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Dom Total

Competências para o século 21

Publicado em 07 janeiro 2020

Por Jose Antonio de Sousa Neto*

Desde o ensino fundamental as metodologias tem de ter como fundamento a promoção da curiosidade, da construção da capacidade de aprender a aprender por toda a vida, da valorização da iniciativa como uma obrigação da alma e do espírito e a conscientização, desde cedo, da importância da determinação e da disciplina.

Historicamente as novas tecnologias sempre foram combatidas como exterminadoras de empregos. De fato, também historicamente, o número de empregos aumentou com o avanço de novas tecnologias. O que estamos vendo e veremos é uma grande mudança nas competências para os novos empregos e principalmente trabalhos.

Não se trata aqui de uma visão otimista. De forma realista, mesmo para os que têm convicções de natureza liberal, a questão da renda mínima é e será de natureza basilar. No entanto, poucos têm conhecimento de que Mises, dentre outros de pensamento liberal, já compreendiam a necessidade do que denominaram “imposto negativo” (na verdade a base para o princípio da renda mínima) como instrumento para, muito além de atenuar desigualdades, proporcionar dignidade mínima ou condições mínimas de vida a uma parte da população que não tem condições, pelas mais diversas razões (de caráter interno e externo à natureza humana), de acompanhar a grande mudança nas competências requeridas no contexto da evolução tecnológica. Se já era assim no passado, este desafio cresceu de forma exponencial nos dias de hoje.

Neste ponto, como já comentei aqui neste espaço em textos anteriores, retomo à interessante visão da CEO da IBM Ginni Rometty sobre o que a sua empresa mais leva em conta na seleção de um profissional. De forma categórica ela aponta duas características essenciais aos colaboradores da empresa: 1) curiosidade 2) capacidade de aprender a aprender por toda a vida. Reparem os leitores que há uma palavra chave determinante e subjacente nestes dois casos: iniciativa. E esta última só se alavanca quando há determinação e disciplina.

Nosso argumento até agora nos remete inevitavelmente à questão da educação e neste texto eu gostaria de tratar especificamente do paradoxo ilusório entre o ensino de qualidade sob a perspectiva dos alunos e o ensino de qualidade sob a perspectiva dos mestres professores. Mas para seguir adiante retomo, como também já discuti anteriormente aqui neste espaço, a reflexão do Professor Mário Sergio Cortella sobre cinco fenômenos determinantes que têm alterado a sociedade, sobretudo ao longo dos últimos cem anos:

O “fim da família”. Não me refiro aqui ao debate sobre eventuais novas classificações do que seja uma família, mas à questão essencial do amor e confiança entre seus membros. Eu me refiro a desestruturação de seu conjunto pelos mais diversos fatores inclusive pelo flagelo das drogas. A desconfiança entre seus membros passou a existir em uma escala desproporcional ao que sempre existiu ao longo da história humana.

O “fim da religião” como centro de gravidade da sociedade. E aqui estou me referindo à religião ou talvez mais apropriadamente à espiritualidade dentro da razão que é o que muitos de nós procuramos alcançar. Um entendimento como aquele que nos leva a acreditar que sem alguns pressupostos nada, nem mesmo a vida tem um sentido. Para fins de raciocínio eliminamos aqui a fé abaixo da razão que se materializa no fanatismo religioso ou mesmo a fé a acima da razão ou transcendente como a de São Francisco de Assis.

Cabe aqui um comentário. Em função destes dois primeiros fenômenos muitos tentam transferir às instituições de ensino a responsabilidade de cobrir as lacunas criadas por estes mesmos fenômenos.

O “aparecimento da juventude” no sentido de que os valores passaram a girar em torno dos “valores” dos jovens. Mas quais são estes valores? Certamente não aqueles dos sábios e adquiridos por anos de vivência e aprendizado. Mas as crianças pequenas querem se tomar jovens, os jovens querem permanecer jovens e os que estão acima dos 30 anos já se preocupam em “voltar a ser jovens”.

O “imediatismo” resultante inclusive dos “valores” da juventude e profundamente incentivado por uma sociedade que valoriza prioritariamente o consumo em detrimento de outros valores e alavancado pelo quinto fenômeno abaixo.

A “grande mídia” que difunde valores sociais, ideológicos e econômicos quase que exclusivamente de seu interesse próprio e um esfacelamento de uma parte significativa do jornalismo que se desviou de seu verdadeiro propósito optando por se tornar, em grande medida, apenas opinativo e até mesmo panfletário.

Como comentei em texto anterior, segundo alguns filósofos, tudo isso junto poderia ser classificado com o “Grande Outro”. Fica a critério do leitor interpretar o que isso significa...

No caso do Brasil há ainda um sério fator agravante diante deste cenário: no que concerne às instituições de ensino, qualquer pesquisa séria que leve em consideração dados reais históricos e evidências por resultados concretos demonstra de maneira incontestável, inclusive em classificações internacionais que nem precisariam ser consultadas por professores que estão na linha de frente recebendo alunos, a absoluta falência da educação no país desde o ensino básico até o ensino superior. Sobretudo e de forma acelerada deste o início deste século até um passado bem recente.

Há mais ou menos três anos atrás estive em um seminário sobre educação promovido pelo governo britânico onde tive o privilégio de assentar-me ao lado dos presidentes da Fapesp e da Fapemig. O primeiro apresentou em sua palestra um slide que tento aqui de memória reproduzir abaixo:

Como exemplo de contribuição científica de alto impacto e de alta relevância ele ilustrou o quadro com o grande cientista francês Louis Pasteur. O valor da produção e desenvolvimento científico brasileiro promovido por nossas instituições educacionais no mesmo período mencionado acima é autoexplicativo!

Entre instituições públicas e privadas as discussões e justificativas de caráter ideológico ou de cunho econômico-financeiro (não muito diferentes do fanatismo religioso – fé abaixo da razão – criticados por tantos) acabam por ofuscar o mais importante: quais são as verdadeiras competências requeridas neste século e para os séculos vindouros e como construí-las através de modelos educacionais efetivos (eficazes + eficientes)?

Não há uma formula mágica e seria irrealista e até irresponsável não reconhecer que, por diversas razões, um contingente importante da população, em todos os países do mundo, não terá meios, condições e até mesmo interesse de acompanhar e se preparar para a revolução em curso. O contexto da inversão de valores produzidos, dentre outros fatores, pelos fenômenos descritos acima, acaba também por distorcer a aplicação de novas metodologias bem-intencionadas e desviar alunos e mestres professores do verdadeiro desafio. Qual? Convido os leitores a retornar ao terceiro parágrafo deste texto. Boa parte da resposta está lá. E este desafio é o mesmo tanto para os alunos como para os mestres professores. No Brasil o desafio é ainda mais difícil em um sistema regulatório educacional engessado, burocrático e de longa data subjugado por objetivos políticos.

De uma coisa estou convencido: desde o ensino fundamental, as metodologias tem de ter como fundamento a promoção da curiosidade, da construção da capacidade de aprender a aprender por toda a vida, da valorização da iniciativa como uma obrigação da alma e do espírito e a conscientização, desde cedo, da importância da determinação e da disciplina. Evidentemente as instituições educacionais não podem substituir o importante papel das famílias e a importância da espiritualidade em um mundo eminentemente materialista. Elas podem ajudar e em alguns casos até muito, mas não podem cobrir totalmente as falências sociais resultantes de escolhas feitas por um povo e principalmente seus líderes. Mas um processo educacional focado nas competências corretas levará certamente um círculo virtuoso que melhorará as escolhas e tornará robusto e sustentável o progresso.

Com a revolução tecnológica e com os avanços rumo a inteligência artificial já estamos atrasados. Tenho recomendado com frequência aos meus alunos a leitura dos livros do Professor Yuval Noha Harari como referência do que está acontecendo no mundo e do que perfeitamente pode estar por vir. Melhor que possamos implementar as mudanças necessárias (coletivas e individuais) de forma proativa do que reativa. Sonho com um sistema educacional onde os mestres professores indicam o caminho, ensinam, educam e aprendem junto com os alunos que desde cedo aprenderam a aprender e com determinação e disciplina têm a iniciativa de buscar respostas aos problemas. Iniciativa que compreenderão como condição sine-qua-non para sua própria prosperidade pessoal e profissional. Isso é o pilar de qualquer metodologia educacional que busque se focar em um ensino prático e voltado para as necessidades do mundo real. Parece utopia? Não é! Em muitos países, como por exemplo o Reino Unido, os EUA, a França e a Finlândia dentre outros, podemos encontrar direcionamentos e instituições que, mesmo através de processos e iniciativas ainda em construção, podem trazer uma luz aos que tiverem interesse aqui no Brasil. Um esforço não para eliminar, mas para reduzir ao máximo aqueles que não poderão sobreviver e muito menos prosperar sem o auxílio de uma renda mínima.