Notícia

UOL

Como atuam os fisioterapeutas respiratórios, essenciais durante a pandemia

Publicado em 09 agosto 2020

Por Sidnei Santos de Oliveira | Revista Pesquisa FAPESP

Com a missão de tratar e prevenir complicações de doenças relacionadas ao sistema respiratório, fisioterapeutas têm se revelado profissionais imprescindíveis, sobretudo no ambiente hospitalar, desde que começaram a ser registrados os primeiros casos de Covid-19. O fato de o novo coronavírus muitas vezes causar danos graves aos pulmões evidenciou também a necessidade de formação específica nessa área que, no Brasil, conta com aproximadamente 3 mil profissionais, incluindo as especialidades respiratória, cardiovascular e de terapia intensiva.

"Mesmo sendo um número razoável em condições normais, houve falta de fisioterapeutas respiratórios durante a pandemia, o que comprova a necessidade de que novos profissionais sejam formados todos os anos", explica Elineth da Conceição Braga Valente, fisioterapeuta e integrante do Coffito (Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional).

A formação na área, informa ela,tem início durante a graduação, com disciplinas relacionadas às funções e disfunções do pulmão, bem como o tratamento de sequelas provocadas por doenças respiratórias e prevenção de complicações futuras. A fisioterapia respiratória constitui cadeira obrigatória. Os profissionais podem complementar seus estudos nesse campo com cursos de capacitação, especialização e residência multiprofissional na área da saúde.

Assim como na formação em medicina, a residência multiprofissional caracteriza-se pelo treinamento em serviço, com tempo médio de dois a três anos, sob orientação de profissionais experientes em atividades práticas e teóricas.

"Além dessas possibilidades, é importante que o profissional entenda que a formação deve ser continuada, ou seja, sempre haverá necessidade de atualização para acompanhar as evoluções do setor", pondera Valente.

No Brasil, desde 2010 é obrigatória a presença de pelo menos um fisioterapeuta para cada 10 leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) durante pelo menos 18 horas por dia, de acordo com resolução publicada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em conjunto com o Ministério da Saúde. Projeto de lei que tramita atualmente no Congresso Nacional pretende ampliar para tempo integral a permanência do fisioterapeuta.

Áreas de atuação

Pediátrica

Cuidados de doenças comuns em crianças, como pneumonia e bronquiolite

Ambulatorial

Tratamento e alívio de doenças crônicas, como asma e enfisema pulmonar

Hospitalar

Praticada em leitos das enfermarias, emergência e de UTIs como forma de prevenir o aparecimento de doenças respiratórias e melhorar a função pulmonar

Domiciliar

Recuperação pós-internação e tratamento de distúrbios respiratórios

Baseada em formação superior de caráter generalista, voltada para a atuação em áreas como neurofuncional, oncológica e traumato-?ortopédica, a fisioterapia envolve o estudo, a prevenção e o tratamento de distúrbios que podem acometer os distintos órgãos do corpo humano por razões genéticas, traumas ou doenças adquiridas. A especialidade em torno do sistema respiratório surgiu na década de 1970 nos Estados Unidos, quando, em ambiente hospitalar, profissionais dedicados à recuperação da função motora dos pacientes perceberam que os exercícios melhoravam também suas funções respiratórias.

No Brasil, ganhou força a partir da década de 1980. "Os fisioterapeutas passaram, então, a executar exercícios de atuação direta nos pulmões, principalmente em casos de doenças obstrutivas como bronquite e enfisema", conta Valente. Entre os procedimentos mais comuns estão exercícios respiratórios, tosse assistida e drenagem postural, que auxiliam a liberação de secreção dos pulmões a partir de posições específicas.

Atendimento hospitalar

Desde 2002 o HU-USP (Hospital Universitário da Universidade de São Paulo) mantém um curso de especialização em fisioterapia respiratória realizado em parceria com o Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da FM-USP (Faculdade de Medicina da USP). Com carga de 1.440 horas, equivalente a um ano de formação, o curso pode ser realizado por alunos do último ano da graduação em fisioterapia e por fisioterapeutas já formados.

"O programa amplia as oportunidades para quem quer atuar na área hospitalar, campo que tem atraído muitos profissionais nos últimos anos", explica Francisco Garcia Soriano, vice-coordenador do curso. Correspondente a uma pós-graduação lato sensu, a formação é composta por aulas teóricas e práticas, incluindo estágio em UTI de adultos, pediátrica e neonatal, além de enfermaria e programa de atendimento domiciliar.

Dentre as disciplinas estão fisiologia e fisiopatologia pulmonar, radiologia, equipamentos fisioterapêuticos hospitalares e domiciliares, fisioterapia no pós-operatório e ventilação mecânica invasiva. "Como a UTI reúne pacientes em estado crítico, que necessitam de cuidados criteriosos, é importante que o fisioterapeuta vivencie experiências sobre manuseio de equipamentos e acompanhamento de pessoas que recuperaram a capacidade de respirar", avalia Soriano. Profissionais também podem optar pelas especializações em terapia intensiva, que, além de disciplinas sobre o trato respiratório, incluem temas de fisioterapia neurológica e cardiovascular.

Dentre as atribuições do profissional de fisioterapia respiratória está a utilização de aparelhos complexos, como os ventiladores mecânicos utilizados em pacientes sedados, em processo conhecido como intubação orotraqueal. "Nesse caso, o fisioterapeuta divide com o médico a responsabilidade pelo paciente", observa Adriana Claudia Lunardi, professora do programa de Pós-graduação da Unicid (Universidade Cidade de São Paulo) e supervisora de estágio no curso de fisioterapia da USP nas áreas de fisioterapia de pacientes hospitalizados e exercícios respiratórios.

Como complemento às técnicas específicas para tratar problemas crônicos, a fisioterapia respiratória também faz uso de aparelhos para condicionamento físico, como esteiras e bicicletas ergométricas, e outros equipamentos mais simples, como halteres e faixas elásticas. "Além dos pacientes recém-saídos da UTI, que precisam retomar a atividade física para reforçar a musculatura do corpo e recuperar a capacidade respiratória, o uso desses equipamentos é importante no tratamento de doenças crônicas como enfisema pulmonar, asma e câncer", completa Lunardi.

Estudos realizados no campo da fisioterapia respiratória, como o conduzido por Clarice Tanaka, Bruna Rotta e equipe, têm demonstrado que a atuação desse profissional em tempo integral nas UTIs pode reduzir em até 40% a permanência hospitalar, além de diminuir consideravelmente os custos e as intercorrências que podem resultar do período acamado.

"A fraqueza muscular extrema é um dos efeitos da internação nas UTIs que pode comprometer a capacidade funcional e a respiração espontânea do paciente", afirma Pedro Dal Lago, do Departamento de Fisioterapia da UFCSPA (Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre). Durante o processo de retirada gradual do ventilador mecânico - denominado desmame -, o fisioterapeuta precisa avaliar a musculatura respiratória do paciente e elaborar um programa de exercícios específicos para recuperação da capacidade de respirar.

Além da maior demanda decorrente da fase de pandemia, a procura por fisioterapeutas respiratórios tende a crescer com o aumento da expectativa de vida dos brasileiros e as complicações decorrentes da poluição dos grandes centros urbanos. "Com o envelhecimento da população, também são mais frequentes as doenças que acometem os sistemas cardiovascular e respiratório, sendo a fisioterapia respiratória um importante recurso para a melhora da qualidade de vida das pessoas", finaliza Dal Lago.