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Nexo Jornal

Como o feminismo aparece na obra de Júlia Lopes de Almeida

Publicado em 03 setembro 2020

Esta dissertação de mestrado, elaborada por Gabriela Simonetti Trevisan, na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), faz uma leitura feminista dos temas trabalhados na obra de Júlia Lopes de Almeida, importante escritora carioca da virada do século 19 ao 20.

A autora argumenta que o protagonismo feminino observado nas histórias de Almeida rejeita noções patriarcais de seu período. Romances como “Correio da roça” e “A viúva Simões” apresentam personagens complexas, que subvertem os papéis tradicionais reservados às mulheres na sociedade e na literatura.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Como a escrita de Júlia Lopes de Almeida é marcada por uma poética feminista? Essa pergunta é norteada por reflexões e debates bibliográficos que, muitas vezes, hesitaram em nomear a autora e sua obra como feministas. Assim, busco respondê-la a partir de um trabalho com fontes históricas, como os textos da autora e suas contribuições em periódicos do período, bem como a partir de reflexões teóricas feministas e pós-estruturalistas. A literatura de Almeida é colocada em diálogo com teses médicas e jurídicas que conformaram uma visão biologizante dos corpos femininos no entresséculos, de modo a apresentar as complexidades da escrita dessa autora e os espaços de liberdade que construiu em sua ficção para as mulheres.

Por que isso é relevante?

O tema é relevante em especial devido ao silenciamento sistemático que existe até hoje diante das diversas escritoras brasileiras do século 19 e início do século 20. Ao tratar das literatas do Brasil e das formas críticas como muitas vezes pensaram e recriaram o mundo em suas ficções, rompe-se com a perpetuação de um cânone masculino que ainda conforma nossa visão sobre a produção literária desse momento. Além disso, pode-se também destacar a importância de resgatar um pensamento intelectual, criativo e artístico feminista, que traz à tona discursos outros sobre o passado.

Resumo da pesquisa

O objetivo dessa pesquisa de mestrado é analisar a poética feminista nas obras de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), escritora carioca que atuou como romancista, cronista, contista, jornalista e conferencista, entre outras ocupações. A partir das obras “A família Medeiros” (1893), “A viúva Simões” (1897), “A falência” (1901), “Ânsia eterna” (1903), “Eles e elas” (1910), “Cruel amor” (1911), “Correio da roça” (1913), “A Silveirinha” (1914), “A mulher e a arte” (sem data) e algumas outras publicações da autora em periódicos, analiso não só as críticas da literata à cultura patriarcal de sua época, mas as formas como cria e propõe outros tipos de existência para as mulheres em seus escritos. Para tanto, apresento o pensamento de médicos e juristas que, desde o século 19, conformaram noções como a inferioridade natural feminina, e traço um diálogo entre Almeida e outras feministas e escritoras da época, críticas dessa moral científica e cristã. Nesse sentido, apoio-me, para esta análise, na epistemologia feminista e em conceitos de Michel Foucault, como “dispositivo da sexualidade” e “estéticas da existência”.

Quais foram as conclusões?

Busquei afirmar não só o posicionamento crítico e feminista de Júlia Lopes de Almeida — sem deixar de lado suas multiplicidades e complexidades —, mas a pertinência de uma interpretação feminista sobre suas obras, já que, nelas, há um protagonismo feminino na transformação dos espaços e da subjetividade, promovendo não só críticas à moralidade normativa como a criação de práticas de liberdade, compromissadas com uma desestabilização da cultura patriarcal. Para exemplificar, cito três obras que foram centrais em minhas análises, entre várias outras: “A mulher e a arte” (sem data), “A viúva Simões” (1897) e “Correio da roça” (1913).

No primeiro caso, temos um texto encontrado no arquivo da Academia Brasileira de Letras e que não havia sido publicado até 2019, quando, em parceria com minha orientadora Margareth Rago, tive a oportunidade de o prefaciar e publicá-lo na revista História: Questões & Debates, da UFPR (Universidade Federal do Paraná). Trata-se de uma conferência sem data, datilografada, na qual Almeida trata do lugar das mulheres no ambiente artístico. Na ocasião, a literata defende que há uma tendência cultural a “vestir o talento de calças”, metáfora que ironiza o silenciamento das obras das mulheres pelo cânone masculino. Para exemplificar a excelência dos trabalhos femininos e defender sua valorização, ela menciona de mais de 20 mulheres, famosas nacional e internacionalmente, e que atuaram nas artes visuais, na literatura, na dança ou mesmo na ciência, a exemplo de George Sand e Marie Curie.

Já em “A viúva Simões”, famoso romance da autora, Almeida conta a história de uma mulher recém-viúva, de 36 anos, que reencontra um amor da adolescência e se vê em uma turbulência ao disputá-lo com a própria filha. O romance trata das complexidades do sentimento materno, que, como já pontuado em 1985 pela historiadora francesa Elisabeth Badinter, é um afeto histórico e socialmente construído, sendo a mãe moderna uma figura existente apenas a partir dos séculos 18 e 19. Almeida parece jogar com o discurso médico e a moral cristã de sua época e desnaturalizar as ideias sobre a corporeidade feminina, já que sua personagem vagueia entre ser mãe, viúva e dona-de-casa e, ao mesmo tempo, deseja o prazer sexual e a realização pessoal, em detrimento da filha, trazendo as complexidades subjetivas femininas para o centro do palco.

Por fim, também trabalho com a obra “Correio da roça”. Trata-se de um romance epistolar no qual Maria e suas quatro filhas se veem falidas após a morte do patriarca, devido às dívidas que ele deixa de herança, restando para elas apenas uma propriedade rural abandonada, para onde são obrigadas a se mudar. A fazenda antes mal cuidada pelas mãos dos homens torna-se próspera: as mulheres constroem escolas, hospitais, provêm saneamento básico, arborizam e ajardinam, melhoram as estradas, criam redes de apoio com os trabalhadores e os outros proprietários etc. É interessante perceber que apenas a prática feminina é capaz de humanizar o espaço e reconectá-lo com outra perspectiva sobre a terra, que não apenas explora e destrói, mas respeita e valoriza a natureza.

Quem deveria conhecer seus resultados?

Acredito que, além da comunidade acadêmica, seria importante a divulgação de pesquisas como a minha para o ensino básico, ou seja, para docentes e alunos. Júlia Lopes de Almeida foi estipulada recentemente como leitura obrigatória de vestibulares, como o da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), e, ainda assim, há pouco conhecimento sobre a vida e obra da autora — com dezenas de obras publicadas e centenas de contribuições em jornais da época —, bem como sobre seus posicionamentos republicanos, abolicionistas e feministas. Romper com o cânone literário e historiográfico no meio universitário e escolar é algo em andamento já há vários anos e trabalhos sobre a literatura de autoria feminina entre os séculos 19 e 20 fomentam essa discussão e a fratura de conceitos ditos universais, mas que deixam de lado uma série de discursos, grupos e sujeitos.

Gabriela Simonetti Trevisan é mestre em história cultural pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), sob orientação da professora Luzia Margareth Rago e com o apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Graduou-se como bacharela e licenciada no curso de história da Unicamp em 2016. Graduanda em letras pela Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo). Sua dissertação de mestrado será publicada em livro pela Editora Intermeios, com lançamento previsto para 2020.

Referências:

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I, II e III. Rio de Janeiro: Graal, 1988, 1999 e 2005. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque.

McLAREN, Margareth. Foucault, feminismo e subjetividade. São Paulo: Intermeios, 2016.

MUZART, Zahidé Lupinacci (org.). Escritoras brasileiras do século XIX (V. 1, 2 e 3). Florianópolis: Editora Mulheres; Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 1999, 2004 e 2009.

RAGO, Margareth. Epistemologia feminista, gênero e história. In: PEDRO, Joana; GROSSI, Miriam (orgs.). Masculino, feminino, plural. Florianópolis: Editora Mulheres, 1998.

TELLES, Norma. Encantações: escritoras e imaginação literária no Brasil, século XIX. São Paulo: Intermeios, 2012.

VIANNA, Lúcia Helena. Poética feminista – poética da memória. Labrys: estudos feministas. n.4, 2003. Disponível em: http://www.labrys.net.br/labrys4/textos/lucia1.htm.