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Época

Companheira indispensável

Publicado em 25 abril 2005

No coração da floresta acreana, a 8 quilômetros da fronteira com o Peru e a léguas de distância de qualquer povoado urbano, um integrante da tribo ashaninka abre o computador e inicia uma conexão. Vai checar seus e-mails e saberá como está a demanda pelos medicamentos fitoterápicos produzidos em sua aldeia. Há pouco tempo, quando até um telefone era raridade em qualquer lugar daquele Estado, uma cena como essa poderia ser imaginada como peça de ficção. No mês em que se comemoram dez anos da lei que permitiu a abertura da internet comercial no país, é apenas o começo de mais um dia na selva. A rede é hoje uma realidade que chega aos lugares mais inóspitos do Brasil. Pelo resto do território nacional, é cada dia maior o número de pessoas que fazem compras, fecham negócios, movimentam contas bancárias, namoram, encontram amizades, participam de jogos, ouvem música, vêem filmes, conseguem empregos e até falam por telefone pela internet. O país caminha para a marca de 30 milhões de indivíduos - cerca de 17% da população - com acesso direto à rede mundial. Ou seja: um em cada seis está conectado.
O passo inaugural dessa revolução foi dado após um longo trabalho de preparação realizado por cientistas brasileiros e uma simples penada burocrática: no dia 30 de abril de 1995, o então ministro Sérgio Motta, das Comunicações, estabeleceu as regras para o uso comercial da rede e criou o comitê gestor da atividade no país. A história poderia ter sido diferente. Quem viveu de perto aquele momento lembra que Motta estava inclinado a entregar o serviço de provimento de acesso à Embratel, deixando nas mãos do Estado a responsabilidade pelo desenvolvimento da rede. Renata Motta, uma das três filhas do 'Serjão', bastante antenada no que se passava lá fora, ajudou a convencer o pai a optar por um modelo próximo ao do americano. 'O modelo aberto adotado pelo governo brasileiro em 1995 foi acertado', opina Ethevaldo Siqueira, autor do livro 2015 - Como Viveremos. 'A Argentina optou pelo monopólio do governo e acabou não experimentando o salto econômico e tecnológico que tivemos com a chegada da web.'
Embora 1995 tenha sido o ano em que a rede se tornou visível aos brasileiros, 1988 pode ser considerado o momento zero da internet no país. Naquele ano, a Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp) iniciou o projeto de conexão do Brasil com as redes mundiais. Inaugurado no ano seguinte, o serviço permitia apenas a retirada de arquivos e correio eletrônico. Em 1991, uma linha internacional foi conectada com a Fapesp para que fosse liberado o acesso a instituições educacionais, fundações de pesquisa, entidades sem fins lucrativos e órgãos governamentais. 'Eles passaram a participar de fóruns de debates, acessar bases de dados nacionais e internacionais, supercomputadores de outros países e transferir arquivos e softwares', lembra Demi Getschko, um dos fundadores da Academia Brasileira de Internet.
Os primeiros testes de transmissão de informação fora dos círculos acadêmicos foram realizados pela Agência Estado, por ocasião da Eco-92, a conferência mundial sobre meio ambiente. A partir da lei de Sérgio Motta, surgiram os primeiros sites brasileiros de notícia. Depois os de compras, entretenimento, pesquisa, e a rede proliferou. Com a chegada e a rápida popularização do e-mail, o jeito de as pessoas se relacionarem, especialmente no ambiente de trabalho, mudou completamente. Hoje, o internauta brasileiro só perde para o japonês em tempo de navegação domiciliar: 14 horas e 35 minutos por mês. Ávido por acesso, procura cada vez mais por conexões de alta velocidade. Cinco milhões de pessoas já estão usando a banda larga, um crescimento de 20% em 12 meses. A proporção de internautas por sexo é de 53% de homens e 47% de mulheres, com uma presença maciça de jovens.
Para quem era adolescente em 1995, a internet chegou como um atrativo infalível e um mundo de possibilidades. A rede foi abrindo espaço para a migração de jogos eletrônicos e o relacionamento com pessoas de países distantes. No mundo todo, são baixados diariamente pelo www 3 bilhões de músicas e 5 milhões de vídeos e filmes. Os blogs, diários em que famosos ou não contam e retratam seu dia, já fazem parte da cultura on-line. O Brasil tem registrados 81 mil blogs do total de 1,5 milhão existentes em todo o mundo. O país também é campeão do Orkut. Representa nada menos que metade dos usuários desse site que permite criar comunidades para que pessoas interessadas em determinado assunto possam se reunir e discuti-lo.
Manter-se conectado passou a ser uma mania que afeta um número cada vez maior de pessoas. No Brasil, os webaholics, ou viciados na rede, chegam a criar endereços em que exercem e discutem sua 'dependência' com bom humor, sem culpa e sem vontade de abandoná-la. Para Nelson Pereira Ramos, o vício confesso virou meio de vida. Aos 18 anos, ele ficava plugado jogando os violentos War Birds e Carmageddon com pessoas que nem conhecia. Quando surgiram as lan houses, tornou-se um aficionado das batalhas virtuais do Counter Strike. 'Todos os dias ficava sete horas seguidas conectado só para isso', lembra. Hoje com 24 anos, casado, pai de uma menina e com um menino a caminho, Nelson está terminando seus estudos de computação e presta suporte de informática através de chamados por e-mail, o que o obriga a passar longos períodos do dia na rede.
No ano 2000, a internet vivia um momento de euforia. Os investimentos em comunicação rapidamente migravam para a nova fronteira virtual e o dinheiro de outros setores começava a ser canalizado em grande escala para produtos web. Nos Estados Unidos, empresas com poucos anos de estrada como a America On Line (AOL) fundiam-se com grupos de comunicação pesos pesados, como a Time-Warner. Em Wall Street, as ações dessas novas potências pareciam disparar rumo ao infinito. Criou-se uma nova bolsa, a Nasdaq, só para transações do mundo digital. O Vale do Silício, região na Califórnia onde estavam concentradas as empresas pontocom, virou o centro de interesse do mundo. No Brasil, também era um momento de corrida ao ouro. Instituições financeiras aliavam-se a provedores de acesso e conteúdo para viabilizar o fornecimento gratuito do acesso à rede. Alguns poucos ficaram muito ricos. Foi o caso de Marcos Moraes, filho do ex-rei da soja Olacyr de Moraes. Em 1996, ele fundou o Zip.net, site de informação e correio eletrônico. Em 2000, vendeu-o à Portugal Telecom por US$ 365 milhões. Foi o maior negócio digital do país. Aos 33 anos de idade, Marcos Moraes tornava-se um milionário. Hoje, atua como empresário no mundo da moda.
Em maio de 2001, a 'bolha' - como foi chamado o fenômeno de supervalorização dos sites e suas ações - estourou. Embora o eldorado virtual tenha se desfeito, as empresas mais sólidas e os empreendedores mais consistentes conseguiram se manter na trilha. E a competição ganhou seriedade. Uma das iniciativas brasileiras mais bem-sucedidas desse período foi o portal iG, que chegou a janeiro de 2000 como o primeiro provedor de acesso gratuito e com o apoio de fortes investidores do mercado financeiro. 'Hoje mais de 60% do acesso no país é feito por provimento gratuito', afirma o jornalista Matinas Suzuki, um de seus fundadores.
Nos primeiros tempos, os portais tinham como principais fontes de sustento as assinaturas dos usuários e os banners (anúncios retangulares ou quadrados colocados nas páginas). Aos poucos eles vêm sendo substituídos pelos pop-ups, aquelas propagandas que brotam da tela. Mas, após o estouro da bolha, as empresas de telecomunicações tornaram-se o mais poderoso financiador das operações. Por meio de associações com elas, os sites com serviço de provimento de acesso, gratuito ou não, puderam ser remunerados com um porcentual pelo tráfego que forneciam às linhas das operadoras. Ou seja, quanto mais tempo um site é visitado, mais ele recebe da operadora.
Um homem-símbolo da internet brasileira é Aleksandar Mandic, de 51 anos. Filho de imigrantes sérvios, ele começou sua aventura na rede quando trabalhava como engenheiro da Siemens. Em 1989, descobriu a possibilidade de transmitir dados de um computador para outro por modem. Como tinha uma linha telefônica sobrando em casa e umas máquinas, montou no quarto de hóspedes uma estrutura BBS - rede de micros conectados por linha telefônica que antecedeu a internet. Assim surgiu o serviço de BBS Mandic. 'Até então, todos os serviços de BBS eram oferecidos gratuitamente, mas precários. Como eu oferecia um serviço de qualidade, podia cobrar', conta. A migração para a web aconteceu naturalmente: 'Em 1995, no primeiro dia em que a internet começou a funcionar livremente no Brasil, eu entrei no ar, atuando no ramo de provimento de acesso'. Em 1999, Mandic vendeu seu provedor por US$ 10 milhões.
O internauta de hoje pode se irritar com uma espera de 30 segundos diante da tela, mas no começo uma única página podia demorar de 15 a 20 minutos para surgir completa no computador. As linhas de transmissão tinham uma capacidade limitada e a rede não contava com as conexões em fibra óptica de que dispõe hoje, que garantem o acesso em alta velocidade. Livre das limitações da linha discada, o brasileiro pode executar operações impensáveis há pouco tempo. O avanço está provocando mudanças de hábito e facilitando a vida da população em geral. Desde 1995, os bancos oferecem aos clientes formas de evitar as incômodas filas e atrasos em seus pagamentos. Quase 50% dos internautas brasileiros acessam serviços bancários on-line, um índice bem acima do número constatado nos EUA (29%), no Japão (14%), Reino Unido (38%), na França (33%) e Alemanha (41%). Poucos no país ainda declaram seus rendimentos por outro meio que não o on-line. Os programas podem ser baixados no computador, e a declaração preenchida e enviada sem grandes dificuldades. O Boletim de Ocorrência pela internet é oferecido à população há cinco anos pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Segundo o balanço do governo estadual, foram 156 mil registros nos três primeiros meses de 2005, perante os 128 mil no primeiro trimestre de 2004.
No que diz respeito às crianças, a influência da web é vista por 70% dos pais com melhores olhos que a da televisão. Numa pesquisa da AOL/RoperASW, 77% disseram que a internet melhorou a qualidade da lição de casa dos pequenos e 75% contaram acessar a rede junto com seus filhos. Théo Holanda acabou de fazer 6 anos. Ele é um exemplo de uma geração que nasce dominando o mundo da informatização. Chega a ser difícil tirá-lo do computador para outras atividades. Até para assistir a seus filmes, ele prefere o aparelho. Já conseguiu dos pais a promessa de que, assim que souber ler e escrever, vai ganhar um endereço eletrônico para se comunicar com os amigos. Por enquanto, seu acesso à rede é predominantemente para lazer. 'Escolhi meus presentes no Natal passado em lojas de e-commerce', conta ele, que freqüenta a lan house de um shopping.
A Forrester Research estima que a receita de e-commerce no Brasil chegou a R$ 1,8 bilhão em 2004, crescerá para R$ 2,8 bilhões em 2005 e atingirá R$ 12,8 bilhões até 2010, representando uma taxa de crescimento médio anual de 36%, enquanto o mercado mais maduro dos EUA cresce à razão de 14%. O número de pessoas que compram na internet brasileira atualmente é de 3,6 milhões e chegará a 29,5 milhões em 2010. No setor, nenhum portal foi tão eficaz quanto o Submarino, que iniciou suas operações em 1999 como uma livraria virtual inspirada na americana Amazon. com. Com um eficiente sistema de procura e pagamento dos produtos, o site tornou-se um shopping virtual dos mais completos. Hoje oferece 700 mil itens em eletroeletrônicos, brinquedos, roupas, flores, perfumes e outras categorias de produtos de 950 fornecedores, com envio a todos os Estados e ao exterior. Em 2004, teve uma receita bruta de R$ 361 milhões, entregando 1,8 milhão de pedidos para 914 mil clientes.
Os escritórios virtuais começam a deixar de ser uma ficção. Ainda não são muitas as empresas que assimilaram a cultura de manter seus funcionários trabalhando a distância. Mas o conceito de home office começa a entrar na agenda dos empresários. Acredita-se que metade das pessoas empregadas poderá trabalhar a distância em 2015. Em comunicação pela internet, a febre do momento no país é o programa Skype, que permite fazer ligações telefônicas pela rede a um custo muito menor que o cobrado pelas operadoras normais. Basta baixar o programa de sites especializados e ter um microfone. A administradora Rebecca Hipskind, de 39 anos, que mora na Califórnia, utiliza esse tipo de serviço para saber diariamente notícias do pai, que vive em São Paulo e teve problemas de saúde recentemente. 'É uma tranqüilidade poder ligar a toda hora para acompanhar a recuperação dele e gastar menos do que se eu estivesse falando na própria cidade', afirma Rebecca.
O próximo passo é a possibilidade de votar em eleições sem sair de casa. O governo está investindo pesado no conceito de certificação digital. Um dos objetivos é superar a dificuldade de autenticar o eleitor. Segundo os especialistas, o Brasil leva vantagem por contar com uma bem-sucedida experiência de informatização do processo eleitoral. A Suíça realizou a primeira experiência no gênero em setembro passado. Moradores de Genebra participaram de votação on-line sobre questões como leis de naturalização e benefícios para a maternidade. Os eleitores receberam um cartão com um código de 16 caracteres e uma senha pessoal de quatro dígitos. Votaram por meio de um site no qual informavam data, local de nascimento e a senha para ter acesso ao formulário de votação. A iniciativa foi considerada um sucesso.
A grande ameaça que a internet traz é da ampliação do apartheid social, com a criação de um abismo entre os que dominam e os que não conhecem os recursos tecnológicos trazidos pela rede. Outros problemas cada vez mais freqüentes são o da pedofilia, da pornografia e cibercrime. Quadrilhas se especializaram em descobrir dados bancários e evaporar on-line o dinheiro da conta dos usuários. O tráfico de drogas ilícitas já se tornou uma dor de cabeça para a polícia. Os meios para coibir os abusos na rede, inclusive em termos de legislação, ainda engatinham. Dez anos depois daquela penada de Sérgio Motta, os brasileiros vivem um outro mundo na internet. Sem volta.