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Nexo Jornal

Como comunidades acham soluções para crises socioambientais (5 notícias)

Publicado em 08 de maio de 2023

Por Lucas Zacari

Controle de pesca predatória, destruição causada por chuvas, impactos de empreendimentos em áreas de vegetação. Esses são alguns exemplos de problemas que se relacionam com grandes crises globais como a mudança climática e a perda de biodiversidade, mas cujos efeitos são sentidos principalmente por comunidades locais.

Saber se organizar para lidar com crises socioambientais desse tipo é uma capacidade importante para populações, segundo um estudo de pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) publicado na revista Ecology & Society. A pesquisa analisou seis situações em diferentes lugares do Brasil e identificou mecanismos comuns que permitiram às comunidades superarem crises.

Neste texto, o Nexo relata as principais conclusões do estudo.

Foco em soluções locais

A auto-organização consiste na capacidade de essas populações se entenderem a partir de regras básicas e gerarem soluções para seus problemas complexos. Mesmo considerando as especificidades de cada localidade, os pesquisadores notaram atitudes semelhantes para resolver crises socioambientais – ou seja, soluções que podem ser aplicadas em outras situações.

A pesquisadora Alice Moraes explica que as seis comunidades estudadas são relativamente pequenas – algumas são tradicionais, caiçaras ou ribeirinhas – e não tinham grandes recursos ou apoio imediato do poder público. “Apesar dos recursos para o enfrentamento de crises socioambientais não serem tão abundantes, ainda assim elas conseguiram se auto-organizar e superar essas situações”, disse Moraes ao Nexo.

No Amazonas, por exemplo, foi analisada a construção do Acordo de Capivara. A região do Médio Rio Solimões, próximo à cidade de Tefé, sofria com a pesca predatória do pirarucu. Um acordo concretizado em 2014 implementou diretrizes para o manejo comunitário e sustentável da pesca do peixe fora de uma área de proteção ambiental.

Em São Paulo, as reações às chuvas de verão que inundaram São Luiz do Paraitinga em 2010 foram objetos de estudo. À época, a maioria dos 10 mil habitantes ficaram desabrigados e casarões de mais de 200 anos, como a igreja matriz, foram arrastados. Os pesquisadores observaram como se deu o processo de reconstrução da cidade pós-inundação e a organização da Redesuapa (Rede para o Desenvolvimento Sustentável do Alto do Paraíba).

Também foram analisadas as comunidades de Trindade e de Tarituba, em Paraty, e do Aventureiro, em Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Os casos envolveram uma reivindicação de terras e acesso a recursos, a construção de um sistema de monitoramento da pesca artesanal e a reorganização do turismo de base comunitária após proibição pela prefeitura de Angra dos Reis.

Após selecionar as seis crises socioambientais solucionadas pelas comunidades, os pesquisadores unificaram os dados encontrados e, por meio de síntese científica – abordagem de pesquisa que usa informações já coletadas para gerar novos conhecimentos –, perceberam semelhanças nas soluções.

“A nossa questão foi identificar esses elementos e entender o papel que eles exerceram para o sucesso no enfrentamento dessas crises. Com essa visão, nós entendemos que é possível extrair lições que podem ultrapassar as fronteiras dessas comunidades”, disse Moraes.

O trabalho foi feito pelo projeto SintesSIS, vinculado ao programa Biota Síntese e apoiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Veja abaixo algumas das lições em comum encontradas pela pesquisa.

Uso do capital humano e social

O capital humano está relacionado às características de cada membro da comunidade, como habilidades, conhecimentos e capacidade de trabalho. Já o capital social se refere às relações estabelecidas entre os membros de uma população. É possível identificar oportunidades de uso desses dois tipos de capital na resolução de crises.

Durante a enchente em São Luiz do Paraitinga, por exemplo, equipes de rafting, prática característica da região, fizeram o resgate de pessoas presas em casas e prédios. A união entre a habilidade do esporte (capital humano) com a cooperação (capital social) foram fundamentais para salvar os moradores.

Parcerias com atores externos

Como forma de sustentar a auto-organização, a parceria com atores externos às comunidades se mostrou essencial para a superação das crises em todos os cenários. ONGs, universidades, pesquisadores e turistas auxiliaram as populações.

Para o desenvolvimento do manejo comunitário de pesca do pirarucu no Médio Solimões, por exemplo, o Instituto Mamirauá assessorou a comunidade ribeirinha a desenvolver o Acordo do Capivara.

Espaços que favorecem a interação social

Os pesquisadores identificaram a importância de ter locais com infraestrutura comunitária, que fortalecem as interações sociais e, consequentemente, criam engajamento contra crises.

Foi o que aconteceu em Tarituba. As etapas de desenvolvimento do sistema de monitoramento de pesca artesanal aconteceram em uma escola municipal. A facilidade do acesso e o conforto do local geraram uma maior participação dos pescadores locais.

Geração de oportunidades

Segundo o estudo, a auto-organização de comunidades foi importante tanto para que os indivíduos pudessem se reestruturar financeiramente, como para que tivessem seus direitos garantidos – e isso permitiu efeitos mais duradouros do que a resolução da crise em questão.

Após as inundações em São Luiz do Paraitinga, por exemplo, surgiu a Rede para o Desenvolvimento Sustentável do Alto do Paraíba, que rendeu oportunidades para pequenos produtores. Com isso, além do incentivo econômico, outras pessoas passaram a se espelhar na iniciativa.

Ação de lideranças

Nos exemplos estudados, líderes comunitários agiram como catalisadores do interesse coletivo, o que promoveu a mobilização dos moradores e propiciou a resolução de conflitos quando interesses individuais não se alinhavam.

Na luta pelos direitos territoriais em Trindade, por exemplo, líderes locais perceberam a necessidade de manter as festividades tradicionais como forma de engajar a população. De acordo com a pesquisa, esse trabalho foi responsável por fortalecer a comunidade, promover capital social e resolver problemas em comum.