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Jornal de Santa Catarina (SC) online

Como as Missões Jesuíticas colaboram para entender fenômeno magnético em ação no século 17

Publicado em 23 junho 2016

Por Itamar Melo

Durante um passeio pela região das Missões, Igor Pacca, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) e pioneiro dos estudos sobre geomagnetismo no Brasil, teve um estalo: as ruínas dos Sete Povos poderiam servir como uma espécie de portal para o passado da Terra. O resultado é um estudo recém-publicado por três geofísicos da USP, segundo o qual um importante fenômeno magnético já estava em ação na América do Sul no século 17, 200 anos antes do que se imaginava.

A partir da intuição de Pacca, os pesquisadores Wilbor Poletti, Gelvam Hartmann e Ricardo Trindade analisaram fragmentos de um tipo de piso de ladrilhos que havia no pátio interno das casas dos padres jesuítas que cuidavam da catequização dos índios no atual noroeste do Rio Grande do Sul. Raquel Rech, arqueóloga do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e Nadir Damiani, da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), ajudaram na coleta dos fragmentos, obtidos nas missões de São Luiz Gonzaga, São João Batista e Santo Ângelo, construídas entre 1657 e 1706. Também conseguiram fragmentos de telhas de argila cozida da missão de Santo Ângelo.

Os ladrilhos eram placas feitas de argila queimada em fornos a temperaturas em torno de 1.000°C. Nessas condições, segundo explicação oferecida por Poletti à revista Pesquisa Fapesp, o mineral magnetita, presente na argila, alinha-se com o campo magnético terrestre. Esse alinhamento fica preservado no material, permitindo medir a intensidade do campo magnético naquele momento histórico. Ao fazer essa leitura, a equipe da USP descobriu que a intensidade estava abaixo do esperado.

As Missões Jesuíticas do RS foram cruciais para a pesquisa porque representam o início da colonização na parte meridional do continente e, por esse motivo, oferecem testemunhos magnéticos para explicar como o campo do planeta varia ao longo do tempo.

– As Missões foram importantes devido a sua posição geográfica e seu período de edificação. Não havia nenhuma medida da intensidade do campo magnético da Terra para aquela região e naquela época. Além disso, as construções possuíam ladrilhos e telhas que foram manufaturados localmente a partir da matéria-prima argila. Além disso, há um excelente controle de idade. Obter objetos indígenas com essas características é mais difícil, – explicou Poletti a Zero Hora.

Com a constatação de que o campo magnético no sul do continente era bastante inferior a medições feitas no norte da América do Sul, os pesquisadores chegaram à conclusão de que no auge das reduções jesuíticas, entre 1650 e 1700, já estava em atividade na região o fenômeno conhecido como Anomalia Magnética do Atlântico Sul (Sama, na sigla em inglês). Estudos feitos no passado por Hartmann e Pacca indicavam que, em 1590, a Sama cobria apenas uma pequena porção do sul da África e do Atlântico. Com o tempo, ela foi se expandindo, mas acreditava-se que só teria passado a influenciar o campo magnético do Brasil no século 19. O estudo feito nos ladrilhos missioneiros indica que a influência era bastante anterior.

– A Sama é muito debatida porque pode ser a causa da redução geral na intensidade de todo o campo magnético da Terra, que vem sendo observada nos últimos séculos. O campo terrestre é hoje uns 10% menos intenso do que era quando começou a ser medido com precisão, em 1839, por Carl Friedrich Gauss – disse Poletti.

AS IMPLICAÇÕES

O geofísico Wilbor Poletti fornece quatro exemplos de como o estudo que realizou pode ser utilizado

PARA ENCONTRAR IDADE DE MATERIAIS ARQUEOLÓGICOS

“Uma vez construída uma curva local de intensidade do campo magnético em função do tempo, é possível utilizar essa curva para possíveis datações de materiais arqueológicos provenientes de argila queimada (cerâmicas, tijolos, telhas, ladrilhos). Por exemplo, uma peça cerâmica é encontrada em escavações arqueológicas, mas não se sabe ao certo sua idade. Medindo a intensidade registrada por essa cerâmica e, posteriormente, comparando-a com as curvas de campo magnético pelo tempo, previamente estabelecidas, é possível inferir uma idade para esse material.”

PARA AVALIAR A INFLUÊNCIA DO FLUXO DE PARTÍCULAS SOLARES NOS SISTEMAS ELETRÔNICOS

“Sabe-se que o campo magnético da Terra atua como um escudo antipartículas. E também sabe-se que a Terra é, periodicamente, atingida por um número elevado de partículas energeticamente carregadas provenientes do Sol, as chamadas ‘tempestades solares’. Por estarmos em uma zona em que o campo magnético possui uma anomalia de baixa intensidade, é importante entender, de forma detalhada, se essa anomalia atua como uma mancha permeável a essas partículas. Pois a chegada de um valor elevado dessas partículas na superfície do planeta pode, por exemplo, sobrecarregar as linhas de transmissão de energia.”

PARA MAPEAR GRANDES MIGRAÇÕES HUMANAS

“Um laboratório na França realizou alguns estudos que correlacionaram variações na intensidade magnética da Terra com avanço e recuo de geleiras, sugerindo possíveis ligações entre variações entre campo magnético e clima. Caso isso seja comprovado, grandes migrações poderão ser mapeadas a partir das variações locais do campo magnético. Supostamente as grandes migrações no passado se davam, principalmente, por conta dessas variações no clima, como, por exemplo, momentos de muita seca. Sendo assim, se realmente o campo magnético influenciar no clima do passado, as migrações que ocorreram podem, por sua vez, estar associadas a mudanças no campo.”

DESVENDAR O NÚCLEO DA TERRA

“A partir de informações sismológicas, sabemos que o nosso planeta possui um núcleo externo (líquido) e um interno (sólido). O campo magnético é produzido essencialmente no núcleo externo e é um fenômeno físico que nos permite entender melhor a estrutura que se encontra a cerca de 2,9 mil quilômetros de profundidade. Através do mapeamento do campo em superfície e dos modelos físicos, simulações numéricas são geradas para descrever e entender o que há e ocorre no interior da Terra.”