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24 Brasil

Como funciona e é testada a vacina de Oxford? A imunização pode matar?

Publicado em 24 outubro 2020

Ontem (21), recebemos a notícia da morte de um voluntário (homem, 28 anos, médico) que participava dos testes clínicos da vacina produzida pela empresa AstraZeneca, em parceria com o Instituto Jenner, da Universidade de Oxford. Com isso, várias dúvidas ficaram no ar, como se ele era do grupo que recebeu a vacina ou do grupo placebo? Ele faleceu porque tomou a vacina e sofreu um efeito colateral ou por que a vacina não funcionou e teve covid-19?

Antes de tentar responder a tudo isso, posso dizer antecipadamente que o voluntário não morreu devido a efeitos colaterais provocados pela vacina. Para ajudar a entender isso, primeiro precisamos compreender como é feita e testada essa vacina.

A vacina produzida na Universidade de Oxford é uma classe de imunização chamada de vacina vetorial. Ou seja, que utiliza um "vírus vivo", como um adenovírus, que causa no máximo uma doença respiratória leve, como um resfriado. No caso da vacina de Oxford, eles utilizam um adenovírus de macaco, que é ainda mais fácil de o nosso sistema imunológico combater, pois o vírus não está adaptado ao corpo humano e facilmente é eliminado pelo nosso sistema imune.

O "truque" dessa tecnologia para ela prevenir doenças em humanos, nesse caso, a covid-19, é que conseguimos modificar os adenovírus usados na vacina. Assim, o transformamos em um vetor (ou carreador) que pode levar uma informação genética para as células do nosso corpo, por exemplo, um pedaço do novo coronavírus (SARS-CoV-2), em especial, a proteína que recobre o vírus, as chamadas proteínas S (spike), ou coroas, que são utilizadas pelo vírus para entrar na célula humana. Essa é uma solução para desenvolver uma vacina sem precisar colocar o coronavírus no corpo.

Ao identificar a sequência genética da proteína S do SARS-CoV-2, nosso sistema imunológico a reconhece como estranha e produz anticorpos contra o coronavírus, além de ativar outros componentes do sistema imune para que, quando tivermos contatos com o coronavírus de verdade, nosso corpo esteja protegido. Desta forma, aqui vem a resposta a uma das perguntas do título:respondendo à pergunta do título:

Não, a vacina não mata. O máximo que ela pode é induzir algumas respostas leves, como dores no local da vacinação, dor de cabeça, febre, mas tudo contornável com medicamentos amplamente disponíveis e utilizados em humanos

Mas o que pode ter acontecido nesse caso da vacina de Oxford então?

Uma possível resposta é que, se o voluntário recebeu a vacina (e não o placebo), quando ele teve contato com o coronavírus em seu dia a dia, a vacina não foi capaz de protegê-lo e o organismo sucumbiu à covid-19. E, caso ele tenha recebido o placebo, obviamente, seu corpo não teria qualquer proteção além da defesa natural do sistema imune.

Outra questão que fica nesse caso é como um voluntário jovem, sem comorbidade foi afetado pelo vírus? Pode ter ocorrido um erro de triagem —ou seja, escolheram um voluntário que era do grupo de risco— ou realmente o coronavírus ainda está nos pregando surpresas, nesse caso nada boas. Para responder essa questão, precisaremos de tempo, pois só saberemos isso com os documentos do voluntário ou quando conhecermos ainda mais o poder destruidor do vírus.

Mas porque demora tanto para obter dados dos voluntários? Não seria apenas os médicos informarem?

Definitivamente não, pois os testes de uma vacina ou de medicamentos, por exemplo, precisam seguir rigores como os chamados testes randomizados e duplo-cegos, para que os resultados sejam realmente confiáveis.

Basicamente, os estudos randomizados e duplo-cegos são aqueles em que a decisão de quem vai receber a vacina ou o placebo é feita aleatoriamente, nem o voluntario nem o responsável pela vacinação sabem o que esta sendo aplicado. Isso é necessário para que não ocorra nenhuma interferência humana nos resultados dos testes vacinais. Por exemplo, se um paciente sabe que não recebeu a vacina e sim o placebo, provavelmente ele não vai agir da mesma forma que o voluntario imunizado com a vacina em teste agiria.

Além disso, é importante que os responsáveis por acompanhar os voluntários atuem da mesma maneira com todos os participantes da pesquisa e façam a análise destes voluntários de forma igual, por consequência, os resultados serão comparados fidedignamente. Torna-se possível avaliar os efeitos colaterais de forma natural, em que os voluntários vão expressar o que sentem, sem saber se foi provocado ou não pela vacina, pois não sabem se são grupos testes (vacinados) ou placebo.

Outro fator de extrema importância é a preservação do corpo técnico envolvido, pois ao tirar essa informação deles, ou seja, torná-los "cegos", evitamos que qualquer pressão política ou empresarial/financeira possa induzir possíveis manipulações de dados.

Devido a esses fatos, informações técnicas geralmente demoram mais para serem obtidas, pois precisam juntar informações de várias equipes técnicas. Além disso, quem avalia os dados são equipes que não participam dos experimentos, para que tenham total isenção de interesses.

*"Vírus vivo": a expressão foi usada apenas para facilitar a compreensão do conteúdo. Biologicamente falando, o termo não se aplica, pois o vírus não é um ser vivo.

Gustavo Cabral (@gcabral.miranda) é imunologista PhD pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutorado pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e pela Universidade de Berna (Suíça), e pesquisador da USP/FAPESP.

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