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Jornal do Brasil

COMPLEXIDADE: A universidade precisa mudar

Publicado em 05 setembro 1998

Por MARIA DA CONCEIÇÃO DE ALMEIDA
Ciência com alegria, desafio, prazer e partilha é o que sinto hoje quando avalio a nossa primeira experiência coletiva de encontro com as idéias de complexidade, de pensamento complexo, com as idéias de Edgar Morin. Foi a partir da opção contra o imobilismo: da discordância com as palavras de ordem que dissociam mundo/vida/homem e do sentimento visceral de que é preciso propugnar por uma ciência nova, que, a partir de 1993, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, um pequeno grupo composto por colegas da filosofia, da sociologia, da antropologia, da psicologia, da educação e da física se puseram a ler e discutir parte da obra de Edgar Morin. No espaço desse grupo, alguns professores desenvolveram seus semestres sabáticos: outros formataram seus projetos de pesquisa de doutorado: estudantes se iniciaram na leitura das idéias desse pensador francês. Com apenas um ano e meio, o Grupo Morin começa a se tomar pequeno diante da demanda para exercitar uma nova narrativa da ciência, uma ciência com consciência, uma nova ética de vida. Em agosto de 1994 surge, por metamorfose, o Grupo de Estudos da Complexidade (GRECOM). Ampliam-se as referências sobre uma nova prática da ciência e, em conjunto com as idéias de Edgar Morin, outros pensadores da incerteza nos instigam à produzir nossas próprias singularidades discursivas a respeito da cultura e conhecimento humanos. Como uma Base de Pesquisa ligada ao Programa de Pós-Graduação em Educação e ao Mestrado em Ciências Sociais, o GRECOM comporta hoje em tomo de vinte pesquisadores, dentre estudantes de graduação e pós-graduação, profissionais das áreas de educação, antropologia, medicina, psicologia, comunicação e jornalismo, artistas plásticos e semióticos. Parte dessas pessoas não têm vínculo com a universidade, o que facilita a abertura da territorialidade e dos limites acadêmicos. A coletânea Ensaios de complexidade (editora Sulina, 1997) e o projeto Polifônicas Idéias são expressões de que não operamos no domínio da endogamia. O GRECOM quer ser glocal (J. Rösnay), ao mesmo tempo nordestino e planetário. Ensaios de complexidade, por exemplo, se constitui num conjunto heteróclito de autores de várias nacionalidades, que se misturam, sem as hierarquias convencionais, com os pesquisadores do GRECOM. O contato com outros focos do pensamento complexo, dentro e fora do país, tem alimentado o calor cultural que tentamos manter aceso. Com Edgar Morin mantemos um contato virtual desde 1992, que transformou-se num forte abraço coletivo, em tempo real, no dia 11 de maio deste ano. Em Natal, Edgar Morin pode sentir e vivenciar um pouco da experiência de um Grupo, contaminado sobretudo por suas idéias e que alimenta, como ele, o sonho de uma inadiável reforma do pensamento e de uma ética da complexidade, da cumplicidade e da (com)paixão. Trata-se de uma utopia? Sim. Mas de uma utopia ao alcance das mãos, como sugere Pierre Lévy. Não, se observamos as marcas de uma nova narrativa da ciência disseminada pelas dissertações e teses acadêmicas. Utopia sim, porque nos nutrimos da esperança de uma ciência comprometida com os destinos de homens e mulheres mais felizes e sabemos que essa esperança está minada de incertezas e perigos, utopia não, porque testemunhamos o efeito borboleta que a idéia de complexidade provoca na reorganização da vida das pessoas e na prática acadêmica. Como um ruído que permite repensar a ciência de base cartesiana, a emergência da idéia de complexidade pode fazer acontecer um outro estilo de universidade. Não é exagero afirmar que a estrutura universitária tornou-se pesada demais para responder a contento, até mesmo ao papel que ela própria se atribuiu. Mas, como em todo processo de auto-organização pelo ruído, o isolamento e a autofagia do conhecimento acabaram por nos permitir enunciar o paradoxo no qual estamos imersos. Em parte desvinculada da sociedade; por vezes em antagonismo com outros espaços de produção do saber, montada em estruturas burocráticas auto-centradas e sem conexões; seccionando por força do poder estatutário, atividades inequivocamente inseparáveis; subsumindo a vocação prazerosa e ancestral do conhecer em estruturas de "cargos", "carreiras", e "regimes de trabalho"; propugnando de forma redutora e utilitarista pelo predomínio da resposta técnica sobre a especulação, da explicação sobre o entendimento, e assim por diante, a estrutura universitária tem se tomado, em grande parte, um empecilho para o pensamento criativo e libertário. A avaliação de que o processo histórico de consolidação do conhecimento científico deu-se às custas da fragmentação dos saberes; o diagnóstico de que a pesada estrutura acadêmica favorece a rigidez do pensamento, a ossificação paradigmática e a burocratização do saber, não devem redundar na afirmação de que é fora da academia, ou pela sua negação, que se deve esboçar o exercício de um pensamento complexo, aberto e criativo. A reificação e sacralização dos saberes não-científicos é uma atitude tão perigosa e simplista quanto o é o seu inverso. Se é verdade, como assinala Edgar Morin, que "por vezes há mais criação numa taberna popular do que num coquetel literário", é imperativo também reconhecer que intelectuais insubmissos exercitam - quase sempre a duras penas - uma reorganização da cultura e novas práticas de vida dentro da própria academia. O Congresso Inter-Latino para o Pensamento Complexo (Cilpec), é importante para a tão almejada reforma do pensamento e a construção de uma ética da vida mais comprometida com os destinos do planeta no próximo milênio. A disposição para colocar a vida nas idéias e as idéias na vida; a consciência de que a incerteza e a indeterminação fazem parte do conhecimento; a determinação para abrir a auto-ética à ética comunitária; a crença de que uma política mais justa está atrelada a uma reforma do pensamento; a coragem para livrar-se das verdades incontestes que acalmam e entorpecem o pensamento; a vontade de construir novos caminhos que prefigurem "não o melhor dos mundos, mas um mundo melhor", são, sem dúvida, os estados de ser que devem emergir no transcorrer do Cilpec. Apostar nesse espírito como característica do Cilpec, é apostar também que seus participantes estão, de uma forma ou de outra, em sinergia com o estilo de ser, pensar e viver de seu presidente. Pouco afeito à idéia de guru; alimentado pelo desejo de fraternização; incitado a exercitar o calor das idéias e a tolerância; e, sobretudo, exalando por todos os poros o néctar da simplicidade. Edgar Morin poderá contaminar, com o seu espírito, o espírito desse encontro. Maria da Conceição de Almeida, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, coordena O Grupo de Estudos da Complexidade