Notícia

A Cidade On (Araraquara, SP)

Como a ciência vai nos ajudar com as mudanças no clima

Publicado em 25 setembro 2008

Sem o alarde que o tema merece, o Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) lançou no fim de agosto um ambicioso programa de estudos climáticos que vai ajudar o País a entender e enfrentar as mudanças que o planeta vai enfrentar nas próximas décadas. Trata-se do primeiro estudo coordenado e multidisciplinar da história científica brasileira especificamente voltado para a compreensão do clima, os desdobramentos de sua brusca transformação e a seus efeitos sobre nossas vidas.

O projeto é uma ação conjunta entre Fapesp e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e vai reunir pela primeira vez cientistas de múltiplas áreas, incluindo representantes de ciências humanas, como sociólogos e antropólogos, com o objetivo de tornar mais amplo e palpável o estudo. Com recursos iniciais de R$ 100 milhões, o grupo de elite da comunidade científica vai levantar, a partir das perspectivas mundiais, os impactos relacionados ao aquecimento global que afetarão ou já afetam diretamente o Brasil, mas com uma dimensão principalmente humana, sem as arrastadas teses de longo prazo que pautaram as questões ambientais nas últimas décadas.

Em última instância, os cientistas querem criar um modelo climático específico para o Brasil, semelhante ao que tem países como Inglaterra e Japão. Com essa perspectiva de abordar as influências do clima no dia-a-dia, o projeto parte de seis premissas, das mais gerais para chegar às mais específicas: 1) O funcionamento do ecossistema, com ênfase nos ciclos de carbono e nitrogênio; 2) O estudo da radiação da atmosfera, sob o efeito dos chamados aerossóis, e a mudança no uso da terra; 3) Os efeitos das mudanças climáticas sobre agricultura e pecuária – tema que interessa forma especial à nossa região; 4) Energia e ciclo dos gases que provocam o efeito estufa; 5) Impactos na saúde; e 6) Dimensões humanas da mudança global.

A criação de um modelo brasileiro de análise tem conexão direta com o momento que já vivemos. Os efeitos da escassez de chuva e da mudança de ciclos de temperatura e níveis de umidade em nossa região, por exemplo, são nítidos. A eclosão de novas pragas na agricultura e a difusão de doenças ligadas à chuva, como a dengue, ou à seca, como as moléstias respiratórias, são parte de nosso cotidiano. No País, as aberrações climáticas já não são novidade, como a estiagem de 2005 na Amazônia, que expôs leitos de rio no maior bioma do planeta, ou os tornados em Santa Catarina. Mesmo a chegada de doenças novas às cidades tem ligação com a degradação ambiental. É o caso da leishmaniose visceral, infecção antes restrita às áreas essencialmente rurais e que começa a afetar os centros urbanos, em função da destruição das matas, hábitat natural do protozoário que provoca a doença, cujos hospedeiros são os cachorros do mato e as raposas.

A reunião, pela primeira vez, de alguns dos melhores cérebros do País em um projeto voltado para a conservação do lugar em que vivemos é um estimulante sinal de esperança. O programa Fapesp/CNPq, escorado pelos governos federal e estadual, e com apoio de entidades de referência, que conquistaram reconhecimento mundial, como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e a Unicamp, através do Núcleo de Estudos da População, significa um alento. E o primeiro passo para o Brasil tomar o controle do destino de seu próprio território e da sobrevivência às graves transformações climáticas que virão.