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Revista Universo Visual

Como escrever um artigo científico

Publicado em 01 novembro 2019

Por Silvana Artioli Schellini

Os artigos científicos são divulgações de pesquisas realizadas. Um delineamento bem feito vai gerar uma pesquisa forte e que terá muita chance de ser publicada. Portanto, para escrever um artigo científico deve-se começar pelo delineamento da pesquisa. A ideia que gera uma pesquisa deve vir de uma dúvida do pesquisador. A dúvida leva a uma pergunta que o pesquisador precisa responder. A boa pergunta surge do trabalho diário com nossos pacientes. O bom pesquisador precisa estar atento aos fenômenos que ele observa. Por exemplo: por que a incidência de câncer de pele pode ser infinitamente menor em indivíduos que moram em condições desérticas? Será necessário estudar o ambiente e os hábitos onde residem estas pessoas para responder à pergunta. Provavelmente devido as vestes e ao hábito de não se expor ao sol que é escaldante.

A pesquisa só cumprirá com a sua finalidade se a resposta da pergunta resultar em aplicabilidade prática. Tipos de pesquisa As pesquisas científicas podem ser agrupadas em estudos primários ou secundários. Os estudos primários podem ser: estudos experimentais, levantamentos de dados epidemiológicos ou demográficos por meio de screening populacional ou feito em hospitais/clínicas, estu dos de corte, ensaios clínicos randomizados, testes diagnósticos, resultados de tratamento (clínico ou cirúrgico), análise de prognóstico ou prevenção de doenças, estudo de caso/controle ou relato de casos.

As pesquisas mais fortes em termos de evidência científica são os ensaios clínicos randomizados. Os estudos experimentais utilizando animais são os que permitem melhor controle das variáveis e do desenrolar da pesquisa, mas requerem instalações especiais e poucos são os lugares onde se pode realizar um estudo experimental de excelência. Os estudos secundários são os feitos sobre dados já coletados por outros pesquisadores e que geraram publicações, como as revisões sistemáticas, os guidelines, as análises de decisão e econômicas. As pesquisas podem ser ainda categorizadas em prospectivas ou retrospectivas. As retrospectivas são feitas sobre base de dados já existentes e podem trazer informações incompletas, caso se baseiem em fontes não homogêneas e que não possuam as informações de interesse. Portanto, as pesquisas prospectivas possuem maior controle dos dados e geram resultados mais fortes.

Os estudos podem ser realizados em um só local ou centro de pesquisa. Existem pesquisas que seguem o mesmo protocolo e que são realizadas ao mesmo tempo em vários locais do mesmo país ou de países diferentes. Estes são os estudos chamados de multicêntricos. Os estudos multicêntricos são interessantes principalmente para se ter a composição de uma amostra mais rapidamente (por exemplo, os projetos que testam novas drogas) ou para que se compare populações que vivem sob diferentes fatores de risco para determinadas doenças. Todas os projetos de pesquisa devem ser apresentados para um comitê de ética antes do início das atividades. O comitê fará a análise principalmente de fatores que protejam o sujeito da pesquisa. A análise destes comitês se faz tão importante que os resultados de uma pesquisa que não teve o protocolo analisado por eles não serão aceitos para publicação por boas revistas científicas. Para a obtenção do aval do comitê de ética se faz necessário apresentar dados do local onde se desenvolverá a pesquisa, da equipe, o projeto de pesquisa completo, o termo de consentimento livre e esclarecido e o cronograma de execução. O termo de consentimento deve conter todas as informações necessárias para que os sujeitos estejam esclarecidos sobre os procedimentos a que estarão expostos e deverá ser assinado pelos sujeitos da pesquisa ou seus responsáveis legais, em conjunto com o pesquisador, no momento da inclusão dos mesmos na pesquisa.

O delineamento das pesquisas na área médica

A pesquisa é definida como um estudo capaz de avançar o conhecimento ou de mudar paradigmas. Feita com o intuito de descobrir algo novo ou de confirmar algum conceito antigo, deve seguir de forma planejada e de acordo com normas éticas e metodológicas estritas. Parte-se de uma ótima ideia que gerou a dúvida/ pergunta. O passo seguinte será revisar tudo que outros autores já escreveram ou tudo que já existe na literatura sobre o assunto. Quanto mais ampla a revisão da bibliografia realizada nas bases de dados, melhor. Estas informações devem ser organizadas de forma a fornecer material para se decidir se ainda se faz necessário pesquisar mais sobre o assunto. A revisão da literatura fornece material para a introdução e discussão do estudo. A introdução deve apresentar um breve histórico, a visão dos autores sobre o assunto e as perspectivas futuras - pontos positivos e negativos.

No final da introdução, coloca-se a justificativa para a realização do estudo (a importância, os motivos para se estudar o assunto) e a contribuição que o estudo pode fornecer ao que já se conhece sobre o tema. Tendo por base o conhecimento profundo do que já existe na literatura, o objetivo para a realização da pesquisa deve ser colocado de forma clara, descrevendo exatamente o que se pretende estudar. Por exemplo: avaliar a eficácia e a segurança do colírio A comparado com o B para o tratamento de pacientes com a doença X. Passa-se a delinear a metodologia primeiramente definindo qual o tipo de estudo que pode responder a sua pergunta: estudo prospectivo? Retrospectivo? Caso-controle? Definir como será feita a inclusão dos sujeitos da pesquisa: seguindo randomização? Mascarado? Duplo-cego? Probabilística? Sequencial? Se o sujeito sofrerá algum tipo de intervenção ou se o estudo será apenas observacional. Definir o local onde o estudo será feito : na população geral, habitantes de determinada região, frequentadores de determinado hospital/clínica privada. Definir o tamanho da amostra que será necessária para permitir análises estatísticas. Depois disso, definir claramente os procedimentos para a inclusão dos sujeitos, a fim de se evitar viés de seleção da amostra.

Definir a faixa etária dos indivíduos a serem incluídos, se haverá restrição de acordo com critérios como raça, profissão, doenças pré- existentes, etc. Os critérios de exclusão, ou seja, aqueles sujeitos que não poderão participar do estudo, também devem ser claros. Devem figurar entre os critérios de exclusão fatores que podem influenciar os resultados. Por exemplo: a gravidez induz alterações refracionais. Se o estudo aborda erros de refração na população normal, as grávidas não poderão ser incluídas. A metodologia deve se basear em instrumentos e procedimentos adequados. Procurar usar métodos quantitativos. Avaliações quantitativas são muito mais fidedignas que as qualitativas porque evitam influências subjetivas que o observador possa ter. Planejar adequadamente o protocolo da pesquisa para que todos os dados de interesse sejam coletados. Planejar quem vai coletar os dados, como serão feitas as avaliações - se haverá cegamento nas avaliações, quem será o responsável pela transferência dos dados para as planilhas e finalmente como será feita a análise estatística dos dados. A realização de um projeto-pi loto pode indicar se a ideia é mesmo factível, pode auxiliar no cálculo do tamanho amostrai e pode fornecer ideia de custos para a realização da pesquisa. Com o projeto piloto será possível corrigir algum defeito do planejamento. Depois de tudo delineado, o pesquisador pode buscar financiamento para a sua pesquisa nas agências governamentais de fomento - estaduais (as FAPS, como a FAPESP no estado de São Paulo) ou nacionais (como o CNPQ). Também pode-se obter financiamentos em agências internacionais, na indústria, e em instituições que tenham interesse na realização da pesquisa em pauta. O próximo passo será colocar a pesquisa em prática.

Monitoramento e execução da pesquisa

Conforme os dados são gerados, os pesquisadores devem monitorar se a pesquisa está seguindo de forma estrita o protocolo. Relatórios parciais permitirão verificar se a pesquisa segue no caminho adequado. O monitoramento se faz importante porque permite detectar e corrigir possíveis erros durante a execução da pesquisa. Muito importante que a interpretação dos dados seja feita de forma isenta, não tendenciosa. Por exemplo: para evitar o viés de análise em uma pesquisa feita uti lizando-se fotografias de pacientes, a análise deve ser feita por mais do que um avaliador que devem desconhecer o grupo ao qual pertencem os sujeitos da pesquisa. Os resultados de pesquisas quantitativas podem ser apresentados em tabelas ou gráficos. Embora gráficos possam ficar mais "coloridos", as tabelas trazem mais informações porque terão todos os números apresentados, além de se ter a oportunidade de apresentar os valores de P que refletem a significância estatística. Conforme os tipos de estudo, pode-se optar por uma forma ou outra.

No entanto, nunca use a mesma informação apresentada de duas formas diferentes porque isso geraria apenas gasto de mais espaço em uma possível publicação. Caso o estudo envolva fotografias, a qualidade das figuras se faz muito importante. Em geral, espera-se que as fotos tenham 300 Dpis. Então a obtenção das fotografias deve seguir uma metodologia adequada para permitir boas análises. Há formas específicas de apresentar as fotografias de forma a não permitir a identificação do sujeito. E será necessário ter a autorização dos mesmos para a divulgação das imagens. Depois de coletados e tabulados todos os dados, as planilhas receberão tratamento estatístico. Os métodos estatísticos a serem escolhidos dependem da qualidade e quantidade de dados coletados. Este é um capítulo extenso e que, em geral, necessita de profissionais especializados para tal. Estes profissionais devem ser consultados desde o delineamento para que não se incorra a erros. Tendo em mãos os resultados analisados estatisticamente, passa-se para o passo mais difícil de um trabalho científico que é a discussão dos resultados obtidos. A construção da discussão deve ser feita da seguinte forma. O primeiro parágrafo deve englobar uma síntese dos principais achados do trabalho realizado. Realçar o que de mais importante foi observado no estudo.na discussão que você tem liberdade para colocar melhor o que pensa do estudo que desenvolveu e a importância que ele teve para o avançar do conhecimento. Discutir passo a passo e na mesma sequência dos resultados, cada um dos achados do estudo, comparando- os com o que existe na literatura.

Os seus resultados devem vir primeiro e depois, comparar o que você achou com os dados da literatura. Não discorra sobre a literatura. Discorra sobre o estudo que foi realizado e compare o que encontrou com as referências bibliográficas sobre o assunto. Se depois de tudo que você fez, os resultados contrariam a sua ideia inicial, isso não invalida o seu estudo! Negar a hipótese é tão importante quanto confirmar. No final da discussão, colocar os pontos fracos que você enxergou no seu estudo. Por exemplo, em se tratando de estudos prospectivos, muitas vezes há perda de seguimento de sujeitos da pesqui sa e a amostra fica reduzida. Nos estudos experimentais pode haver morte de alguns animais. Um comentário sobre este fato pode ser feito neste momento. Em seguida, coloque os pontos fortes do estudo que podem ser, por exemplo, ter trabalhado com uma amostra de tamanho significativo, se ter usado métodos adequados e modernos, etc. Por fim, vem o parágrafo da conclusão do estudo que deve ser "casada" com os objetivos. Leia atentamente os objetivos do estudo e construa suas conclusões sobre eles. Não se deve concluir sobre coisas que outros estudiosos fizeram. Foque no estudo realizado e tire as suas conclusões. As referências que embasaram o seu estudo devem ser todas citadas no texto e listadas ao final do estudo. Não usar referências que não foram citadas no seu texto.

Publicação da sua pesquisa

Concluída a sua pesquisa, avalie qual o melhor periódico para que você a divulgue. Lembre-se que pesquisa não publicada equivale a pesquisa não realizada. Os periódicos são classificados de acordo com o nível de impacto. Isso quer dizer que são classificados de acordo com a possibilidade do seu estudo ser lido ou não. Publicar em revista indexada nas bases de dados faz com que haja maior possiblidade do estudo ser lido. Verificar nos indexadores tais como o Scielo, o Medline, o Scimago, no portal da CAPES e em outros a lista das principais revistas e o fator de impacto das mesmas. Publicar em revistas que tenham abrangência internacional e que possuam maior fator de impacto sempre garante maior visibilidade e deve ser tentando.

As diferentes revistas possuem diferentes normativas principalmente quanto a número de palavras, forma de citação de referências no texto ou na lista de citações, apresentação de tabelas ou figuras. Todas as normativas devem ser seguidas. A rejeição de publicação pode se originar de não se ter seguido as normativas ou mesmo da preparação inadequada do texto. Revistas de impacto possuem corpo editorial e revisores. O trabalho vai ser analisado por revisores que são, em geral, pessoas que trabalham na área do estudo que você fez, antes de ser aceito para publicação. Os pontos que merecem análise dependem do tipo de estudo que foi feito - para estudos de acurácia, o tamanho da amostra deve ser adequado, os critérios de inclusão e exclusão devem ser bem definidos, explicitando se houve randomização e cegamento, comparação com padrão-ouro e deixando claro se houve perdas. Estudos sobre tratamento, devem definir a amostra estudada, diferenças entre grupo tratado e controle e os resultados devem mostrar a força do tratamento sobre o problema. Pesquisas prognósticas, devem mostrar os resultados em indivíduos expostos ou não ao fator de risco estudado, em amostra representativa, deixando nítido o período de tempo do estudo, apontando os fatores relacionados com o risco de desenvolver a doença. Nos relatos de caso deve-se apontar claramente o ineditismo ou os fatores que fazem a relevância de se ter a divulgação do caso. São aceitos por revistas específicas e muitas vezes são publicados apenas online ou em revistas pagas. Nos estudos secundários, o revisor verifica se a resposta para a questão clínica foi obtida, se todos estudos relevantes principalmente os que são randomizados foram incluídos e se os resultados são aplicáveis.

Resumindo

O mundo das publicações está intimamente relacionado com a realização de pesquisas de bom nível científico. A pergunta que origina a pesquisa pode ser gerada em dúvidas que surgem na prática diária, com possibilidade de aplicabilidade imediata. A publicação depende de se ter um estudo realizado sobre bases sólidas. Na introdução deve-se mostrar o estado atual do conhecimento e a justificativa para realizar o estudo. Os objetivos devem ser claros. Os métodos devem ser muito bem planejados, chegando-se com isso a resultados organizados que devem ter análise estatística adequada. A discussão deve versar sobre os resultados do estudo. A conclusão deve refletir o objetivo do estudo, respondendo a pergunta que gerou a pesquisa. No final, as referências bibliográficas utilizadas devem ser listadas.