Notícia

Jornal da USP

Como ajudar São Paulo a crescer

Publicado em 27 março 2000

Pensar o futuro de São Paulo, fazer um balanço das conquistas e dos problemas enfrentados pela cidade é obrigação de todo brasileiro e dever dos paulistas. Com essa premissa, a Assembléia Legislativa de São Paulo deu início no último dia 15 ao Fórum São Paulo Século XXI. Segundo o deputado Carlos Zarattini (PT), organizador do evento, a idéia do fórum é ambiciosa pois pretende reunir todas as organizações e pessoas responsáveis que tenham como contribuir para um plano de desenvolvimento da cidade. "Estamos falando de nossas várias universidades, fundações, autarquias, ONGs, institutos, entidades sindicais, municípios, estudantes, intelectuais, empresários, líderes." Os resultados do evento farão parte de um relatório final que servirá de orientação para o trabalho legislativo do parlamento paulista, bem como fonte relevante de consulta para todos os segmentos da sociedade. O fórum foi criado oficialmente por resolução aprovada pela Assembléia Legislativa em maio de 1999, e prevê a criação de comissões temáticas e de um conselho com poder deliberativo. Zarattini informa que não se trata de iniciativa vaga para promover somente a discussão pela discussão. "Os resultados serão consolidados até o final deste ano." DESENVOLVIMENTO E PESQUISA O primeiro debate, com o tema "Universidades - Ciência, Tecnologia e Comunicação", contou com a participação de todas as universidades estaduais públicas e as federais situadas no Estado. O reitor da Universidade de São Paulo, Jacques Marcovitch, falou da contribuição dos seus pesquisadores ao desenvolvimento científico e tecnológico mundial, lembrando as pesquisas desenvolvidas pelo projeto Genoma, bancado pela Fapesp, que alcançou destaque internacional. Ressaltou, no entanto, que é preciso entender o tempo das universidades para a demonstração dos resultados das pesquisas que não são rápidas, conforme cobranças feitas pela mídia imediatista. Marcovitch disse que é preciso contribuir para abrir um espaço de reflexão baseado na visão prospectiva, e que as humanidades têm a função de construir essa missão de futuro, centrada no ser humano como epicentro da sociedade moderna. Para ele, é preciso definir com clareza o que sejam economia de mercado e sociedade de mercado. "Não queremos uma sociedade de consumo. Não podemos substituir o ser pelo ter." Disse ainda que ao se falar em macroinvestimentos para a ciência e tecnologia está-se querendo mais recursos humanos e financeiros para todo o sistema de inovação, isto é, para aqueles que abrem perspectiva para o novo, a fim de enfrentar desafios. Hermano de Medeiros Tavares, reitor da Universidade de Campinas, defendeu a universidade pública mostrando que a pesquisa científica, em sua maioria, é feita nas universidades públicas e nos centros oficiais de pesquisa. Disse ainda que infelizmente a indústria brasileira responde por uma parcela mínima da pesquisa, ao contrário do que ocorre em países desenvolvidos. Para ele, embora a universidade brasileira tenha tido um início tardio perante os outros países, "o Brasil tem as melhores instituições de educação superior da América Latina", e ressaltou que toda pesquisa desenvolvida deve ter relevância para a melhoria da qualidade de vida da população. Na sua opinião, todo desenvolvimento científico, qualidade de vida e resgate social passam pelo aprimoramento da pesquisa. "É preciso criar metas, revigorar o crescimento das redes de pesquisa do Estado de São Paulo e dar um direcionamento mais específico para as universidades públicas." SITUAÇÃO CRÍTICA O reitor da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), Antonio Manoel dos Santos Silva, destacou a situação financeira da Unesp como uma das mais críticas se comparada à USP e à Unicamp. "Estamos estrangulados. Não podemos nos desenvolver mais, de acordo com o potencial que temos, porque não há como pagar mais aos pesquisadores. A folha dos inativos chega a 30% do orçamento." E mostrou-se pessimista caso nada seja feito para mudar. "A política educacional não pode continuar como está, sem ação governamental. É preciso compreender melhor o crescimento das universidades públicas, pois daqui a seis anos teremos 30 mil graduandos e 12 mil pós-graduandos, só na Unesp." Silva concorda com Marcovitch quanto à forma como a mídia vem tratando a universidade pública. "Não é possível pensar e realizar pesquisa num período mínimo. Nunca se faz um melhoramento genético num curto espaço de tempo." E faz uma advertência: "Se quiserem matar as universidades públicas peçam que atendam ao imediatismo do mercado." Para o reitor da Universidade Federal de São Carlos, José Rubens Rebellato, a proposta da instituição é produzir conhecimento e torná-lo acessível a todas as pessoas que dele necessitem. Para isso, a UFSCAR tem procurado trabalhar com escritórios regionais em Araçatuba, Assis e Fernandópolis buscando realizar parcerias com prefeituras e associações comerciais e promover mutirões juntamente com a população. Também tem projetos de incubadora de cooperativas e educação continuada, "tudo isso visando a criar um sistema harmônico que possa trabalhar em todas as regiões do Estado onde se encontra a universidade", acrescenta. A Universidade Federal de São Paulo, representada pela professora Regina Estela, defendeu a necessidade de se criar políticas estáveis para o destino do orçamento das universidades públicas. Ela criticou o governo por nunca ter se preocupado em desenvolver e aprimorar a indústria química no País, "por isso que atualmente fica difícil controlar o superfaturamento dos materiais básicos que compõem um medicamento". Em continuidade ao Fórum São Paulo Século XXI, dia 29 acontece o debate sobre os "Institutos de Pesquisas Estaduais e Federais". Em abril, dia 12, o tema será "Fontes de Financiamentos às Pesquisas e ao Desenvolvimento"; dia 25, "Inovações Tecnológicas na Produção", e dia 10 de maio, "Política Científica e Tecnológica". Para maiores informações tels. (0xx11) 886-6845 e 886-6850, ou pela Internet http:// www.al.sp.gov.br/index.htm