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USP - Universidade de São Paulo

Completando dez anos, estudo da FSP mostra condição do idoso e ajuda a definir políticas públicas

Publicado em 29 março 2010

Por Luiza Caires

Um grande projeto da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP em curso desde 2000 planeja agora sua terceira fase. Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (Sabe) é uma extensa pesquisa realizada com idosos do município de São Paulo, trazendo indicadores sobre vários campos da vida deste segmento populacional, que aumenta a cada dia, e sobre o qual dados que ajudem na formulação de políticas públicas ainda são escassos.

O Sabe é um dos únicos estudos longitudinais - com entrevistas e avaliações repetidas com as mesmas pessoas no decorrer de um longo período de tempo - do país sobre saúde e condições de vida de idosos. "Assim que obtivermos o financiamento, como esperamos, iremos a campo novamente para reentrevistar as duas coortes [grupos de pessoas com características em comum, neste caso ter 60 anos ou mais] já entrevistadas em 2000 e 2006 e vamos introduzir uma terceira", prevê a professora da FSP Maria Lúcia Lebrão, coordenadora da pesquisa.

Deste modo, como explica Yeda Duarte, professora da Escola de Enfermagem (EE) da USP, pode-se acompanhar tanto o envelhecimento das pessoas frente aos serviços e condições disponíveis atualmente, quanto o que está mudando nos padrões de envelhecimento, já que os três grupos nasceram em épocas diferentes: o primeiro antes da Segunda Guerra Mundial; o segundo durante, e o terceiro depois.

Fragilidade

Yeda coordena um subprojeto que é um dos destaques da iniciativa. A pesquisa "Fragilidade" influenciou em uma decisão do Ministério da Saúde, anunciada no último dia 5, de incluir o tema na Caderneta de Saúde do Idoso. A caderneta é um documento que o idoso deve carregar consigo, trazendo informações como controle de peso, glicemia e medicação utilizada.

Professoras Maria Lúcia Lebrão e Yeda Duarte

Segundo a professora da EE, fragilidade é uma condição clínica que deve incluir pelo menos três dos seguintes fatores: perda de peso; fadiga; diminuição nas atividades físicas; diminuição da força de prensão manual (sentir-se fraco, por exemplo, para carregar objetos); e andar mais devagar. E a presença de um dos fatores já indica uma condição "pré-frágil", diagnóstico que pode evitar a evolução para o estado de fragilidade caso sejam adotadas medidas adequadas.

As entrevistas com maiores de 75 anos e análises de dados realizadas de 2008 até agora especificamente para o subprojeto demonstraram que uma parte significativa e crescente da população de idosos encontra-se neste estado: 25% do grupo estudado - quando na população mundial este número gira em torno de 7 a 10% - subindo para 46% no mesmo grupo após apenas dois anos.

estudo investigou ainda os fatores (problemas de saúde) bem como os desfechos adversos (queda, hospitalização, dificuldades em atividades da vida diárias, institucionalização em asilos e casas de repouso, e óbito) associados à fragilidade. Os resultados sugerem ações preventivas, como por exemplo, um acompanhamento mais intensivo de idosos obesos, com doenças crônicas ou hospitalizações recentes.

Na questão do bem-estar da população idosa, a professora Maria Lúcia ressalta a também a importância do cuidador. "Ainda não temos uma política adequada para cuidadores profissionais, geralmente os cuidadores são familiares que recebem uma grande carga de estresse - e muitas vezes familiares que já são idosos cuidando de idosos mais velhos", relata. A partir dos dados da pesquisa, a equipe do projeto Sabe contribuiu para a criação, por parte da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, de um programa pioneiro de acompanhantes de idosos, em que agentes oferecem companhia, escuta, acompanhamento em atividades externas, e ajuda para realizar os cuidados pessoais para idosos com ausência de apoio ou apoio insuficiente da família. "Nossa equipe tem um diálogo muito bom com as secretarias e o Ministério da Saúde e estamos sempre trabalhando em parceria", comenta.

Originado em uma ação internacional capiteneada pela Organização Panamericana da Saúde (OPAS), no Brasil o Sabe tem apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Ministério da Saúde - Área Técnica do Idoso.