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Nexo Jornal

Como a Amazônia emite mais gás metano do que se pensava

Publicado em 26 dezembro 2017

Por André Cabette Fábio

Em trabalho publicado em dezembro de 2017, pesquisadores brasileiros e britânicos estimaram a produção anual de metano da floresta

Apesar de não serem tão abundantes na atmosfera quanto moléculas de gás carbônico (CO2), moléculas de gás metano (CH4) são capazes de reter 21 vezes mais calor, e também estão entre as principais causas do efeito estufa. Segundo um estudo feito por pesquisadores ligados ao Projeto Europeu para Análise de Gelo Profundo na Antártica, publicado em 2008, a concentração de metano na atmosfera é cerca de 2,5 vezes maior do que os picos observados em um período de 800 mil anos.

A atividade humana é apontada como a grande responsável por essa mudança: quando combustíveis fósseis como petróleo e carvão mineral são extraídos do fundo da terra, gás natural contendo moléculas de metano é liberado. A queima desses combustíveis também libera o mesmo gás, que também é um subproduto da decomposição do lixo e do esgoto humanos, e do processo de digestão das milhões de vacas e bois utilizados para alimentar a humanidade - havia em 2016 um rebanho de cerca de 198 milhões destes animais, apenas no Brasil.

O metano é naturalmente removido da atmosfera quando reage com outras moléculas e forma água e gás carbônico. Essa reação não ocorre, no entanto, em um ritmo suficiente, capaz de acompanhar a atual liberação de metano no mundo. Cientistas têm se esforçado para compreender de forma mais precisa a quantidade de metano produzido pela natureza, que, no atual contexto de superprodução, também tende a se acumular mais rapidamente na atmosfera.

Em um trabalho publicado em dezembro de 2017 na revista Nature, cientistas britânicos e brasileiros estimaram a quantidade de metano de ambientes alagados na Amazônia. Eles concluíram que a produção é de entre 15 milhões e 20 milhões de toneladas ao ano, o equivalente ao que é liberado por todos os oceanos juntos. Estima-se que a produção por combustíveis fósseis é de cerca de 167 milhões de toneladas por ano.

Esses gases não são produzidos pelas árvores vivas, mas seus troncos servem de principal canal para sua liberação. A produção segue o ciclo da floresta: na época seca, áreas alagadas ficam com menos água, o que leva ao crescimento de ervas e gramíneas. Quando as águas sobem novamente, a vegetação submersa morre e se decompõe sem oxigênio, o que leva à produção de metano. É esse gás, canalizado principalmente pelos caules das árvores, que os pesquisadores mediram.

Em 2011, pesquisadores sobrevoaram áreas da Amazônia sobre Pará, Acre, Amazonas e Mato Grosso colhendo amostras de ar em frascos de vidro. Essas amostras foram analisadas para descobrir a concentração de gases estufa, entre eles monóxido de carbono (CO), metano e gás carbônico, o que serviu de base para estimar a produção anual desses gases.

Entre 2013 e 2014, uma outra equipe passou a medir o gás metano liberado por meio das árvores, assim como aquele que atravessava a superfície da água. Unidades de coleta para medição de metano foram posicionadas em 13 pontos de várzeas e igapós dos rios Negro, Solimões, Amazonas e Tapajós. Câmaras flutuantes foram utilizadas para medir as emissões de metano pela superfície da água, e câmaras estáticas, ao redor de troncos e folhas para medir as emissões de 2.300 árvores.

As taxas destes 13 locais foram utilizadas como base para estimar as emissões da floresta como um todo. Tanto as estimativas das medições próximas ao solo quanto aquelas baseadas na coleta de ar tiveram resultados similares.

Os pesquisadores escrevem que a “Amazônia, ao contribuir com até um terço de toda a emissão de CH4 [metano], é uma fonte de CH4 muito maior do que aquilo reportado nos atuais inventários, e provavelmente exerce uma influência maior na variação da concentração de CH4 atmosférico do que se pensava anteriormente”.

Em entrevista à Revista Fapesp, a professora da Unip (Universidade Paulista) Luana Basso, uma das autoras do estudo, afirma que é importante compreender o processo para buscar “prever como a floresta se comportará em diferentes cenários de mudanças climáticas”. O trabalho aponta que esse entendimento também contribuirá para medir a produção de metano por perturbações humanas, como a construção de hidrelétricas - as florestas submersas, assim como a vegetação que cresce e submerge sazonalmente nas margens das represas, também liberam metano.