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Como a deslegitimação da política aparece na reação ao #BrequeDosApps

Publicado em 06 agosto 2020

Por Matheus Pichonelli, colaboração para Ecoa, em Campinas (SP)

Militantes de partidos políticos e organizações como MST, CUT e UNE foram hostilizados no ato para celebrar a redução das tarifas de transporte público em São Paulo no longínquo 20 de junho de 2013. As provocações terminaram em troca de socos e ao menos uma pessoa ferida na cabeça. Sobrou até para as lideranças do Movimento Passe Livre, pivô dos protestos contra o reajuste. Eles foram chamados de "oportunistas" por um grupo que queria protestar contra a corrupção e não aceitava dividir as fileiras com partidos políticos e sindicatos. O resto da história, ao menos até aqui, é conhecida.

Mesmo com contextos, pautas e reivindicações distintas daquelas de sete anos atrás, o discurso de negação da política ainda paira sobre as manifestações populares pelo Brasil. Um exemplo é a mobilização dos motoristas de aplicativos que têm se organizado e saído à rua por melhores condições de trabalho em um país onde a palavra "política" virou palavrão. Na última manifestação, um racha entre entre diferentes vertentes do movimento marcou a paralisação dos motoboys em 25 de julho.

Se no primeiro ato, no começo de julho, em São Paulo, o Sindimoto, que representa a categoria, disponibilizou um carro de som para os manifestantes, na mais recente não houve participação oficial do sindicato. A justificativa era que movimentos político-partidários estavam aderindo à pauta e comprometendo o discurso e as bandeiras da categoria. A mobilização contava com o apoio de nomes como Ciro Gomes (PDT), Manuela D'Ávila (PCdoB), Guilherme Boulos (PSOL) e Sâmia Bomfim (PSOL).

Nas redes, a hashtag do Breque dos Apps ganhou um candidato a concorrente. Antes da segunda paralisação, viralizou no Twitter uma publicação em que um suposto participante preconizava: "A parada é a seguinte: envolveu sindicato e politicagem já era, irmão".

Alguns usuários estranharam a postagem e apontaram a relação entre um consultor de mídias de digitais e uma possível estratégia para sabotar a mobilização. A publicação saiu do ar. No Facebook, foi divulgado um manifesto que pedia dias melhores "sem politicagem, sem acreditar em eleição e mentiras do tipo". Na mesma rede, discursos como este podem ser vistos em uma página criada há um mês com o tema "Não breca meu trampo". O lema é: "GREVE, SINDICATO, TAMO FORA! Ninguém quer ficar parado. Parado ninguém ganha."

Para Ludmila Costhek Abilio, pesquisadora da Fapesp e da Cesit - Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho do Instituto de Economia da Unicamp, onde realiza o segundo pós-doutorado sobre uberização do trabalho, trata-se de uma estratégia de distorcer discursos, aproveitando-se da impopularidade da política, vista como um entrave. "Essa página se apropria do tema e inverte, dizendo 'não breca meu trampo'. Como se o movimento estivesse atrapalhando a vida do trabalhador, e não contribuindo", diz ela.

"A gente não sabe como esse discurso vem sendo formado. Mas ele vai tentar uma desqualificação por meio desses argumentos: 'olha, isso na verdade é do interesse de um sindicato, da propaganda de um partido'. Essas instituições hoje viraram instrumentos fáceis de um uso estereotipado para desqualificar organizações coletivas."

Ludmila Costhek Abilio, pesquisadora da Fapesp e da Cesit - Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho do Instituto de Economia da Unicamp

Costhek Abilio lembra que a organização desses entregadores é nova e que a forma como a manifestação aconteceu é resultado da uberização do trabalho. "De fato não se origina de um sindicato ou partido. O próprio Paulo Galo ganhou muita visibilidade, mas ele mesmo diz que não representa essa base, ele é um pedacinho disso. É uma multidão se organizando. Isso é novo. E isso é potente."

Justamente por essas características, a aproximação de partidos e sindicatos cria impasses. "O discurso do movimento se organizou numa pauta única, clara: melhores condições de trabalho. Hoje vivemos um momento muito perigoso de vários projetos de lei que vão tramitar em regime de urgência e podem até regular esse trabalho de uma forma nociva para os próprios trabalhadores. Isso é uma apropriação dessa força que o movimento tem", crê.

A participação do sindicato, segundo Costhek, é importante, mas também conflituosa. "A pauta do movimento não era pela regulação do trabalho via CLT. Temos que compreender melhor esse discurso, o que os trabalhadores estão pedindo, se há instrumentos jurídicos hoje e como a CLT pode regular esse trabalho. São novas formas de organização, de resistência. Muitas vezes nem é ir pra rua, mas ficar em casa e desligar o aplicativo. É um movimento político. Mas essa política que está desenhando não está cabendo nas figuras dessas instituições. Não que essas instituições não fossem estar presentes, mas elas terão que saber criar as pontes com essa forma de organização e com as suas demandas."

A especialista afirma que, embora tenham um apreço pela possibilidade de gerenciar o próprio tempo, nem sempre os trabalhadores compram o discurso das empresas de que eles são os chefes de si — um discurso que serve para legitimar uma série de precarizações. É isso, segundo ela, que está em disputa nesse caso.

Dá para mudar o mundo sem política?

Editor do podcast #ForadaPolíticaNãoháSalvação, o cientista político e professor da FGV EAESP Claudio Couto afirma que, para entender a dificuldade de sindicatos e partidos se aproximarem de movimentos como o dos motoristas de app, é preciso levar em conta não só o que ele chama de espírito de época do discurso antipolítica, mas também as características das formas de trabalho deste grupo social.

"São trabalhadores que sequer convivem, propriamente, no mesmo espaço físico. Não é como o trabalhador de chão de fábrica, que entra no mesmo horário, sai no mesmo horário, almoça junto, toma cafezinho junto, enfim, que tem toda aquela convivência típica, e que vai ser uma das bases da formação do sindicalismo tradicional. Isso acontece também com outros trabalhadores de classe média, professores, bancários. São trabalhadores que também têm uma convivência mais próxima e mais estreita."

No caso dos motoristas, diz, são trabalhadores por conta própria, que vivem numa espécie de economia de bico, sem uma relação mais direta entre si, mesmo que muitos possam eventualmente se conhecer do bairro, de outras relações. "Cada um faz seu horário e trabalha do jeito que acha que deve. Essas relações vão ser muito mais soltas, dispersas e atomizadas."

Couto aponta que, se por um lado essas características proporcionam autonomia, por outro revelam os limites da insegurança, da precariedade, da baixa proteção e das jornadas excessivas — as razões, portanto, das mobilizações.

"É muito difícil imaginar que esse trabalhador esteja relacionado a uma organização mais estruturada, mais forte, como é o caso do sindicato. Isso porque tem essa ideia: cada um é senhor de si próprio e empreendedor de si mesmo. A dispersão dificulta a organização. Dificultando a organização, dificulta também que eles se vinculem a uma estrutura como sindicato. E, por consequência, também a partidos, já que muitos possuem vínculos estreitos com os sindicatos. No caso de quem não tem vinculo nenhum, que estão soltos, perceber esse tipo de organização como legítima e necessária é mais difícil", analisa.

Couto lembra que o discurso antipolítica não é novo. Além das citadas manifestações de 2013, ele já se insinuava, por exemplo, quando o empresário Antônio Ermírio de Moraes se apresentava como gestor, e não político, na disputa pelo governo do estado.

Couto pondera, entretanto, que os apps são uma novidade não só do ponto de vista da tecnologia, mas também das relações de trabalho.

"O vínculo de 2013 e agora talvez seja menos pela via da antipolítica, e mais pela via das novas relações que são proporcionadas pela tecnologia. Esses trabalhadores vivem num cenário de clima de antipolítica, e isso também vai estar presente ali. Mas não é um fator isolado. Se a gente tentar pegar isso como a única explicação para este rechaço, a gente vai deixar de lado uma coisa fundamental em qualquer organização trabalhista, que é a maneira como essa força de trabalho é organizada"

Claudio Couto, cientista político e professor da FGV

Couto afirma que fazer política é necessariamente estabelecer relações, algo que requer convívio e sociabilidade. "Não é só uma cultura de época, mas a dificuldade de fazer política num cenário como este. As pessoas precisam se conhecer. Política é uma relação estável."

Para ele, a negação política é "uma doença da nossa época". "E é grave porque não tem como resolver uma série de problemas negando a política. A política não é uma escolha. É um dado. É como dizer que não quero mais lidar o oxigênio do ar. Posso até não querer, mas vai estar lá do mesmo jeito. O fato de alguém se negar a lidar com a política vai tornar as coisas mais complicadas."

É o que afirma também, em entrevista ao Ecoa, a deputada Luiza Erundina (PSOL), pré-candidata à Prefeitura de São Paulo, o centro nevrálgico destas novas mobilizações. "A política é uma prática de todos. Você faz política até inconscientemente. Ao agir e ao influenciar o seu entorno você está fazendo política", afirma. Para ela, a população, de modo geral, "tem toda razão de cobrar, de exigir, de estar indignada com o comportamento das pessoas da política". "Mas não podem rejeitar, abrir mão, da política como tal. Porque sem a política não se resolvem os problemas da coletividade."