A casca da romã, geralmente descartada pela indústria alimentícia, pode esconder uma solução promissora para um problema recorrente da saúde: o tratamento de feridas na pele.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostra que extratos obtidos desse resíduo apresentam ação antimicrobiana eficaz contra bactérias comuns em infecções cutâneas, inclusive microrganismos conhecidos pela alta resistência a tratamentos convencionais.
A pesquisa demonstrou que o extrato da casca de romã conseguiu inibir a ação da Staphylococcus aureus e da Pseudomonas aeruginosa, patógeno associado a quadros de difícil tratamento.
O trabalho contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e foi coordenado pelo pesquisador Mauricio Ariel Rostagno.
Triagem de resíduos e escolha da casca de romã
O estudo foi dividido em quatro etapas. Inicialmente, os pesquisadores testaram a atividade antimicrobiana de extratos obtidos a partir de 11 resíduos da indústria alimentícia, entre eles cascas de laranja, manga, maçã, uva, limão e romã; folhas de manga e goiaba; sementes de melão; além de casca e borra de café.
Todos foram avaliados contra microrganismos comumente associados a infecções de feridas cutâneas.
A casca de romã se destacou como o material mais promissor, ao apresentar a maior atividade antimicrobiana e elevado teor de compostos fenólicos, conhecidos pelo forte potencial antioxidante.
Extração com solventes verdes
Na etapa seguinte, a casca de romã foi submetida a uma ferramenta de simulação computacional para a seleção de solventes verde,iisto é, ecologicamente corretos, capazes de otimizar a extração do ácido elágico, principal composto associado à atividade antimicrobiana do material. Entre os solventes indicados estão a acetona e o álcool isopropílico diluídos em água.
“Por fim, fizemos uma validação laboratorial para produzir novos extratos com esses solventes otimizados e testamos sua atividade antimicrobiana novamente em laboratório para confirmar se a eficácia contra os microrganismos havia, de fato, aumentado”, explica a engenheira de alimentos Thais Carvalho Brito Oliveira, pós-doutoranda na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp e líder do trabalho.
Próximos passos da pesquisa
Os resultados, publicados no Journal of Food Processing and Preservation, indicam um amplo campo para pesquisas futuras.
Entre as possibilidades estão a avaliação detalhada das atividades antimicrobianas de compostos fenólicos puros e de suas combinações, a análise de efeitos sinérgicos, estudos de citotoxicidade e a aplicação dos extratos otimizados em curativos inteligentes.
Apesar do potencial prático, os pesquisadores ressaltam que o estudo ainda se encontra em fase de pesquisa e desenvolvimento em laboratório. Ensaios in vivo estão previstos para etapas posteriores.
Segundo a equipe, o objetivo final é desenvolver um produto eficaz que funcione como alternativa natural aos antibióticos sintéticos, cujo uso indiscriminado tem contribuído para o avanço da resistência bacteriana.
Ao mesmo tempo, a proposta busca dar um destino mais eficiente e rentável aos resíduos da indústria alimentícia, transformando descartes em produtos de alto valor agregado para a saúde humana.