Notícia

O Serrano

Cometas complexos

Publicado em 03 outubro 2008

Agência FAPESP – Pistas químicas deixadas por um cometa estão mudando as idéias que se tinham a respeito da história e da evolução do Sistema Solar, mostrando que essas são ainda mais complexas do que se imaginava.

Uma análise feita da poeira do halo do cometa Wild 2, coletada em 2004 pela sonda Stardust, da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, revelou sinais de isótopos do oxigênio que sugerem uma inesperada mistura de materiais rochosos do centro e dos extremos do Sistema Solar.

Até então os astrônomos consideravam que os cometas teriam sido formados apenas nas regiões mais distantes do sistema. Mas o novo estudo destaca que, apesar do nascimento nas gélidas regiões no espaço além de Plutão, parte do material do cometa teria vindo do muito mais quente interior do sistema, em regiões mais próximas ao Sol.

Os resultados do estudo foram publicados na edição de 19 de setembro da revista Science, em artigo assinado por pesquisadores dos Estados Unidos e do Japão.

O trabalho vai contra a idéia de que o material que formou o Sistema Solar há bilhões de anos permaneceu restrito a órbitas em torno do Sol. Em vez disso, o estudo sugere que o material cósmico dos cinturões de asteróides entre Marte e Júpiter pode ter migrado para as extremidades do sistema e se misturado com materiais mais primitivos ali encontrados.

A missão Stardust coletou poeira do cometa na expectativa de caracterizar os materiais brutos a partir dos quais o Sistema Solar se formou. Como o cometa teve origem há mais de 4 bilhões de anos a partir da mesma fonte de materiais, sua atual órbita entre Marte e Júpiter oferece uma oportunidade rara de obter tais compostos primitivos. As amostras, que retornaram à Terra em 2006, são as primeiras coletadas no espaço desde o programa Apolo, nas décadas de 1960 e 1970.

O estudo, liderado por Tomoki Nakamura, professor na Universidade de Kyushu, no Japão, analisou composições isotópicas de três cristais do halo do cometa para avaliar suas origens. O maior dos grãos analisado tinha cerca de 1 milionésimo de polegada. Foram examinados com uma microssonda de íons na Universidade de Wisconsin-Madison, considerado o mais avançado instrumento do tipo no mundo.

Os pesquisadores se surpreenderam ao encontrar taxas isotópicas de oxigênio nos cristais similares às verificadas em asteróides ou mesmo no Sol. Como as amostras se parecem mais com as de meteoritos do que com os materiais primitivos encontrados nas baixas temperaturas nos extremos do Sistema Solar, o estudo permite concluir que as partículas formadas em regiões mais quentes teriam sido transportadas durante a infância do sistema.

“A descoberta pede por uma revisão das teorias a respeito da história do Sistema Solar”, disse John Valley, professor de geologia da Universidade de Wisconsin-Madison, um dos autores do estudo.