Notícia

Jornal da Unesp

Como respira o pulmão do planeta

Publicado em 01 março 1999

Apesar da crescente preocupação mundial quanto à conservação dos recursos naturais, as florestas tropicais do mundo, com sua ampla biodiversidade, continuam a desaparecer em ritmo acelerado. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), somente no ano passado, o desflorestamento chegou a 16.838 km2. Incertos sobre quais as conseqüências do desmatamento e das queimadas na Amazônia, para as outras nações do globo, cientistas de todo o mundo se deslocaram para a região, em janeiro e fevereiro últimos, para participar do Projeto LBA (Large Scale Biosphere Atmosphere Experiment in Amazônia - Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia), um empreendimento que envolve o Inpe, o Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA) e universidades federais e estaduais brasileiras, como UNESP e USP, além da agência militar espacial norte-americana Nasa e de diversas universidades dos EUA e da Europa. "Queremos entender como as alterações físicas e biológicas das florestas podem influenciar o clima mundial", diz um dos participantes do projeto, o especialista em radares Maurício de Agostinho Antônio, pesquisador do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet), unidade complementar da UNESP, câmpus de Bauru. O LBA envolve um investimento de 100 milhões de dólares, entre 1998 e 2003. Cerca de 120 pesquisadores de todo o mundo, dois aviões norte-americanos, três radares da Nasa, quatro balões de coleta de dados meteorológicos e 38 sensores pluviométricos desenvolveram uma campanha intensiva na estação chuvosa. "O objetivo é saber o máximo possível sobre a chuva e o clima da região nesse período do ano", explica Ciro Antônio Rosolem, diretor do IPMet. Um dos idealizadores do Projeto, o cientista Carlos Nobre, chefe do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cpetec) do Inpe, ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, lembra por que recorreu à UNESP. "Contatei o professor Maurício quando houve a necessidade de um gabaritado especialista em meteorologia para atuar nos radares norte-americanos que foram instalados na Amazônia", conta. Além de trabalhar nesses radares, Maurício selecionou o local que serviu de base para a pesquisa. Após um ano e meio de estudos e viagens à Amazônia, optou por Ji-Paraná, RO. "Na região, zonas desmaiadas e virgens estão relativamente próximas, o que ajuda a coletar e comparar dados", diz. "Contamos ainda com a proximidade da rodovia BR-364 e a logística da lama, uma ONG que atua na região." As grandes vedetes da operação são os aviões. Um deles, o jato Cessna Citation II, da Universidade de Dakota do Norte, ao ser avisado de precipitações em Rondônia, decola de Porto Velho, RO, e atravessa as nuvens, para captar dados físicos, químicos e pluviométricos. O outro, um ER-2, da Nasa, fica na base' militar de Brasília. "É o único no mundo capaz de carregar uma tonelada de instrumentos científicos", conta Maurício. O ER-2, correspondente civil ao célebre avião militar U-2, que deu nome à banda irlandesa de rock, voa acima das nuvens, a até 17 mil metros de altitude, e mede os fenômenos físicos e químicos que ocorrem dentro delas. BALÕES E SENSORES As informações, conseguidas pelos aviões, radares, balões e sensores, estarão sendo usadas, neste primeiro momento, pela Nasa, em colaboração com os pesquisadores brasileiros, para calibrar o funcionamento do satélite experimental TRMM (Tropical Rainfall Measurement Mission - Missão de Mensuração da Chuva Tropical), lançado, em parceria pelos EUA e pelo Japão, em novembro de 1997. "Ele orbita a 370 km de altura e passa pela região duas vezes por dia, coletando dados sobre o clima e a chuva", explica Antônio. "Mas, como está ainda em fase de experiência, é necessário comparar os números que consegue aos obtidos pelos aviões. Assim, são realizados ajustes de posicionamento ou do equipamento." Segundo Antônio, nunca foi implementada uma operação parecida na Amazônia. "Após esta campanha na estação chuvosa, será realizada uma semelhante, em junho e julho de 2001, para coletar dados sobre o período seco", conta. "A novidade do projeto é conceber a Amazônia como uma unidade regional. Comparando os dados do período de chuva com os do período de seca e os conseguidos nas zonas desmaiadas e na floresta virgem, será possível compreender como as chuvas se formam e como são absorvidas pelo solo", comenta Nobre, coordenador geral do LBA. Após fevereiro, apenas cerca de 10% dos equipamentos instalados pela Nasa e pelas universidades dos EUA permanecerão em Rondônia. O resto volta para os EUA. "Porém, como co-responsável pela operação dos radares instalados em Rondônia, o Grupo de Radar do IPMet/ UNESP será o depositário nacional dos dados originais coletados", celebra Rosolem. "O LBA é um passo importante para buscar práticas de desenvolvimento sustentado na Amazônia, mas não esgota o assunto", conclui Nobre. NÃO SE PODE ESQUECER DO HOMEM ONG lembra importância da dimensão humana na região A complexidade de instalar cientistas brasileiros e estrangeiros na Amazônia gerou a necessidade de estabelecer numerosas parcerias. Uma delas foi com o Instituto de Antropologia e Meio Ambiente (Iamá), Organização Não Governamental (ONG) que, fundada em 1987, conta, entre seus pesquisadores, com a participação do cientista social Mauro Leonel, do Departamento de Ciências Políticas da Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP, câmpus de Marília. "Alugamos parte de nossas instalações em Ji-Paraná para funcionar como o Centro de Operações brasileiro do Projeto", diz o docente. Para Leonel, o Projeto LBA é um esforço importante, que tenta prever o impacto do desmatamento no funcionamento ecológico, climatológico e hidrológico da Amazônia. "No entanto, após essa avaliação técnica da região, não se pode deixar de lado a dimensão humana. Somente assim será possível o pleno desenvolvimento da região", conclui.