia. No discurso, Marco Antonio Zago fez questão de ressaltar que se sentia honrado por ter recebido o cargo de Nogueira da Cruz. “Tenho certeza de que externo uma opinião unânime de toda a nossa universidade ao agradecê-lo pela sua dedicação e pelo seu papel, em especial num momento bastante delicado da nossa transição”, salientou o novo reitor. A leitura do Termo de Posse de Zago e de Agopyan foi feita pelo secretário-geral da USP na gestão 2010-2014, Rubens Beçak.

O professor Sergio Adorno, diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), falando em nome do Conselho Universitário (Co), mencionou o desafio da fundação de “novas bases para o relacionamento entre os três corpos universitários – docentes, discentes e funcionários”. Adorno expressou o desejo de que a gestão combine de modo harmônico e equilibrado “prudência e ousadia; respeito à tradição, porém com enfrentamento das resistências às mudanças; escuta das vozes dissonantes e busca de consensos possíveis, transitórios que sejam, em todos os campos de intervenção”.

Muitas autoridades do Estado e do governo federal, além de representantes de universidades e instituições estrangeiras, compareceram ao ato. Entre os ocupantes de cargos públicos presentes, muitos têm ligação com a USP – como os ministros da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marco Antonio Raupp (livre-docente pela USP, onde foi professor associado do Instituto de Matemática e Estatística), e da Saúde, Alexandre Padilha (pós-graduado na Faculdade de Medicina), o prefeito Fernando Haddad (professor da FFLCH), o presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Celso Lafer (Professor Emérito da Faculdade de Direito), e o presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Glaucius Oliva, professor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP, entre outros.

Todos pela USP” – A cerimônia foi encerrada com o discurso do governador Geraldo Alckmin, que citou o aniversário da capital e o da Universidade para dizer que a cidade de São Paulo foi fundada em 25 de janeiro de 1554 e num certo sentido refundada pela USP 380 anos depois.

“Universidades historicamente sempre foram uma trincheira das liberdades civis e da liberdade de pensamento, como a USP mostrou ser no período autoritário não muito distante”, disse o governador.

“Com satisfação constatei durante reunião que mantive com o magnífico reitor o propósito de construir um ambiente de profunda convergência de pontos de vista no atendimento aos legítimos interesses da nossa população”, ressaltou. Alckmin encerrou o seu discurso repetindo a conclamação feita anteriormente por Zago, e que foi o mote da campanha de sua chapa pela Reitoria: “Somos todos pela USP”.

A fila de cumprimentos a Zago e Agopyan estendeu-se por mais de duas horas depois da cerimônia. “Estou muito confiante porque deu para perceber que a comunidade está unida, quer fazer as mudanças e participar delas”, disse ao Jornal da USP o novo vice-reitor após receber os cumprimentos. Marco Antonio Zago, por sua vez, ressaltou sua alegria por perceber que ela era também o sentimento manifestado pelas centenas de convidados que foram saudá-lo pessoalmente. “Temos muitas dificuldades à frente e não vai ser fácil enfrentá-las. Mas a sensação que temos é de boa vontade e de sentimento positivo”, concluiu.

Comissão dos 80 anos não será só festiva”

Na cerimônia de posse foi assinada a portaria que criou a Comissão Coordenadora das Comemorações dos 80 anos da USP, presidida pelo ex-reitor José Goldemberg. Também integram o grupo o ex-reitor Jacques Marcovitch (1997-2001); Erney Plessmann de Camargo, Professor Emérito da Faculdade de Medicina; Alfredo Bosi, Professor Emérito da FFLCH; e Francisco Mesquita Neto, diretor presidente do Grupo Estado. Ainda serão indicados dois membros do Conselho Universitário e dois representantes da comunidade universitária.

“A comissão não pretende ser apenas festiva. É preciso fazer uma análise do passado e tentar aprofundar a procura de soluções”, salientou Goldemberg ao Jornal da USP. “É claro que a USP tem grandes realizações, mas há problemas que ela não resolveu, e a sociedade fica nos cobrando.” Além de atuar para melhorar o ensino secundário, a Universidade pode ajudar no desenvolvimento e na inovação na indústria – embora isso também dependa de políticas públicas que estão além dela. Para o ex-reitor, no entanto, cabe à USP formar e preparar pessoas capazes de fazer as transições.

E, falando em transição – desta vez de gestão reitoral –, Goldemberg lembrou que houve outros momentos de tensão política no passado. “A vantagem dessa eleição é que o novo reitor foi escolhido de uma maneira clara: é um nome que emanou da grande maioria do corpo docente da Universidade”, considera.

Novo ciclo – A diretora da Escola de Comunicações e Artes (ECA), Margarida Kunsch, também salienta que “os desafios são muitos, mas as expectativas são bastante positivas”. “Temos à frente dois cientistas altamente capacitados que já passaram por experiências de gestão”, diz.

A professora Magda Carneiro-Sampaio, diretora do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina, comemora a volta de um médico ao cargo de reitor (o último havia sido Antônio Barros de Ulhôa Cintra, entre 1960 e 1963). “A ‘terceira missão’, como o professor Zago a chamou, é uma face muito generosa da Universidade na extensão na área da saúde”, afirma. “Nossas faculdades atendem a um número enorme de pacientes de doenças complexas e de diagnóstico difícil. São em geral as pessoas mais carentes da nossa sociedade e também com poucos recursos médicos à disposição.” Dar agilidade e celeridade aos processos também “é um tema crítico”, aponta a professora, saudando a proposta de descentralização administrativa ressaltada pelo novo reitor ao longo da campanha.

“A USP passa por uma fase complicada e eu ficaria preocupado se tivéssemos um reitor com menos competência e valor do que a comunidade percebeu que o professor Zago possui”, define Luiz Nunes de Oliveira, professor do IFSC e ex-pró-reitor de Pesquisa da USP (2001-2005). Para o docente, a Universidade precisa construir canais de comunicação entre a Administração Central e as pessoas que constroem o dia a dia da comunidade. A não existência desses canais favorece a criação de problemas que vão se acumulando, afirma.

Nunes de OIiveira considera que a USP está entrando  num terceiro ciclo de sua história. O primeiro teria sido o da criação, estendendo-se até a década de 1970, quando começa o segundo, que em sua visão agora se encerra. “Do ponto de vista da pesquisa, o terceiro ciclo será marcado não só pela consolidação e envolvimento dos nossos pesquisadores no trabalho científico, mas por um salto de qualidade”, diz. “Precisamos trabalhar em problemas novos, em ambiente científico inexplorado. Todos estão esperando por isso, e acho que agora é o momento propício.”

Gestão divulga os primeiros nomes

O reitor Marco Antonio Zago nomeou no dia 27 de janeiro os ocupantes de cargos na Administração Central da Universidade. Os nomes são os seguintes:
* Paul Jean Etienne Jeszensky – pró-reitor pro tempore de Graduação
* Arlindo Philippi Junior – pró-reitor pro tempore de Pós-Graduação
* Belmira de Barros Oliveira Bueno – pró-reitora pro tempore de Pesquisa
* Maria Arminda do Nascimento Arruda – pró-reitora pro tempore de Cultura e Extensão Universitária
* José Roberto Drugowich de Felício – chefe de Gabinete
* Gustavo Ferraz de Campos Monaco – procurador geral
* Ignacio Maria Poveda Velasco – secretário geral
* Osvaldo Shigueru Nakao – superintendente do Espaço Físico
* Maria Paula Dallari Bucci – superintendente Jurídico
* Rudinei Toneto Júnior – coordenador de Administração Geral, junto à Vice-Reitoria Executiva de Administração
* Vahan Agopyan, respondendo pelo expediente da Vice-Reitoria Executiva de Administração
* Raul Machado Neto, respondendo pelo expediente da Vice-Reitoria Executiva de Relações Internacionais
* Waldyr Antônio Jorge, respondendo pelo expediente da Superintendência de Assistência Social
* José Roberto Drugowich de Felício, respondendo pelo expediente das Superintendências de Comunicação Social, de Gestão Ambiental, de Relações Institucionais e de Tecnologia da Informação
* Luiz de Castro Junior, respondendo pela função de superintendente de Prevenção e Proteção Universitária, junto à Superintendência de Segurança