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Biólogo

Comportamento dos macacos-prego

Publicado em 27 abril 2021

As fêmeas de macacos-prego (Sapajus libidinosus) que vivem no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, são tão habilidosas quanto os machos no uso de pedras para quebrar frutos e castanhas, mas não usam gravetos, o que seria útil durante a caça para cutucar animais em fendas na pedra e até para espantar cobras e animais perigosos — como fazem os machos.

Intrigados com essa diferença de comportamento entre os sexos, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) acompanharam um grupo de oito jovens macacos — três fêmeas e cinco machos — durante dois anos, fase inicial do processo de aprendizado.

“Nossa primeira hipótese era de que as fêmeas não fizessem parte da rede social dos machos adultos”, relata o biólogo Tiago Falótico, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH-USP), coordenador da equipe e primeiro autor do artigo publicado este mês (5/3) no site da revista American Journal of Primatology. Nessa espécie, os macacos jovens se aproximam dos mais velhos para observar e aprender. Mas, quando fizeram diagramas com as conexões sociais em grupos desses primatas, a hipótese não se confirmou.

“As jovens tinham liberdade de se aproximar dos machos adultos e até de escolher aqueles que manipulam a vareta com maior eficiência”, relata Falótico. Mas mesmo estando bem perto do macho, nas nossas observações, elas só olharam 36% das vezes para o que eles estavam fazendo, enquanto machos o fizeram em 85% das ocasiões.

Ferramenta masculina

Aparentemente a falta de interesse das fêmeas não se dirige à vareta, mas aos machos em si. Os pesquisadores têm dois motivos para pensar assim: primeiro, o fato de que as jovens costumam observar outras fêmeas com mais atenção do que olham os machos. “As fêmeas do macaco-prego vivem em grupos familiares femininos, enquanto os machos saem do grupo natal e migram para outros grupos”, explica Falótico.

Segundo, porque esses primatas passaram mais tempo olhando fotos de macacos do mesmo sexo, em experimentos de laboratório. Essa tendência é importante porque a observação atenta é a forma mais comum de aprendizado entre os macacos-prego.

Algumas fêmeas aprenderam a usar varetas para resolver problemas, como tirar mel de uma caixa, ao cabo de três ou quatro meses em estudos experimentais em um parque urbano de Goiânia, feitos há alguns anos pelo psicólogo Rafael Cardoso, durante doutorado orientado pelo biólogo Eduardo Ottoni no Instituto de Psicologia da USP (IP-USP).

Na natureza não fazem isso, mas usam pedras – às vezes, até mais pesadas do que elas mesmas – para quebrar cocos e castanhas e também para desenterrar aranhas e lagartos de tocas no chão. No período reprodutivo, atiram pedras nos machos como uma forma de comunicação sexual . Diante do amplo repertório, parece insatisfatório que apenas o desinteresse pelo mundo masculino explique a ausência do uso de gravetos.

Artigo científico

FALÓTICO, T. et al. Ontogeny and sex differences in object manipulation and probe tool use by wild tufted capuchin monkeys (Sapajus libidinosus). American Journal of Primatology. on-line. 5 mar. 2021.

Fonte:Ferramenta masculina /Revista Fapesp CC BY-ND 4.0

Gilberto Stam via Revista Fapesp